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O estranho caso do atirador do mercado municipal.
De Nelson Botter Jr. Quem esteve presente naquele dia no Mercado Municipal de São Paulo jura de pés juntos que o homem chegou atirando sem falar uma palavra sequer. Simplesmente chegou descarregando o revólver. Ninguém entendeu nada, mas nessas horas também não há muito que entender, é se jogar no chão e seja o que Deus quiser. Nelson Botter Jr é cronista do Blônicas. Clô e eu.
De Carlos Castelo. Foi ali por 2003. Eu lançava o livro “Guia de Sobrevivência no Brasil”. Naquela ocasião, a pedido do editor, eu ia a todo e qualquer programa de rádio ou TV que me convidasse para divulgar a “obra”. Cheguei a apresentar armas num programa de rádio AM, que entrava no ar às 11 da noite e falava de futebol regional para os grotões. Algumas semanas depois, eu recebia o convite para ser entrevistado por Clodovil. Não me recordo o nome do programa, só sei que a mesa dele ficava no centro de uma grande e estranha cozinha. Foi ali que me sentei, o livro nas mãos e cheio de papeizinhos marcando as partes sobre as quais pretendia falar durante a conversa. Já sentado ao meu lado, cara emburradíssima e aguardando o sinal de que estávamos no ar, Clô me lançou um olhar fulminante. Em seguida, me tomou o livro das mãos, bruscamente. - QUE HOR-ROR!!!! – gritou. Quase corri do estúdio. Mas logo, bonachão, o estilista soltou uma de suas mefistofélicas gargalhadas e disse: - Como é que você apresenta seu texto na televisão assim, meu amor? Cheio dessa papelama porca? Na sequencia berrou para a produção: - Traz post-it!!! Para minha incredulidade, Clodovil tirou todos as minhas toscas marcações substituindo-as por papeizinhos colantes cor-de-rosa. Entregou-me o "Guia" de volta carinhosamente e iniciou a conversação, em rede nacional, perguntando meu signo. - Áries – disse de bate-pronto. Ao que ele, maledicente como sabia ser, acrescentou: - Huuuummmm, ariano é bom de cama…. E deu outras daquelas gargalhadas. Para mim, Clodovil merece luto oficial de 24 dias. Nada menos que isso. Carlos Castelo é cronista do Blônicas. A necessidade da chapa no café da manhã.
De Lusa Silvestre. Amigo meu me chamou outro dia para ver a padaria que ele tinha comprado: “é o laboratório da Apple misturado com o show room da Fábrica de Chocolate Wonka ! “ Sábado, acorda o dia com o solão lá em cima, daqueles que qualquer programa tem que considerar um ar condicionado, e eu pensei: vou na padoca moderna e refrigerada do cara ! Mas, pai, padaria tem ar condicionado ? Mas, não esfria o queijo quente ? – pergunta meu filho. Vamos descobrir – cortei eu, rápido. Até porque quando um moleque começa a perguntar, ou você corta a iniciativa, ou desliga o carro e vai atrás do Google mais à mão. Chegamos na padaria. Parecia loja de celular. Meu amigo veio nos receber, braços abertos e cheirando fermento. Pegou meu filho no colo, fez nanananananã nas bochechas dele - coisa que os homens da família abominam tem cinco greações - e foi nos mostrar os bastidores da padoca. Mostrou o forno elétrico, três andares, transmissão dos dados do cozimento em cinco línguas, incluindo Japonês e Bluetooth. Doze mil ciabatas por dia. Descemos uma escadinha até o frigorífico. Sueco, conexão com a internet, um chiquê. Fomos até a dispensa – farinhas separadinhas por cor, nem no CSI se vê isso. Voltamos pra parte aberta ao público. A vitrine dos doces parecia o suplemento de turismo de Paris. Docinhos, merengues, tortinhas, cores. E pães e mais pães. Bom, daí sentamos numa mesa de aço escovado. O garçom veio. Meu filho pediu um pão com manteiga na chapa. Nada demais, coisa simples. O garçom: não temos. Eu: como ? Ele: não temos pão com manteiga na chapa, porque não temos chapa. Eu: não entendi – vocês não tem chapa ? Não temos chapa. Meu filho sorriu, eu me segurei um pouco. Consegui manter a seriedade e peguntei: queijo quente, misto na frança, ovo mexido, contrafilé aparado com arroz a grega, vocês não servem isso ? Ele: olha, ovo a gente faz no microondas, mas o resto, não. Eu e meu filho escondemos uma gargalhada, sabe quando vem a risada e a gente trava ali no duodeno, fazendo um “pfsssss”, segurando a boca pra não escapar nem risinho ? Pedimos pães, vieram dois croissants. Chamei um café, veio um troço cremoso, lindo, cheio de desenhos na espuma. Sabe quanto ? Oito paus, por dois croissants, um café abichonado e um suco do Cebolinha de tetra pak. Pagamos a conta e fomos embora. No outro dia, de novo, baita solão. Peguei minha mulher, minha filha e meu filho, e agora, em grupo, fomos numa padoca que existe tem sessenta anos ali descendo a avenida. O café veio num copo rachado, a mesa era de plástico, pra ir no banheiro tinha que passar por trás do caixa, mas tinha pão na chapa, amarelo, torradinho, manteiga, altamente colesteróico. Pão na chapa. Não é o mínimo que precisa pra chamar o lugar de padaria ? Lusa Silvestre é cronista do Blônicas. A mancha.
De Bianca Rosolem. Ele levantou. Esticou bem os braços, coçou os olhos, e caminhou até o banheiro. Escovou os dentes, lavou o rosto e notou uma erupção na pele, no canto da boca, especificamente. Bianca Rosolem é cronista do Blônicas. Silêncio.
De Tati Bernardi. Disse pra mim. Nenhum pio. Não vou falar nada. Já que sou tão imprópria, inadequada, boba. Já que nunca basto e se tento me excedo. Já que não sei o que deveria ou exagero em querer saber o que não devo. Nunca entendo exatamente, nunca chego lá, nunca sou verdadeiramente aceita pela exigência propositalmente inalcançável. Meu riso incomoda. Meu choro mais ainda. Minha ajuda é pouca. Meu carinho é pena. Meu dengo é cobrança. Minha saudade é prisão. Minha preocupação chatice. Minha insegurança problema meu. Meu amor é demais. Minha agressividade insuportável. Meus elogios causam solidão. Minhas constatações boas matam o amor. As ruins matam o resto todo. Minhas críticas causam coisas terríveis. Minhas palavras cuidadas incomodam. Minhas palavras jogadas, mais ainda. Minhas opiniões sempre se alongam e cansam. M inhas histórias acabam sempre no egocentrismo ou preconceito. Meu sem fim dá logo vontade de encurtar. Minha construção, desconstrói. Meus convites quase nunca agradam. Meus pedidos sempre desagradam. Meus soquinhos de frases são jovens demais. Meu bombardeio de coisas sempre acaba em guerra. Minha paz que viria depois nunca chega, pois eu nunca chego. Minha voz doce assusta. Minha voz brincalhona é ridícula. Minha voz séria alarde. Nenhum pio. Disse pra mim. Falar do que sinto é, na hora, desintegrar com seu olhar. Então fico me perguntando sobre o que deveria dizer, se só sei o que sinto. Devo sentir por personagens de livros, filmes, jornais e ruas? É assim que se diz sem ser o que não importa de verdade? E se for o contrário? Mas pra dizer do contrário, fica sempre no ar, é melhor não dizer. Se digo algo sobre minha vida, só sei falar de mim. Se digo algo sobre a vida dele, coitada de mim, achando que sei alguma coisa da vida. Se falo sobre a vida dos outros, que papo furado é esse? Se falo sobre coisas me sinto mais uma delas. Se provoco, eu que provoque sozinha porque ele não é trouxa de cair. Sobre livros, nunca são os que interessam. Sobre minha reportagem, nem quis ler. Meu trabalho nunca foi e nunca será da mulher dos sonhos. Meus sonhos evito falar, um medo de ser menina. Quieta. É assim que será. Se digo certo, isso logo acaba. Se digo certeiro, acabou. Se digo errado, nunca acaba. Se eu for mulher, mulher é um saco. Se eu for homem, homem só existe ele. Se eu for criança, fale com sua analista. Nenhum pio. Combinei comigo. Falar da gente pode? Pode, desde que, depois, eu tenha estrutura para ver toda uma massa desistente desabando sobre meu sofá pequeno. Nadinha. Não vou falar nada. Sobre dor não toca. Sobre prazer toca pouco. Nada. Porque toda vez que eu pergunto, quase ofende. E se respondo, ofende mais. E se exclamo, minha vontade de viver soterra. E se são três pontinhos, não posso. Se começo preciso terminar. Mas quando termino, ele já não está mais. Se repito, quase explode. Se digo uma, sou boa de ser guardada em algum lugar que nunca vejo. Se não explico, pareço louca. Se explico, sou louca. Quieta. Isso! Você consegue! Se for o que eu penso, eu penso errado. Se for o que eu não penso, errei por não pensar. Se não for nada disso, eu que pensasse antes. Nada. Não vou sussurrar. Nem gemer. Nenhum som. Respiração muda. O silêncio absoluto. Olhando pra ele. Lembrando de quando ele me disse que é no silêncio que se sabe a verdade. E a verdade chega como um teto gigante que desaba numa cabecinha de vento. O que eu mais temia. O que eu não queria descobrir. Ela me diz. E o pior é que eu nem posso falar por ela. É tudo mentira. Tati Bernardi é cronista do Blônicas. Se eu fosse mulher por um dia.
De Leo Jaime. Essa é uma fantasia engraçada. Sempre fiz fantasias sobre prêmios de megasena acumulada e entrega de Oscar ou gols no Maracanã. Nunca fantasiei ser mulher, embora já tenha me fantasiado, no palco ou na telinha, de mulher e adjacências. Sou bom em andar de salto alto! Porém, como hoje é o dia internacional da mulher e o filme de maior sucesso na história do cinema brasileiro está em cartaz e aponta exatamente esta situação - Se eu fosse você 2 - , parece-me adequado fantasiar sobre o tema. Todo mundo deve estar fazendo o mesmo. Uno-me, portanto, à multidão porém alerto: no meu exercício de reflexão a troca de sexo se daria só por um dia. Garanto que se pudesse voltar em outro corpo gostaria de ser um rinoceronte. E queria ver alguém encher o meu saco. Mulher? Acho que não. Se eu fosse mulher por um dia? Acho que a primeira coisa que eu ia fazer era admirar o meu corpo em todos os detalhes, pegar em tudo, ficar fuçando mesmo. Ia ser engraçado! Talvez ficasse mais que engraçado e eu poderia saber quem sente mais prazer, o homem ou a mulher. Diz um mito grego, se é que eu sei alguma coisa sobre mitologia greco-romana, de um tal Tirésias que teria sido condenado a virar mulher por ter pregado o olho na mulher de um deus poderosao, Zeus ou parente, e depois, desfeito o feitiço, voltou a ser homem porém cego. E assim não podia mais secar ninguém. Pois é, certa feita rolava um papo sobre quem teria mais prazer e acharam por bem consultar o tal Tirésias que já tinha sido as duas coisas. Ele poderia dizer com mais precisão. A resposta dele foi: se existem dez porções de prazer, nove estão com as mulheres e uma com os homens. Pois é. Acho que eu ia partir para a ignorância. Não ia ficar só na auto-exploração. Já que era um dia só e eu não teria a chance de, por um lado ficar mal-falada e por outro achar o homem da minha vida, eu liberaria geral pra galera. Isso, evidentemente, depois de passar uma boa parte do tempo em vestiários femininos averiguando os detalhes das amigas. Hummm, pensando bem acho que seu eu fosse mulher por um dia eu nem ia pensar nessas coisas. Era muita novidade pra eu ficar pensando em uma coisa só. E logo nisso? Mulheres não são assim. Se eu fosse mulher por um dia eu não ia querer que neste dia, justo neste dia, eu estivesse de TPM. Eu preferia estar grávida. Não no dia do parto. Naquele período em que o bebê já mexe dentro da barriga e parece haver uma interação total entre ele e a mãe. São dois e ao mesmo tempo são um só. Acho que seria muito mais divertido. Deixa ver. Grávida e trabalhando em quê? Hummmm, presidente da república. Isso, eu ia querer ser mulher e presidente da república do Brasil. A primeira. E não seria nenhum Cérbero, um macho de saias ou um coração de aço. Ia querer ser uma mulher mesmo e pensar como uma mulher pensa e tratar o pais como minha casa e os compatriotas como familiares. E isso inclui tempestades durante o período. Família briga mas se é família de verdade, acaba tendo um objetivo comum e uma solução para todos os problemas. Eu iria querer ser uma presidente grávida e milionária. E ter uns dois filhos ainda crianças pra poder brincar com eles na sala ao lado da que governaria o país. Eu não ia querer ser linda mas gostaria de ter as feições suaves daqueles que são justos e amados. Dos que nunca perderam uma noite de sono por desespero, miséria, injustiça ou violência. Se eu fosse mulher por um dia, eu ia querer isso. Ou uma mulher normal, uma brasileira comum, sem ter a preocupação de cuidar do pais e toda esta chatice. Eu gostaria de ter uma vida digna, um amor, uma família e uma harmonia muito grande entre tudo o que da minha vida fizesse parte. E nunca ter passado necessidades, nunca ter sido tratada como um ser menor, desvalorizada profissionalmente e coisas do gênero. Se eu fosse mulher... eu não faço mesmo a menor idéia do que eu gostaria de ser se eu fosse mulher por um dia. Minto. Uma coisa eu sei: eu queria ser brasileira. E teria muito orgulho disso. Leo Jaime é cronista do Blônicas. A excomunhão é uma benção.
De Milly Lacombe. Eu tentei ser excomungada oficialmente. Juro por Deus. Foi uma idéia de minha amiga Nina Lemos. Numa segunda-feira qualquer, não mais inquieta do que o normal, Nina entrou na redação da Tpm e, antes mesmo de pegar o café, me fez o convite: “Quer ser excomungada comigo?”. Era tentador, embora eu nunca tivesse pensado a respeito. “Claro”, respondi. E ela imediatamente começou a ligar para igrejas (assim com minúscula mesmo) para saber como fazer para se livrar da culpa de termos sido batizadas. Pelo que me lembro, depois de muito tentar falar com um padre sem conseguir (eles são, naturalmente, muito ocupados) Nina encontrou uma boa alma que resolveu dedicar um tempo ao próximo – no caso, ela. Quando explicou o que queríamos e por que queríamos, o padre disse: “Ah, sua amiga é gay? Então ela já está automaticamente excomungada”. E meu mundo caiu. “Mas eu quero um ritual de excomunhão! Eu pago!”, gritei. “Conforme-se, você não vai ter um”, respondeu Nina. “A Igreja já faz questão de não ter você em seus cadastros de almas”. Nunca fiz o teste para saber se meu dinheiro seria ou não aceito pela igreja católica para que ela me excomungasse em um ritual. Um dia, talvez, tenha saco para entrar em uma igreja, superar o arrepio em meu corpo toda vez que entro em uma (sempre em respeito a algum amigo, ou amiga, que ainda usa o estabelecimento para casar) e abrir a carteira em nome da divina excomunhão. Por enquanto, me basta saber que já saí dessa. E pelo motivo mais nobre: ser quem sou. Por que mesmo gostaria de fazer parte de uma organização em que estupradores são bem-vindos e homossexuais não? Valha-me deus. Mas hoje minha revolta com o catolicismo já nem é tão grande. Acho que perdi o ímpeto para criticá-lo porque ele mesmo está tratando de descer ao inferno sozinho. É como aquele jogador que, de tão ruim, não precisa nem de marcador durante o jogo: esse, a natureza marca. Na verdade, vibro todas as vezes que algum dos representantes da igreja católica dá declarações como a desse padre (bispo ou coisa que o valha. Não sei a respeito das fardas da instituição) pernambucano que disse que abortar era pior do que estuprar. Fico realmente feliz quando ouço uma estupidez desse nível. Feliz porque é bom ver a verdade vindo à tona – e pela boca de homem de batina. Aí, é melhor ainda. Parece que, finalmente, a natureza está tratando de marcar a igreja católica. E começo a sonhar com o dia em que a humanidade alcançará um nível de desenvolvimento espiritual que permita a todos distinguir entre a declaração diabolicamente abobada de um padre e a justiça cósmica. Nesse dia, o catolicismo terá sido enterrado – e isso sim será divino. Que a igreja fique com seus estupradores e pedófilos. Que os abrigue em seus altares de mármore, que dedique a eles missas e liturgias em latim. Enquanto isso, nós, os que fazem sexo sem querer reproduzir, os que usam camisinha, os que amam pessoas do mesmo sexo, os que não vão à missa nem amarrados, os que acham que uma menina de nove anos pode e deve tirar o feto que foi resultado de um estupro feito por quem deveria protegê-la ficamos do lado de cá. Aliás, ficamos do mesmo lado daqueles que comem moluscos (no Levíticos 11:10 está escrito que eles, os que comem o molusco, são uma abominação), dos que trabalham aos sábados (o Êxodos 21:7 diz quem trabalha aos sábados deve ser morto e talvez a igreja, ocupada com tantas ações judiciais movidas por vítimas da pedofilia de seus padres, esteja se esquecendo de matar esses caras) e dos que aparam a barba (que, segundo determinação do mesmo livro, também devem ser assassinados). É nóis. Porque tem ainda o seguinte. Se amanhã um maluco decidir matar alguém que não aparou a barba ou que trabalhou no sábado, esse cara está automaticamente absolvido pela igreja católica, mãos dadas com o pedófilo e com o estuprador. É por isso que eu oro: incluam-me fora desse time, pelo amor de Deus. Milly Lacombe é cronista do Blônicas. Como criar um personagem.
De Edson Aran. Nesta minha vida de escritor bem sucedido e cercado de mulheres por todos os lados, especialmente o de baixo e o de cima, ouço frequentemente a mesma pergunta: “Como faço para criar personagens surpreendentes capazes de me transformar num prosador laureado e cheio de mulheres querendo dar pra mim?” Evite criar personagens planos Escrevas frases memoráveis para o seu personagem -- Eu? Ouço perfeitamente. Dê um passado ao seu personagem Encha seu personagem de defeitos físicos Se tudo falhar, transforme seu personagem em vampiro Edson Aran é cronista do Blônicas e faz 82 anos hoje. Nerd.
De Ana Paula Ganzaroli. Você sabe que é nerd se usa óculos. Todo nerd usa, se não usa, não é nerd. Você sabe que é nerd se gostava muito, mas muito, mas tanto que chegava a doer de português e/ou matemática. Você fazia a tarefa mínima e a tarefa complementar da escola com os pés nas costas. Você sabe que é nerd se passava cola na escola. Se os seus “colegas” se tornavam amigos no dia “D” e se o seu professor te isolava nas provas finais. Você sabe que é nerd se tem rinite. Todo nerd tem, é uma lástima. Não sei explicar se é por conta da conjuntura dos planetas, ou por mera falência parcial dos seus glóbulos brancos e ou por mera teoria darwiniana Você sabe que é nerd se fala em glóbulos brancos e Darwin e se gosta de ir à biblioteca, do cheiro dela, dos livros de lá, mas principalmente, das pessoas que lá frequentam. Você sabe que é nerd se antes de experimentar drogas foi ler um livro para saber o efeito e dependência que cada uma causaria em seu organismo e para não trocar gato por lebre. Você sabe que é nerd se gosta de Machado de Assis. Você sabe que é nerd se descobre o sexo primeiro pelos livros, depois pela tv, depois pelos amigos e só por último, na “vida real”. Você desconfia que seja nerd se for o último a perder a virgindade. Se você troca uma saída com seus amigos para assistir a um documentário super legal no History Chanel. Você sabe que é nerd se sua mãe voltava orgulhosa da reunião de pais e mestres, e exibia o seu boletim com um beijo na bochecha e com a promessa de um presente fora de época. Você sabe que é nerd se imagina um verso para a pessoa amada ou se faz declarações de amor cheias de poesia, ainda que nunca vá às vias de fato. Você sabe que é nerd se lê vários livros por ano, mas ainda assim se culpa, porque a sua lista de livros-memoráveis-para-ler-antes-de-morrer, não pára de crescer. Você percebe que virou um nerd se faz listas de compras, pior, se faz orçamento mensal, pior ainda, se faz orçamento anual, e tem duas previdências privadas. Tudo é sempre muito planejado porque o nerd tem medo de arriscar. Você percebe que é nerd se ficou envergonhado por ter respondido muitas vezes com um “sim” ao ler o texto. Mas veja, não fique triste, e nem se ache excluído ou parte das minorias que viraram feriado nos calendários, eu descobri que sou uma nerd também. Vale lembrar que sempre vai ter um (a) nerd por perto. Preste atenção quando alguém fizer “atchim”, se for bonito (a) e usar óculos, comece a treinar os versos e poemas. Ela (ele) vai adorar, afinal, os nerds também amam, e ainda declamam Drummond. Ana Paula Ganzaroli é leitora do Blônicas e escreve como convidada. A gorda.
De Bianca Rosolem. Aquela senhora era muito gorda. Ela sentava-se no banco, todas as manhãs, e lá ficava, plácida em sua magnânima adiposidade. Ela não lia, não conversava. Simplesmente permanecia sentada por horas a fio. Nem sequer o sol a incomodava, mesmo este derretendo as camadas superficias de gordura que formavam pequenas gotículas oleosas nas têmporas da mulher. Com o sol quase a pino podia-se contemplar grandes manchas de suor embaixo das enormes tetas. O olhar era longe, sem foco. Em alguns momentos ela passava um lenço sebento na face. Ela não ligava para risos, falatórios de canto. Na realidade ela nem sequer percebia o movimento maldoso que se formava ao seu redor. Ela era alheia a tudo que cheirava mundo. Bianca Rosolem é cronista do Blônicas. Pelos poderes de Grayskull.
De Xico Sá. As mulheres com filhos são especiais, especialíssimas, mas o inesperado encontro com os seus rebentos, em um corredor estreito, minutos antes do dia clarear direito, podem nos deixar mais perdidos do que barata em salão de forró ou gafieira, uma loucura, uma batalha napoleônica, aquela coisa toda, pinel mesmo, sentindo-me um boa-praça da Tamarineira azeitando o eixo do sol na quarta-feira de cinzas, um calouro no Mira y Lopez, um trelelé que acabou de dar entrada no Galba Veloso, para ficar apenas em alguns dos sanatórios gerais do Recife, Fortaleza e Belo Horizonte. Foi assim que me vi, revi, quando, numa ressaca miserável, rumei do leito amoroso em busca de um copo de água gelada depois da primeira noite com uma ex-ex-ex. Tem mercadoria mais preciosa, amigo, em um final de madruga, depois de uma farra monstra, do que um copo de água gelada? Vale por um açude de Orós, vale por uma barragem de Tapacurá, vale por toda a bacia hidrográfica do rio das Velhas, prosseguindo aqui a nossa conversa com o Ceará, Pernambuco e Minas, a santíssima trindade que publica em respeitosos jornais essa crônica. Pois sim, mal este abestalhado que vos bafeja a prosa abriu a porta... Mal este mamador profissa chutou aquele taco solto do apartamento da nega... Mal este infame mirou uma luz mínima, uma réstia de nada... Mal este carga-torta, com uma brasa em cada branco do olho, tomou consciência do universo, Nossa Senhora dos Paus d´Água, mal arrumou os óculos fundo-de-garrafa sobre a napa moura, e já veio aquela criatura enfurecida com uma espada toda iluminada, incandescente, de modo a me deixar mais areado e perdido do que pitomba em boca de banguela. As mulheres com filhos ainda em casa, repriso, são especiais, especialíssimas, mas confesso: foi a maior batalha da minha vida. Fiquei me sentindo assim um duelista de Joseph Conrad, um espadachim acuado, um cavaleiro sem armas, um homem morto. Irrompi daquele quarto macio e escuro, amigo, com o único e banal objetivo de matar a minha sede, e eis que me deparo com o endiabrado menino, na saúde sem freio e sem controle dos seus cinco, seis anos, no máximo, disposto a tudo nesse mundo, inclusive disposto a se vingar das maldições gregas e freudianas, disposto a passar por cima do meu então magro cadáver, disposto a proteger sua Jocasta, o cão chupando manga, a febre do rato, um pirraia dos infernos, um cabinha destemido, um mutum em redemoinhos e t´esconjuros tantos. O endiabrado menino, senhoras e senhores, portava uma daquelas armas iluminadas que me levou direto para um conto de ficção científica do Bráulio Tavares com Zé Ramalho, deus-mor da raça, como personagem, amo os dois à vera, por supuesto. Uma tocha de fogo que aumentou ainda mais a minha sede e a minha ressaca... E pensar que eu me contentaria, àquela altura da quase manhã, com um simples copo de água, desejo sagrado que não se pode negar a nem uma criatura da face da terra. Sim, leitores de Jó, o diabo do menino, sorriso sádico, estava armado com uma daquelas miseráveis espadas de He-Man, ali no final dos anos 80, e me espetou como o demônio espeta uma alma vagabunda que chega ao inferno durante o cochilo da sua sesta, puro descuido. O menino acabou comigo, à vera, antes uns bons cutucões das peixeiras do Beco da Facada... O filho da mãe, da amante, da amada, me tirou o couro e o osso, parecia um Delmiro Gouveia comprando pele de bodes e de cabras, sertões afora, saudade daquele menino que duelou de homem para homem ainda no estreito corredor escuro da sua infância. Xico Sá é cronista do Blônicas. |