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Who let the dogs out?
De Cléo Araújo. Quando Bijou colocou suas patinhas na areia da praia pela primeira vez, foi emoção pura. Cléo Araújo é cronista do Blônicas. Os culpados.
De Klauss Klein. O pau quer gozar. O útero receber o gozo. E assim se faz vida. E assim se faz brigas, guerras, lutas. E assim se faz amizade, amor, cumplicidade. Pelo pau se escorrega aqui ou ali. Pelo útero se segura aqui ou ali. E todos vão vivendo, dia após dia, sempre esperando esse encontro. O do pau com o útero. Sem um o outro não tem razão de existir. E a existência sem eles não existiria. Eis, senhores do júri, os culpados. E que culpa mais gostosa. Um dia ainda vão descobrir que o cu só serve mesmo pra cagar. E olhe lá. Mexeram com o português.
De Tati Bernardi. Para tudo! Não me conformo com enjoo sem circunflexo. Sentir enjoo, ao menos pra mim, é a pior coisa do mundo. É a certeza de que tudo vai muito mal, deu muito errado, saiu do controle. Tem que ter intensidade, tem que ser acentuado. Transformaram o passar mal numa coisa que passa desapercebida (ou despercebida?). Tiraram o drama do enjoo. Tiraram a dramaticidade de quem briga e grita “paraaa tudooo”. Ideia sem acento é outra coisa que me mata. Porque quando temos uma, a vida flui, abre um chacra no topo da nossa cabeça (meu psiquiatra espírita que disse). Os braços se abrem em alegria. A lâmpada surge em cima da cabeça. O mundo pede um acento pra isso. Ideeeeia. Ninguém tem uma ideia. A gente tem uma ideeeeia. Porque ideia fraca nem chega a classificar ideia. Ideia serve pra se destacar, não? Paranoia serve pra ser sentida até suas últimas consequências sem trema. Assim como estreia. Ninguém estreia pra passar despercebido (ou desapercebido?). É duro ter apego a uma verdade e de repente (ainda bem que não inventaram de ser “derrepente”) ela passar a ser incorreta. Eu tinha muito apego às minhas ideias com acento. Mas crase nunca soube usar direito e eles insistem em manter: afinal, "às minhas ideias” têm crase? Ainda bem que “minhas ideias têm” continua com acento no tem. Meu cérebro entende que onde tem mais de um querendo ter ideia, tem sempre um que toma chapéu. Já os coitados que veem, agora, vão ter de ver de pé mesmo. A última: meu cérebro também entende que voo sem acento pode ser aceitável, afinal, já é assim mesmo que a gente se sente espremido neles. E peço desculpa a vocês por esse parágrafo com três trocadilhos infames e seguidos, mas não resisti. Tô com medo de ter virado a minha avó, que em seu livro de receitas escrevia absurdos como “êle” (calma, ela não fazia picadinha de gente). Já tô até vendo meus netos lendo meus livros antigos e rindo de erros de ortografia e outras bobeiras que certamente cairão em desuso. Como procurar um romântico avô para eles, por exemplo. Um assunto que virou quase uma pedra de césio é a tal da diferença entre história e estória. ESTÓRIA não existe mais, gente! Há anos! Mas já percebeu como tem sempre alguém de óculos que adora brigar por isso? E “estória” também era mentirinha, lorota, livro de criança. Como hoje em dia tudo ficou sério demais (até bala barata de cinema só vende se tiver vitaminas e fibras), virou tudo história mesmo. Tudo chato e de verdade. Tem mudança que não me incomodou nem um pouco. A queda do tal de acento agudo “na primeira pessoa do plural do pretérito perfeito dos verbos da primeira conjugação”. Oi? Que língua é essa? Quem fala assim além de padre e/ou pseudo ator ex-comunista e ex-hippie e atual budista de peça de teatro chata que fica adaptando russo em teatro sem ar condicionado? Quem fala: amámos ou louvámos? O trema também já vai tarde. Eu já não uso desde o colegial, quando a Celina, minha professora querida que nunca esqueço, liberava a gente desses pontinhos chatos. Pontinhos servem pra classificar ideias mal acabadas ou infinitas ou misteriosas e assinatura de metidos a maçom (metido “a” tem crase?). Mas pra fazer som de francesa transando não. “Oui”! Já em Portugal, finalmente eles tiraram o “c” de ação. Ninguém que precisa agir rápido para (do verbo parar) para (olha a dificuldade) ter uma “acção” ou um “acto”. Quem se deu bem foi o kiwi (diferente da pera), que agora, tem duas de suas únicas consoantes aceitas pelo dicionário. Se fosse “kiwy”, essa seria uma fruta heroica sem acento. Um exemplo de modernidade. Deveria ter um monumento de “kiwy” em frente ao Museu da Língua Portuguesa. E a história dele é séria: tem vitaminas e fibras e tal. Ao final do texto, meu “corretor do Word” desavisado, ultrapassado e sofredor, me avisa de muitos erros. Mal sabe ele. Tati Bernardi é cronista do Blônicas. Vídeo-Crônica "Homo Erectus"
De Marcelino Freire. Direção, ilustração e animação de Rodrigo Burdman. Narração de Paulo Cesar Peréio. Marcelino Freire é cronista do Blônicas. A arte de esperar.
De Bianca Rosolem. Eu sentei e esperei. Posicionei o corpo ereto na cadeira. Os pés paralelos e firmes sobre o chão. Pousei os pulsos levemente sobre a mesa. Cumpri com as primeiras orientações indicadas no Capítulo I de “A arte de esperar”. O livro – ou manual – é o grande best-seller de todas as listas de vendagem, arrebatando milhares de leitores pelo mundo. Retirei do bolso lentamente anotações para recordar os movimentos subseqüentes e não falhar em nenhuma das noções do livro. Minha caligrafia diminuta, para conter o máximo de informações possíveis no menor pedaço de papel, relembrava alguns dos trechos do livro que hoje é unanimidade nas cabeceiras. Lá dizia “retire alguma leitura de conteúdo agradável, atual e com alguma postura crítica não radical e eleve-a então à altura dos olhos”. Então, peguei despretensiosamente da bolsa, sem demonstrar ansiedade – JAMAIS ANSIEDADE – a biografia não censurada de Lula. Coloquei-a da maneira indicada, de forma a mostrar meu interesse por assuntos necessários, porém sem aparentar preocupação excessiva... Deu pra entender? Bianca Rosolem é cronista do Blônicas. Ursulino, o touro.
De Carlos Castelo. Mais que urso, em termos de saúde, Ursulino era um touro. Até os 82 anos nunca tivera um defluxo. E o primeiro resfriado que lhe ocorreu curou-o num só dia. Tomando banhos frios de cachoeira e chá com rum - duas garrafas inteiras do cubano. Era assim com ele. Queria mostrar quem mandava. Estava no comando de sua robusta saudabilidade e espezinhava os que se acovardavam, indo às consultas periódicas, fazendo ridículos exames de rotina. “Fique longe dos homens de branco quem não quiser morrer antes da hora”, costumava filosofar bebendo vinho barato e mordendo um gorduroso salame italiano. Quando fez 100 anos ganhou dos parentes uma estátua no jardim. Nela aparecia em forma de Atlas. Um contra-parente, metido a artista plástico, também pintou uma tela com o mar batendo numa rocha monstruosa e a batizou de “Ursulino, portento da natureza”. Estava claro que ele deixara de ser um senhor de terceira idade fora dos padrões para ser motivo de vaidade e orgulho da família. Qualquer primo, vizinho ou conhecido ao ser perguntado sobre Ursulino respondia com brilho na voz: “não é mais uma pessoa, é uma fortaleza”. E a empregada doméstica, uma senhora paraibana corcunda muito feia, limitava-se a ficar repetindo: “Seu Ursulino? Hum, ô véi duro na queda do cão, meu fí!”. Pelos 109 anos, Ursulino deu um susto em seus admiradores. Teve uma dorzinha fina no braço e uma azia forte. Os netos julgaram que ele enfartava. O mais velho levou-o, sob protesto, a um pronto-socorro próximo. Em uma hora, dezenas de curiosos do bairro se aglomeravam na sala de espera do PS. Todos buscando novas sobre aquele ícone da vitalidade humana. Quando estavam num canto praticamente interrogando a enfermeira de plantão, o próprio Ursulino saiu andando lá de dentro. Tia Noca, nervosíssima, berrou lá da porta da frente: - Linozinho! Tu, doente? Pode uma coisa dessas? Ele deu de ombros, com expressão enfastiada. Usando o vozeirão que lhe caracterizava explicou ironicamente: - Acharam que era coração. Examina daqui, alfineta dali, não encontraram foi nada. Só que ninguém me perguntava o que eu achava que era… - E o que era, homem de Deus? Diz logo! - Na hora que me deixaram abrir a boca, eu falei pro doutorzinho lá: “moço, eu comi dobradinha com toicinho. Fui de madrugada na geladeira, meti na boca, direto da panela, com muita pimenta e farinha. Se eu puder me aquietar num vaso, soltar uns três ou quatro traques daqueles bons, saio daqui já, já”. - E eles? - Deixaram eu ir. Queriam me levar na cadeira de roda, mas recusei. Passei quinze minutos obrando, obrando, obrando e sai bonzinho. - Avalie! Chega tá corado, Linozinho. - Peidar, ô santo rémedio, minha filha! Um homem que caga todo dia sabe o que é o paraíso! Rumaram para o bar do Tomate com o objetivo de comemorar a bem aventurança de Ursulino. Cerveja gelada, pinga e torresmo de barriga de porca para quem se achegasse. O velho foi o último a deixar a bodega, ali pelas quatro e meia. Isso porque ficou de olho comprido para uma mocinha que a sobrinha trouxera da faculdade. Queria porque queria cantar para a rapariga no velho violão Del Vecchio de casa. Conseguiu. E o que Ursulino, o que diariamente ridicularizava a Morte, não conseguiria? A cantoria acabou às sete da matina, quando o padeiro largou leite e ovos na soleira da porta. Ursulino pediu omelete de bacon à empregada, engoliu-o com café preto e foi deitar-se. Acordou no meio da tarde para um banho completo. Comportava-se como criança nessas ocasiões, cantando e dançando em meio à espuma. Foi numa dessas micagens, em cima do chão molhado do box, que acabou arriando os quartos no chão e quebrando as cadeiras. Mandarem-se todos às pressas para o hospital. Deu-se o de sempre: cirurgia, UTI, os cambaus. Não houve jeito desta vez. Oito longos meses depois as complicações da operação levaram Ursulino para o ladinho de Nosso Senhor. Coroas de flores, padres, pastores, rabinos, rabecão. Centenas de pessoas comprimindo-se na câmara onde velavam-no. Calor do norte da África. No momento em que fechavam o caixão, uma vizinha de porta, já septuagenária, começou a berrar em completo desespero: - Ai, meu Jesus: morreu, morreu!! Ursulino morreu!!! Daí a irmã de tia Noca, moça velha, sem papas na língua, esbravejou mais alto do lado oposto: - Morreu! Morreu mesmo!!! Mas foi de erro médico!!! De erro médico, viu? Carlos Castelo é cronista do Blônicas. Do verbo levar e suas coreografias de calçada.
De Xico Sá. LEVO minha menina na calçada, pelo lado de dentro, o da parede, que é o lugar da moça no passeio público, que é o lugar que diz o status do enlace para o mais lesado dos transeuntes. do lado de fora, a bonequinha na beira do asfalto, é amizade; do outro, como na coreografia dos meus passos de fred astaire do crato , do hellcife ou das augustas: romance, namoro, amor de muito, amancebo social clube. Levo ao cine, ao concerto de rock, ao original olinda style, à tapioca, às quiches com com alface americana ou aos três acordes arroz, feijão e bife -por favor, uma farofa de ovo e uma cerveja preta, please, sim, ela ama uma banana assada, noooosa!, traga. Não esquecer de levar também, viu, para comprar vestidos e roupas de veraneio, q prazer nada viado aquele barulhinho da cortina dos provadores vagabundos. levo porque levar é a grande função do bicho macho contemporâneo nesses tempos de frouxidões e covardias no atacado e no varejo. Levo de avião ou de busão, mas sempre mantendo a classe, levo, pq o resgate do cavalheiro roots está no levar a dama na riqueza ou no pé-sujo, na cachaça ou na campanhota, no free jazz ou no bolero, levar a moça, inclusive, para conhecer as nossas contradições, talvez a mó fortuna crítica dum homem. Levar e não esquecer dos degraus e altos e baixos da cidade, donde damos uma mão como amparo e prova inconteste do amor que sobra em todos os nossos membros... inferiores, superiores, robóticos, polvos de todos os mares trabalhando para o bem-estar, conforto e requinte da pequena. Xico Sá é cronista do Blônicas. |