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Who let the dogs out?

De Cléo Araújo.

Quando Bijou colocou suas patinhas na areia da praia pela primeira vez, foi emoção pura.
Jogou as “orelhinhas” (sic) para traz para sentir a brisa do mar batendo em seu rosto e caminhou um pouco pela areia morna, achando aquilo tudo muito esquisito, diferente, super legal. Ah, mas o ineditismo daquela imensidão... Ela não resistiu. Rapidamente o que era uma doce caminhada se transformou em um clássico arrastamento de mim pelas barracas e carrinhos do Rochinha, tamanha a pressa da bichinha de chegar até aquela coisa azul, barulhenta e espumosa que ela via pela primeira vez. Veio, então, a primeira onda. Desavisada e desinformada que era, Bijou levou o primeiro caldo. Mas a alegria era tanta que, de coleira molhada e tudo, ela nem ligou. Era a própria Cachorra de Ipanema. Foi então que um surfista simpático se deslocou lá do fundo do mar até nós só para ver Bijou de perto. Contou que o seu cachorro tinha ficado em São Paulo porque oras, ele não sabia que agora os bons donos poderiam trazer seus filhotes para o condomínio. “Na próxima o Timóteo vem”, prometeu. “Quem sabe a Bijou e ele não ficam amigos?”. Amigos... Sei...
Antes de voltarmos para casa para ela curtir seu cochilo e para eu poder voltar para praia sozinha, uma despedida bem no estilo Bijou: pluft! - o focinho na areia. Claro que acabou dando uma leve sufocada, mas nada que estragasse a experiência daquela delicada manhã sob a luz do sol.
Pois essa, infelizmente, talvez tenha sido a primeira e a última experiência de Bijou a beira mar.
Sabe, eu me considero uma dona de cachorro ligeiramente cidadã.
Dentro da minha casa, confesso, talvez não. Mas dentro da minha casa, bom, lá é o único lugar do mundo onde eu faço o que eu quiser. Converso com a cachorra, durmo com a cachorra, peço conselhos para cachorra, planto beterraba, bato iogurte com sakê e aipo no liquidificador, tricoto botas de lã para os gnomos, enfim, ninguém tem nada a ver com isso.
Mas fora de casa, modéstia a parte, me comporto como deveriam se comportar TODOS os donos de qualquer exemplar da fauna brasileira, desde que sua criação em cativeiro esteja legalizada pelo IBAMA.
Por exemplo.
Você não corre o risco de pisar num cocô da Bijou na Al. Lorena.
Você não corre o risco de ser atacado pela Bombshell Bijou enquanto caminha faceiro para banca de jornal.
Eu recolho todos os cocôs de Bijou e me encarrego de levar o saquinho com os dejetos para o lugar apropriado. Que não, não é a calçada.
Bijou está sempre, eu repito, sempre, de coleira e guia. Afinal de contas e apesar de tudo ela é uma cachorra.
Por isso, quando recebi o comunicado do condomínio da praia dizendo que, depois de 19 anos de proibição à entrada de animais de qualquer cor e espécie em suas dependências, eles estavam abrindo essa possibilidade, fiquei muito feliz. Bijou, então, foi correndo comprar um biquíni.
Passamos quatro dias muito agradáveis lá na praia.
Mas tal qual no planalto, você não correria o risco de pisar num cocô da Bijou em plena Avenida Mãe Bernarda. Tal qual no planalto, você não correria o risco de ser atacado pela Summer Bombshell Bijou enquanto curtisse sua água de coco debaixo de uma palmeira na tranquila paz da Barra do Una.
Bijou aproveitou seus dias de praia sim, mas respeitando todos os limites e regras impostos pelos administradores e pelo bom senso, tanto dos homens quanto dos cães.
Bijou viu o mar sim, mas na coleira. E voltou para casa feliz, sem jamais ter atrapalhado o feriado de ninguém, nem dos homens nem dos cães.
Mas, nem todo mundo agiu assim. Nem todos os homens, porque os cães, coitados, certamente não tiveram nada a ver com isso. Eles cagam, mijam e latem. E isso é fato.
Menos de dois meses depois dessa abertura sem precedentes pelo condomínio, eis que chega a minha caixa de entrada um novo comunicado: a nova regra passava a ser a antiga. Os cachorros voltavam a ser (personas?) non gratas.
Diziam ter se tratado aquela de uma “iniciativa calamitosa” – eram essas as palavras. “Fezes espalhadas por todo o empreendimento. Fezes não recolhidas dentro das residências. Odor de urina impregnado em inúmeros locais. Cães, inclusive de grande porte, circulando com coleira, mas sem guia, ainda que ao lado dos seus responsáveis. Ataques a pessoas por parte de alguns animais. Brigas entre cães hospedados em residências distintas.”. Ou seja, o caos. Bijou ficou tão horrorizada que soltou um pum (única atitude pouco fina de seus hábitos que ela insiste em não corrigir).
Sentimos muito, mas sabemos que é o mundo é assim mesmo – o azar não é de quem caga e anda, mas de quem pisa na merda.
Bijou só se lamenta por Timóteo.
Agradece, aliás, qualquer informação.

Cléo Araújo é cronista do Blônicas.

Escrito por Blônicas . às 18h15
[]


Os culpados.

De Klauss Klein.

Nessa vida só há dois culpados: o pau e o útero.

O pau quer gozar.

O útero receber o gozo.

E assim se faz vida.

E assim se faz brigas, guerras, lutas.

E assim se faz amizade, amor, cumplicidade.

Pelo pau se escorrega aqui ou ali.

Pelo útero se segura aqui ou ali.

E todos vão vivendo, dia após dia, sempre esperando esse encontro.

O do pau com o útero.

Sem um o outro não tem razão de existir.

E a existência sem eles não existiria.

Eis, senhores do júri, os culpados.

E que culpa mais gostosa.

Um dia ainda vão descobrir que o cu só serve mesmo pra cagar.

E olhe lá.

 
Klauss Klein é leitor do Blônicas e escreve como convidado.

Escrito por Blônicas . às 17h57
[]


Mexeram com o português.

De Tati Bernardi.

Para tudo! Não me conformo com enjoo sem circunflexo. Sentir enjoo, ao menos pra mim, é a pior coisa do mundo. É a certeza de que tudo vai muito mal, deu muito errado, saiu do controle. Tem que ter intensidade, tem que ser acentuado. Transformaram o passar mal numa coisa que passa desapercebida (ou despercebida?). Tiraram o drama do enjoo. Tiraram a dramaticidade de quem briga e grita “paraaa tudooo”.

Ideia sem acento é outra coisa que me mata. Porque quando temos uma, a vida flui, abre um chacra no topo da nossa cabeça (meu psiquiatra espírita que disse). Os braços se abrem em alegria. A lâmpada surge em cima da cabeça. O mundo pede um acento pra isso. Ideeeeia. Ninguém tem uma ideia. A gente tem uma ideeeeia. Porque ideia fraca nem chega a classificar ideia. Ideia serve pra se destacar, não? Paranoia serve pra ser sentida até suas últimas consequências sem trema. Assim como estreia. Ninguém estreia pra passar despercebido (ou desapercebido?). É duro ter apego a uma verdade e de repente (ainda bem que não inventaram de ser “derrepente”) ela passar a ser incorreta. Eu tinha muito apego às minhas ideias com acento. Mas crase nunca soube usar direito e eles insistem em manter: afinal, "às minhas ideias” têm crase?

Ainda bem que “minhas ideias têm” continua com acento no tem. Meu cérebro entende que onde tem mais de um querendo ter ideia, tem sempre um que toma chapéu. Já os coitados que veem, agora, vão ter de ver de pé mesmo. A última: meu cérebro também entende que voo sem acento pode ser aceitável, afinal, já é assim mesmo que a gente se sente espremido neles. E peço desculpa a vocês por esse parágrafo com três trocadilhos infames e seguidos, mas não resisti.

Tô com medo de ter virado a minha avó, que em seu livro de receitas escrevia absurdos como “êle” (calma, ela não fazia picadinha de gente). Já tô até vendo meus netos lendo meus livros antigos e rindo de erros de ortografia e outras bobeiras que certamente cairão em desuso. Como procurar um romântico avô para eles, por exemplo.

Um assunto que virou quase uma pedra de césio é a tal da diferença entre história e estória. ESTÓRIA não existe mais, gente! Há anos! Mas já percebeu como tem sempre alguém de óculos que adora brigar por isso? E “estória” também era mentirinha, lorota, livro de criança. Como hoje em dia tudo ficou sério demais (até bala barata de cinema só vende se tiver vitaminas e fibras), virou tudo história mesmo. Tudo chato e de verdade.

Tem mudança que não me incomodou nem um pouco. A queda do tal de acento agudo “na primeira pessoa do plural do pretérito perfeito dos verbos da primeira conjugação”. Oi? Que língua é essa? Quem fala assim além de padre e/ou pseudo ator ex-comunista e ex-hippie e atual budista de peça de teatro chata que fica adaptando russo em teatro sem ar condicionado?   Quem fala: amámos ou louvámos?

O trema também já vai tarde. Eu já não uso desde o colegial, quando a Celina, minha professora querida que nunca esqueço, liberava a gente desses pontinhos chatos. Pontinhos servem pra classificar ideias mal acabadas ou infinitas ou misteriosas e assinatura de metidos a maçom (metido “a” tem crase?). Mas pra fazer som de francesa transando não. “Oui”!

Já em Portugal, finalmente eles tiraram o “c” de ação. Ninguém que precisa agir rápido para (do verbo parar) para (olha a dificuldade) ter uma “acção” ou um “acto”. Quem se deu bem foi o kiwi (diferente da pera), que agora, tem duas de suas únicas consoantes aceitas pelo dicionário. Se fosse “kiwy”, essa seria uma fruta heroica sem acento. Um exemplo de modernidade. Deveria ter um monumento de “kiwy” em frente ao Museu da Língua Portuguesa. E a história dele é séria: tem vitaminas e fibras e tal.

Ao final do texto, meu “corretor do Word” desavisado, ultrapassado e sofredor, me avisa de muitos erros. Mal sabe ele.

Tati Bernardi é cronista do Blônicas.

Escrito por Blônicas . às 18h27
[]


Vídeo-Crônica "Homo Erectus"

De Marcelino Freire.

Direção, ilustração e animação de Rodrigo Burdman.

Narração de Paulo Cesar Peréio.

Marcelino Freire é cronista do Blônicas.

Escrito por Blônicas às 09h23
[]


A arte de esperar.

De Bianca Rosolem.

Eu sentei e esperei. Posicionei o corpo ereto na cadeira. Os pés paralelos e firmes sobre o chão. Pousei os pulsos levemente sobre a mesa. Cumpri com as primeiras orientações indicadas no Capítulo I de “A arte de esperar”. O livro – ou manual – é o grande best-seller de todas as listas de vendagem, arrebatando milhares de leitores pelo mundo. Retirei do bolso lentamente anotações para recordar os movimentos subseqüentes e não falhar em nenhuma das noções do livro. Minha caligrafia diminuta, para conter o máximo de informações possíveis no menor pedaço de papel, relembrava alguns dos trechos do livro que hoje é unanimidade nas cabeceiras. Lá dizia “retire alguma leitura de conteúdo agradável, atual e com alguma postura crítica não radical e eleve-a então à altura dos olhos”. Então, peguei despretensiosamente da bolsa, sem demonstrar ansiedade – JAMAIS ANSIEDADE – a biografia não censurada de Lula. Coloquei-a da maneira indicada, de forma a mostrar meu interesse por assuntos necessários, porém sem aparentar preocupação excessiva... Deu pra entender?
Ok. Estou indo bem.
Não olhei ao meu redor e, principalmente, para a porta, apenas pedi água sem gás com gelo e limão ao garçom mantendo a voz suave e bem colocada. Com tal gesto, como disposto no Capítulo III, intitulado “A angústia da espera e o alcoolismo”, eu demonstrava que, sim, aguardava a presença de alguém, mas não precisava beber álcool para me sentir mais confortável. Sem contar a grande advertência “aquele que bebe relaxa de seus propósitos e logo após alguns goles aflorará a real natureza de seus sentimentos: ansiedade, tensão, nervosismo...”etc.
Eu bebericava a água e por vezes modificava minha expressão para demonstrar meu envolvimento com a leitura deixando o ESPERAR como ação em segundo plano. Não brincar com objetos sobre a mesa, ou retocar a maquiagem abrindo aquele enorme estojo no meio do restaurante, eram comportamentos proibidos que, segundo a autora – grande estudiosa de comportamentos de felinos exóticos domésticos e de seres humanos urbanos neuróticos solitários – demonstrariam em caixa alta: Estou ansiosa, insegura, e preciso de você para meu universo se tornar real.
É que é assim: O livro que inspirou Mimi G. Watson a publicar seu best-seller, foi o best-seller blockbuster “Algumas ponderações sobre os indivíduos urbanos, neuróticos e solitários” de Fredmund Zagbaunt, sociólogo e fashion icon polonês. Este livro dissecou como pessoas habitantes de grandes centros urbanos eram solitárias porque ansiosas e neuróticas ou, ao inverso, ansiosas e neuróticas porque solitárias. Todas sozinhas, donas de peculiaridades doentias, como gatos alcoólatras, coleção de filmes com mortes reais e sexo com evacuação para atingir o clímax, e assim vai. Essas pessoas perdiam o senso mínimo e se relacionavam ansiosas e sem auto-estima a fim de romper com suas deficiências existenciais. Eu acho que é isso.
Porém, para complementar a busca espiritual iniciada por Zagbaunt, Mimi escreveu de forma prática e ordenada, após muito estudo, o livro para aqueles que bravamente desejavam romper sua cápsula anti-social.
Pois não bastava dizer a esses solitários que a presença de outros seres humanos é edificante, se eles não sabiam se comportar sem deixar sua patologia domina-los acabando por espantar pretendentes. Esses mandamentos do manual de bolso dos “esperadores”- como foram chamados – levaram milhares de pessoas pelo mundo a freqüentarem lugares públicos à espera de um encontro decisivo.  Muitas síndromes das pernas inquietas, roedores de dedos, fumantes compulsivos, alcoólatras bafoneiros, dentre tantos outros sintomas, foram apaziguados para o sucesso dos “esperadores”.
Mas tenho de ser honesta que eu errei. Feio. Mesmo, mesmo. “To f*!
Meu ser esperado – que conheci no chat da internet - o Sr. Lonely Blues playing in my heart – sentou-se nesse momento à minha frente e flagrou-me escrevendo este texto compulsivamente. O “Lula” já tinha escorregado para baixo da mesa e palitinhos de dente moídos espalhavam-se pela toalha quadriculada. Eu, Srta. Fucking hard with the heart, fui pega com a boca na botija. Infringi a regra de ouro do Capítulo IX: Jamais demonstre sua propensão à alma inquieta e só, amante das entrelinhas e do mundo das letras, escafandrista de universos alheios. Afinal, escritores, você sabe, grande pé no saco!

Bianca Rosolem é cronista do Blônicas.

Escrito por Blônicas . às 18h14
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Ursulino, o touro.

De Carlos Castelo.

Mais que urso, em termos de saúde, Ursulino era um touro.

Até os 82 anos nunca tivera um defluxo. E o primeiro resfriado que lhe ocorreu curou-o num só dia. Tomando banhos frios de cachoeira e chá com rum - duas garrafas inteiras do cubano.

Era assim com ele. Queria mostrar quem mandava.

Estava no comando de sua robusta saudabilidade e espezinhava os que se acovardavam, indo às consultas periódicas, fazendo ridículos exames de rotina.

“Fique longe dos homens de branco quem não quiser morrer antes da hora”, costumava filosofar bebendo vinho barato e mordendo um gorduroso salame italiano.

Quando fez 100 anos ganhou dos parentes uma estátua no jardim. Nela aparecia em forma de Atlas. Um contra-parente, metido a artista plástico, também pintou uma tela com o mar batendo numa rocha monstruosa e a batizou de “Ursulino, portento da natureza”.

Estava claro que ele deixara de ser um senhor de terceira idade fora dos padrões para ser motivo de vaidade  e orgulho da família.

Qualquer primo, vizinho ou conhecido ao ser perguntado sobre Ursulino respondia com brilho na voz: “não é mais uma pessoa, é uma fortaleza”.

E a empregada doméstica, uma senhora paraibana corcunda muito feia, limitava-se a ficar repetindo: “Seu Ursulino? Hum, ô véi duro na queda do cão, meu fí!”.

Pelos 109 anos, Ursulino deu um susto em seus admiradores.

Teve uma dorzinha fina no braço e uma azia forte. Os netos julgaram que ele enfartava. O mais velho levou-o, sob protesto, a um pronto-socorro próximo.

Em uma hora, dezenas de curiosos do bairro se aglomeravam na sala de espera do PS.

Todos buscando novas sobre aquele ícone da vitalidade humana.

Quando estavam num canto praticamente interrogando a enfermeira de plantão, o próprio Ursulino saiu andando lá de dentro.

Tia Noca, nervosíssima, berrou lá da porta da frente:

- Linozinho! Tu, doente? Pode uma coisa dessas?

Ele deu de ombros, com expressão enfastiada. Usando o vozeirão que lhe caracterizava explicou ironicamente:

- Acharam que era coração. Examina daqui, alfineta dali, não encontraram foi nada. Só que ninguém me perguntava o que eu achava que era…

- E o que era, homem de Deus? Diz logo!

- Na hora que me deixaram abrir a boca, eu falei pro doutorzinho lá: “moço, eu comi dobradinha com toicinho. Fui de madrugada na geladeira, meti na boca, direto da panela, com muita pimenta e farinha. Se eu puder me aquietar num vaso, soltar uns três ou quatro traques daqueles bons, saio daqui já, já”.

- E eles?

- Deixaram eu ir. Queriam me levar na cadeira de roda, mas recusei. Passei quinze minutos obrando, obrando, obrando e sai bonzinho.

- Avalie! Chega tá corado, Linozinho.

- Peidar, ô santo rémedio, minha filha! Um homem que caga todo dia sabe o que é o paraíso!

Rumaram para o bar do Tomate com o objetivo de comemorar a bem aventurança de Ursulino.

Cerveja gelada, pinga e torresmo de barriga de porca para quem se achegasse.

O velho foi o último a deixar a bodega, ali pelas quatro e meia. Isso porque ficou de olho comprido para uma mocinha que a sobrinha trouxera da faculdade.

Queria porque queria cantar para a rapariga no velho violão Del Vecchio de casa.

Conseguiu. E o que Ursulino, o que diariamente ridicularizava a Morte, não conseguiria?

A cantoria acabou às sete da matina, quando o padeiro largou leite e ovos na soleira da porta.

Ursulino pediu omelete de bacon à empregada, engoliu-o com café preto e foi deitar-se.

Acordou no meio da tarde para um banho completo.

Comportava-se como criança nessas ocasiões, cantando e dançando em meio à espuma.  Foi numa dessas micagens, em cima do chão molhado do box, que acabou arriando os quartos no chão e quebrando as cadeiras.

Mandarem-se todos às pressas para o hospital.

Deu-se o de sempre: cirurgia, UTI, os cambaus.

Não houve jeito desta vez. Oito longos meses depois as complicações da operação levaram Ursulino para o ladinho de Nosso Senhor.

Coroas de flores, padres, pastores, rabinos, rabecão. Centenas de pessoas comprimindo-se  na câmara onde velavam-no.

Calor do norte da África.

No momento em que fechavam o caixão, uma vizinha de porta, já septuagenária, começou a berrar em completo desespero:

- Ai, meu Jesus: morreu, morreu!! Ursulino morreu!!!

Daí a irmã de tia Noca, moça velha, sem papas na língua, esbravejou mais alto do lado oposto:

- Morreu! Morreu mesmo!!! Mas foi de erro médico!!! De erro médico, viu?

Carlos Castelo é cronista do Blônicas.

Escrito por Blônicas . às 15h45
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Do verbo levar e suas coreografias de calçada.

De Xico Sá.

LEVO minha menina na calçada, pelo lado de dentro, o da parede, que é o lugar da moça no passeio público, que é o lugar que diz o status do enlace para o mais lesado dos transeuntes. do lado de fora, a bonequinha na beira do asfalto, é amizade; do outro, como na coreografia dos meus passos de fred astaire do crato , do hellcife ou das augustas: romance, namoro, amor de muito, amancebo social clube.

Levo ao cine, ao concerto de rock, ao original olinda style, à tapioca, às quiches com com alface americana ou aos três acordes arroz, feijão e bife -por favor, uma farofa de ovo e uma cerveja preta, please, sim, ela ama uma banana assada, noooosa!, traga.

Não esquecer de levar também, viu, para comprar vestidos e roupas de veraneio, q prazer nada viado aquele barulhinho da cortina dos provadores vagabundos. levo porque levar é a grande função do bicho macho contemporâneo  nesses tempos de frouxidões e covardias no atacado e no varejo.

Levo de avião ou de busão, mas sempre mantendo a classe, levo, pq o resgate do cavalheiro roots está no levar a dama na riqueza ou no pé-sujo, na cachaça ou na campanhota, no free jazz ou no bolero, levar a moça, inclusive, para conhecer as nossas contradições, talvez a mó fortuna crítica dum homem.

Levar e não esquecer dos degraus e altos e baixos da cidade, donde damos uma mão como amparo e prova inconteste do amor que sobra em todos os nossos membros... inferiores, superiores, robóticos, polvos de todos os mares trabalhando para o bem-estar, conforto e requinte da pequena.

Xico Sá é cronista do Blônicas.

Escrito por Blônicas . às 16h47
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