COLUNISTAS
MILLY LACOMBE


XICO SÁ

CLÉO ARAÚJO

NELSON BOTTER JR

TATI BERNARDI


LEO JAIME


ANA REBER

HENRIQUE SZKLO

GIOVANA MADALOSSO

CARLOS CASTELO

BIANCA ROSOLEM

LUSA SILVESTRE

EDSON ARAN

SILVIO PILAU


AQUI VOCÊ TAMBÉM ENCONTRA:

Ailin Aleixo
Antonio Prata
Carol Marçal
Cristiana Soares
Evandro Daolio
Gisela Rao
Marcelino Freire
Rosana Hermann
Paulo Castro

E MAIS:
Alexandre Heredia
Ana Paula Ganzaroli
Analice Alves
Edgar Costa Neto
Felipe Soares Machado
Helena Marcolini
Isadora P. Szklo
Klauss Klein
Lívia Venina
Lu Paiva
Luís Couto
Luis Gonzaga Fragoso
Marcelo Ferrari
Marcelo Sguassábia
Mauro Judice
Ricardo Campos Soares
Ricardo Prado
Thaís SBA
Thaty Hamada



ARQUIVO

01/02/2011 a 28/02/2011
01/12/2010 a 31/12/2010
01/08/2010 a 31/08/2010
01/07/2010 a 31/07/2010
01/06/2010 a 30/06/2010
01/05/2010 a 31/05/2010
01/04/2010 a 30/04/2010
01/03/2010 a 31/03/2010
01/02/2010 a 28/02/2010
01/01/2010 a 31/01/2010
01/12/2009 a 31/12/2009
01/11/2009 a 30/11/2009
01/10/2009 a 31/10/2009
01/09/2009 a 30/09/2009
01/08/2009 a 31/08/2009
01/07/2009 a 31/07/2009
01/06/2009 a 30/06/2009
01/05/2009 a 31/05/2009
01/04/2009 a 30/04/2009
01/03/2009 a 31/03/2009
01/02/2009 a 28/02/2009
01/01/2009 a 31/01/2009
01/12/2008 a 31/12/2008
01/11/2008 a 30/11/2008
01/10/2008 a 31/10/2008
01/09/2008 a 30/09/2008
01/08/2008 a 31/08/2008
01/07/2008 a 31/07/2008
01/06/2008 a 30/06/2008
01/05/2008 a 31/05/2008
01/04/2008 a 30/04/2008
01/03/2008 a 31/03/2008
01/02/2008 a 29/02/2008
01/01/2008 a 31/01/2008
01/12/2007 a 31/12/2007
01/11/2007 a 30/11/2007
01/10/2007 a 31/10/2007
01/09/2007 a 30/09/2007
01/08/2007 a 31/08/2007
01/07/2007 a 31/07/2007
01/06/2007 a 30/06/2007
01/05/2007 a 31/05/2007
01/04/2007 a 30/04/2007
01/03/2007 a 31/03/2007
01/02/2007 a 28/02/2007
01/01/2007 a 31/01/2007
01/12/2006 a 31/12/2006
01/11/2006 a 30/11/2006
01/10/2006 a 31/10/2006
01/09/2006 a 30/09/2006
01/08/2006 a 31/08/2006
01/07/2006 a 31/07/2006
01/06/2006 a 30/06/2006
01/05/2006 a 31/05/2006
01/04/2006 a 30/04/2006
01/03/2006 a 31/03/2006
01/02/2006 a 28/02/2006
01/01/2006 a 31/01/2006
01/12/2005 a 31/12/2005
01/11/2005 a 30/11/2005
01/10/2005 a 31/10/2005
01/09/2005 a 30/09/2005
01/08/2005 a 31/08/2005
01/07/2005 a 31/07/2005
01/06/2005 a 30/06/2005
01/05/2005 a 31/05/2005
01/04/2005 a 30/04/2005
01/03/2005 a 31/03/2005
01/02/2005 a 28/02/2005
01/01/2005 a 31/01/2005


LIVROS



EM BREVE



Visitantes únicos desde 15/01/2005
Site Meter Add to Technorati Favorites

XML/RSS Feed
O que é isto?

Leia este blog no seu celular


O estranho caso do atirador do mercado municipal.

De Nelson Botter Jr.

Quem esteve presente naquele dia no Mercado Municipal de São Paulo jura de pés juntos que o homem chegou atirando sem falar uma palavra sequer. Simplesmente chegou descarregando o revólver. Ninguém entendeu nada, mas nessas horas também não há muito que entender, é se jogar no chão e seja o que Deus quiser.
Tudo aconteceu num sábado, por volta das 15 horas. Algumas pessoas contaram que foi um pouco antes, mas no boletim de ocorrência da polícia consta o horário que citei. Foi na barraca do Tigrão, que faz um pastel de primeira. A vítima, alvejada com cinco tiros no peito, trabalhava lá. Era garçom e ficava gritando os números dos pedidos e entregando na mesa. Pois é, morreu gritando... mesmo.
As testemunhas disseram que o atirador não estava lá comendo, veio de fora do mercado, o que reforça a tese de que foi crime premeditado. Mas é claro que foi, nem sei o porquê de comentar isso. O fato é que ele chegou com um semblante de pessoa transtornada, segundo o pessoal que presenciou a coisa toda. Veio com a arma em punho, pronto pra atirar no primeiro que se metesse no acerto de contas. O pasteleiro nem teve tempo de implorar pela vida ou correr, deu de cara com o atirador que não perdeu tempo.
Todo mundo começou a gritar e correr, abafando o barulho dos tiros. Alguns se jogaram no chão, já falei isso?, e puderam ver o sangue que escorria da vítima. O cheiro da morte se misturava com o de fritura. O pessoal que trabalhava na pastelaria ficou atônito e não esboçou reação. Há quem diga que eles não gostavam muito do cara baleado e por isso alguns até ficaram felizes com o ocorrido.
O mais pitoresco dessa história é que o atirador não correu. Pelo contrário, pôs a arma no balcão, foi até o caixa e pediu um pastel de queijo e um chope bem gelado. Fez questão de pagar e nem quis o troco. "Fica pelo trabaio de limpá essa sujeirada toda" – ele disse.
Não demorou nada e o pedido ficou pronto. Ele puxou uma cadeira e sentou ao lado do corpo do pasteleiro assassinado. Começou a comer passivamente o pastel, bebendo o chope com grande prazer. O dono da pastelaria afirmou que o homem parecia ter tirado um enorme peso das costas.
Quando a polícia chegou, não teve confusão. Aproximaram-se do atirador com cuidado, mas sem esboçar violência. Enquanto um policial verificava o estado do pobre coitado no chão, o outro dava voz de prisão ao atirador.
O homem respondeu que o policial podia ficar sossegado, que ele iria numa boa, sem causar problemas. Fez questão de deixar claro que era homem o suficiente para assumir as conseqüências de todos os seus atos, coisa que o pilantra lá no chão não fazia. Contam também que o homem pediu serenamente para que os policiais esperassem até ele terminar a refeição. "Sabe o que é, Seu Pulíça, é que vai demorá um bão tempo pra mim conseguí comê de novo um pastel tão gostoso e um chopes tão geladinho que nem esse..."
Os policiais incrivelmente esperaram e, quando o homem terminou, ainda pôde se aproximar do morto, beijar-lhe a face e sussurrar em seu ouvido: "Pelo menos agora, amor, tenho certeza que fui o último a te fodê".

Nelson Botter Jr é cronista do Blônicas.

Escrito por Blônicas . às 11h25
[]


Clô e eu.

De Carlos Castelo.

Foi ali por 2003. Eu lançava o livro “Guia de Sobrevivência no Brasil”.

Naquela ocasião, a pedido do editor, eu ia a todo e qualquer programa de rádio ou TV que me convidasse para divulgar a “obra”.

Cheguei a apresentar armas num programa de rádio AM, que entrava no ar às 11 da noite e falava de futebol regional para os grotões.

Algumas semanas depois, eu recebia o convite para ser entrevistado por Clodovil.

Não me recordo o nome do programa, só sei que a mesa dele ficava no centro de uma grande e estranha cozinha.

Foi ali que me sentei, o livro nas mãos e cheio de papeizinhos marcando as partes sobre as quais pretendia falar durante a conversa.

Já sentado ao meu lado, cara emburradíssima e aguardando o sinal de que estávamos no ar, Clô me lançou um olhar fulminante. Em seguida, me tomou o livro das mãos, bruscamente.

- QUE HOR-ROR!!!! – gritou.

Quase corri do estúdio. Mas logo, bonachão, o estilista soltou uma de suas mefistofélicas gargalhadas e disse:

- Como é que você apresenta seu texto na televisão assim, meu amor? Cheio dessa papelama porca?

Na sequencia berrou para a produção:

- Traz post-it!!!

Para minha incredulidade, Clodovil tirou todos as minhas toscas marcações substituindo-as por papeizinhos colantes cor-de-rosa.

Entregou-me o "Guia" de volta carinhosamente e iniciou a conversação, em rede nacional, perguntando meu signo.

- Áries – disse de bate-pronto.

Ao que ele, maledicente como sabia ser, acrescentou:

- Huuuummmm, ariano é bom de cama….

E deu outras daquelas gargalhadas.

Para mim, Clodovil merece luto oficial de 24 dias. Nada menos que isso.

Carlos Castelo é cronista do Blônicas.

Escrito por Blônicas . às 12h01
[]


A necessidade da chapa no café da manhã.

De Lusa Silvestre.

Amigo meu me chamou outro dia para ver a padaria que ele tinha comprado: “é o laboratório da Apple misturado com o show room da Fábrica de Chocolate Wonka ! “ Sábado, acorda o dia com o solão lá em cima, daqueles que qualquer programa tem que considerar um ar condicionado, e eu pensei: vou na padoca moderna e refrigerada do cara ! Mas, pai, padaria tem ar condicionado ? Mas, não esfria o queijo quente ? – pergunta meu filho. Vamos descobrir – cortei eu, rápido. Até porque quando um moleque começa a perguntar, ou você corta a iniciativa, ou desliga o carro e vai atrás do Google mais à mão.

Chegamos na padaria. Parecia loja de celular. Meu amigo veio nos receber, braços abertos e cheirando fermento. Pegou meu filho no colo, fez nanananananã nas bochechas dele - coisa que os homens da família abominam tem cinco greações - e foi nos mostrar os bastidores da padoca. Mostrou o forno elétrico, três andares, transmissão dos dados do cozimento em cinco línguas, incluindo Japonês e Bluetooth. Doze mil ciabatas por dia. Descemos uma escadinha até o frigorífico. Sueco, conexão com a internet, um chiquê. Fomos até a dispensa – farinhas separadinhas por cor, nem no CSI se vê isso. Voltamos pra parte aberta ao público. A vitrine dos doces parecia o suplemento de turismo de Paris. Docinhos, merengues, tortinhas, cores. E pães e mais pães. Bom, daí sentamos numa mesa de aço escovado. O garçom veio. Meu filho pediu um pão com manteiga na chapa. Nada demais, coisa simples. O garçom: não temos. Eu: como ? Ele: não temos pão com manteiga na chapa, porque não temos chapa. Eu: não entendi – vocês não tem chapa ? Não temos chapa. Meu filho sorriu, eu me segurei um pouco. Consegui manter a seriedade e peguntei: queijo quente, misto na frança, ovo mexido, contrafilé aparado com arroz a grega, vocês não servem isso ? Ele: olha, ovo a gente faz no microondas, mas o resto, não.

Eu e meu filho escondemos uma gargalhada, sabe quando vem a risada e a gente trava ali no duodeno, fazendo um “pfsssss”, segurando a boca pra não escapar nem risinho ? Pedimos pães, vieram dois croissants. Chamei um café, veio um troço cremoso, lindo, cheio de desenhos na espuma. Sabe quanto ? Oito paus, por dois croissants, um café abichonado e um suco do Cebolinha de tetra pak. Pagamos a conta e fomos embora. No outro dia, de novo, baita solão. Peguei minha mulher, minha filha e meu filho, e agora, em grupo, fomos numa padoca que existe tem sessenta anos ali descendo a avenida. O café veio num copo rachado, a mesa era de plástico, pra ir no banheiro tinha que passar por trás do caixa, mas tinha pão na chapa, amarelo, torradinho, manteiga, altamente colesteróico. Pão na chapa. Não é o mínimo que precisa pra chamar o lugar de padaria ?

Lusa Silvestre é cronista do Blônicas.

Escrito por Blônicas . às 11h36
[]


A mancha.

De Bianca Rosolem.

Ele levantou. Esticou bem os braços, coçou os olhos, e caminhou até o banheiro. Escovou os dentes, lavou o rosto e notou uma erupção na pele, no canto da boca, especificamente.
Abriu a gaveta de remédios, a terceira de cima para baixo, e pegou um ungüento qualquer. Passou levemente no local e notou que não sentiu dor, ardência ou prurido. Logo, não poderia ser grave. Fez um longo xixi, pausado, como se desfrutasse de um prazer tão sublime e desejasse assim prolongá-lo ao máximo. Ao subir a calça do pijama azul, notou que sua barriga adquiria um formato redondo e projetado, a dita gordura localizada. Pensou no café da manhã. Comeria pão com manteiga, fresquinho e quente, que certamente Maria já deixara sobre a mesa da cozinha. O pão no centro da mesa, em um cestinho, a manteiga ao lado com a faca acima, o leite, o café, quentes também, estariam sobre a mesa. Sentiu fome.
Até a cozinha, passou pelo corredor, desceu as escadas, passando pela sala. O dia estava claro e parecia querer esquentar. Na cozinha, comeu o desjejum ouvindo a empregada cantarolando no quintal enquanto estendia a roupa lavada. Terminado o café, Carlos fez o caminho inverso - sala, escada, corredor - e novamente se dirigiu ao banheiro. Tirou o pijama colocando-o sobre o cesto de roupas e tomou uma ducha não muito rápida. Mas nem longa também, foi o suficiente para higiene detalhada. Enrolado na toalha pegou o barbeador. Neste momento, notou que a mancha crescera o seu dobro inicial, ficando avermelhada e muito disforme. Carlos, bastante surpreendido, não soube como reagir. Sem dor, sem coceira, a mancha adquiria um aspecto repugnante.
Carlos deveria colocar o terno, como de costume, pegar o carro e trabalhar. Mas, agora, em tantos anos, ele possuía uma mancha na face, grande, vermelha, estranha, que queria tomar todo seu lado direito. Ele sentiu a ambição da mancha, percebeu que ela tomaria mais porções do seu rosto. E rápido, vide o crescimento sobrenatural ocorrido ao longo de seu café da manhã que durava habitualmente entre 15 e 20 minutos.
Realizou que, encostado na pia, perdera uns 5 minutos, tempo este suficiente para vestir as calças e a camisa, e, portanto, deveria agora colocar a gravata. Ocorre que a mancha o importunara e provavelmente o faria chegar atrasado ao escritório.
Chegando atrasado, todos notariam sua presença, principalmente a recepcionista nova que gostava de saia curta e calcinha branca. E, assim, todo o escritório veria ou saberia de sua mancha. Ele ficaria constrangido, certamente, pois sempre fora notável por sua discrição e pontualidade.
A mancha, ainda, provavelmente cresceria no caminho do trabalho. E, como estava já 15 minutos atrasado, certamente pegaria o tráfego congestionado na Avenida Brasil. Desta forma, quando pisasse no escritório, 45 minutos após seu horário habitual, a mancha, por certo, dominaria toda a face direita. E todos a veriam. Até a calcinha da Aline recepcionista ficaria escandalizada.
Tomado de assombro e terror, Carlos sentiu que a mancha dominava mais que a sua face, ela se apoderava, lentamente, de seu auto-controle.
Passados mais 20 minutos, absolutamente atrasado e miserável, Carlos deitou na cama, e estranhou a claridade do quarto durante a semana. Sentiu a mancha grande, enorme, e uma angústia jamais vivida. Desta maneira, Carlos adormeceu estranho, pensando no escritório, no relógio e na reunião das 4 da tarde. E na calcinha de Aline, sempre com a saia curtinha e a postura atrevida. E pensou em ligar para sua esposa, mas preferiu esperar ela em casa chegar.

Bianca Rosolem é cronista do Blônicas.

Escrito por Blônicas . às 18h37
[]


Silêncio.

De Tati Bernardi.

Disse pra mim. Nenhum pio. Não vou falar nada. Já que sou tão imprópria, inadequada, boba. Já que nunca basto e se tento me excedo. Já que não sei o que deveria ou exagero em querer saber o que não devo. Nunca entendo exatamente, nunca chego lá, nunca sou verdadeiramente aceita pela exigência propositalmente inalcançável. Meu riso incomoda. Meu choro mais ainda. Minha ajuda é pouca. Meu carinho é pena. Meu dengo é cobrança. Minha saudade é prisão. Minha preocupação chatice. Minha insegurança problema meu. Meu amor é demais. Minha agressividade insuportável. Meus elogios causam solidão. Minhas constatações boas matam o amor. As ruins matam o resto todo. Minhas críticas causam coisas terríveis. Minhas palavras cuidadas incomodam. Minhas palavras jogadas, mais ainda. Minhas opiniões sempre se alongam e cansam. M inhas histórias acabam sempre no egocentrismo ou preconceito. Meu sem fim dá logo vontade de encurtar. Minha construção, desconstrói. Meus convites quase nunca agradam. Meus pedidos sempre desagradam. Meus soquinhos de frases são jovens demais. Meu bombardeio de coisas sempre acaba em guerra. Minha paz que viria depois nunca chega, pois eu nunca chego. Minha voz doce assusta. Minha voz brincalhona é ridícula. Minha voz séria alarde. Nenhum pio. Disse pra mim. Falar do que sinto é, na hora, desintegrar com seu olhar. Então fico me perguntando sobre o que deveria dizer, se só sei o que sinto. Devo sentir por personagens de livros, filmes, jornais e ruas? É assim que se diz sem ser o que não importa de verdade? E se for o contrário? Mas pra dizer do contrário, fica sempre no ar, é melhor não dizer. Se digo algo sobre minha vida, só sei falar de mim. Se digo algo sobre a vida dele, coitada de mim, achando que sei alguma coisa da vida. Se falo sobre a vida dos outros, que papo furado é esse? Se falo sobre coisas me sinto mais uma delas. Se provoco, eu que provoque sozinha porque ele não é trouxa de cair. Sobre livros, nunca são os que interessam. Sobre minha reportagem, nem quis ler. Meu trabalho nunca foi e nunca será da mulher dos sonhos. Meus sonhos evito falar, um medo de ser menina. Quieta. É assim que será. Se digo certo, isso logo acaba. Se digo certeiro, acabou. Se digo errado, nunca acaba. Se eu for mulher, mulher é um saco. Se eu for homem, homem só existe ele. Se eu for criança, fale com sua analista. Nenhum pio. Combinei comigo. Falar da gente pode? Pode, desde que, depois, eu tenha estrutura para ver toda uma massa desistente desabando sobre meu sofá pequeno. Nadinha. Não vou falar nada. Sobre dor não toca. Sobre prazer toca pouco. Nada. Porque toda vez que eu pergunto, quase ofende. E se respondo, ofende mais. E se exclamo, minha vontade de viver soterra. E se são três pontinhos, não posso. Se começo preciso terminar. Mas quando termino, ele já não está mais. Se repito, quase explode. Se digo uma, sou boa de ser guardada em algum lugar que nunca vejo. Se não explico, pareço louca. Se explico, sou louca. Quieta. Isso! Você consegue! Se for o que eu penso, eu penso errado. Se for o que eu não penso, errei por não pensar. Se não for nada disso, eu que pensasse antes. Nada. Não vou sussurrar. Nem gemer. Nenhum som. Respiração muda. O silêncio absoluto. Olhando pra ele. Lembrando de quando ele me disse que é no silêncio que se sabe a verdade. E a verdade chega como um teto gigante que desaba numa cabecinha de vento. O que eu mais temia. O que eu não queria descobrir. Ela me diz. E o pior é que eu nem posso falar por ela. É tudo mentira.

Tati Bernardi é cronista do Blônicas.

Escrito por Blônicas . às 09h57
[]


Se eu fosse mulher por um dia.

De Leo Jaime.

Essa é uma fantasia engraçada. Sempre fiz fantasias sobre prêmios de megasena acumulada e entrega de Oscar ou gols no Maracanã. Nunca fantasiei ser mulher, embora já tenha me fantasiado,  no palco ou na telinha, de mulher e adjacências. Sou bom em andar de salto alto! Porém, como hoje é o dia internacional da mulher e o filme de maior sucesso na história do cinema brasileiro está em cartaz e aponta exatamente esta situação - Se eu fosse você 2 - , parece-me adequado fantasiar sobre o tema. Todo mundo deve estar fazendo o mesmo. Uno-me, portanto, à multidão porém alerto: no meu exercício de reflexão a troca de sexo se daria só por um dia. Garanto que se pudesse voltar em outro corpo gostaria de ser um rinoceronte. E queria ver alguém encher o meu saco. Mulher? Acho que não.

Se eu fosse mulher por um dia? Acho que a primeira coisa que eu ia fazer era admirar o meu corpo em todos os detalhes, pegar em tudo, ficar fuçando mesmo. Ia ser engraçado! Talvez ficasse mais que engraçado e eu poderia saber quem sente mais prazer, o homem ou  a mulher. Diz um mito grego, se é que eu sei alguma coisa sobre mitologia greco-romana, de um tal Tirésias que teria sido condenado a virar mulher por ter pregado o olho na mulher de um deus poderosao, Zeus ou parente,  e depois, desfeito o feitiço, voltou a ser homem porém cego. E assim não podia mais secar ninguém. Pois é, certa feita rolava um papo sobre quem teria mais prazer e acharam por bem consultar o tal Tirésias que já tinha sido as duas coisas. Ele poderia dizer com mais precisão. A resposta dele foi: se existem dez porções de prazer, nove estão com as mulheres e uma com os homens. Pois é.

Acho que eu ia partir para a ignorância. Não ia ficar só na auto-exploração. Já que era um dia só e eu não teria a chance de, por um lado ficar mal-falada e por outro achar o homem da minha vida, eu liberaria geral pra galera. Isso, evidentemente, depois de passar uma boa parte do tempo em vestiários femininos averiguando os detalhes das amigas. Hummm, pensando bem acho que seu eu fosse mulher por um dia eu nem ia pensar nessas coisas. Era muita novidade pra eu ficar pensando em uma coisa só. E logo nisso? Mulheres não são assim.

Se eu fosse mulher por um dia eu não ia querer que neste dia, justo neste dia, eu estivesse de TPM. Eu preferia estar grávida. Não no dia do parto. Naquele período em que o bebê já mexe dentro da barriga e parece haver uma interação total entre ele e a mãe. São dois e ao mesmo tempo são um só. Acho que seria muito mais divertido.

Deixa ver. Grávida e trabalhando em quê? Hummmm,  presidente da república. Isso, eu ia querer ser mulher e presidente da república do Brasil. A primeira. E não seria nenhum Cérbero, um macho de saias ou um coração de aço. Ia querer ser uma mulher mesmo e pensar como uma mulher pensa e tratar o pais como minha casa e os compatriotas como familiares. E isso inclui tempestades durante o período. Família briga mas se é família de verdade, acaba tendo um objetivo comum e uma solução para todos os problemas.

Eu iria querer ser uma presidente grávida e milionária. E ter uns dois filhos ainda crianças pra poder brincar com eles na sala ao lado da que governaria o país. Eu não ia querer ser linda mas gostaria de ter as feições suaves daqueles que são justos e amados. Dos que nunca perderam uma noite de sono por desespero, miséria, injustiça ou violência.

Se eu fosse mulher por um dia, eu ia querer isso.

Ou uma mulher normal, uma brasileira comum, sem ter a preocupação de cuidar do pais e toda esta chatice. Eu gostaria de ter uma vida digna, um amor, uma família e uma harmonia muito grande entre tudo o que da minha vida fizesse parte.  E nunca ter passado necessidades, nunca ter sido tratada como um ser menor, desvalorizada profissionalmente e coisas do gênero.

Se eu fosse mulher... eu não faço mesmo a menor idéia do que eu gostaria de ser se eu fosse mulher por um dia. Minto. Uma coisa eu sei: eu queria ser brasileira. E teria muito orgulho disso.

Leo Jaime é cronista do Blônicas.

Escrito por Blônicas às 17h07
[]


A excomunhão é uma benção.

De Milly Lacombe.

Eu tentei ser excomungada oficialmente. Juro por Deus. Foi uma idéia de minha amiga Nina Lemos. Numa segunda-feira qualquer, não mais inquieta do que o normal, Nina entrou na redação da Tpm e, antes mesmo de pegar o café, me fez o convite: “Quer ser excomungada comigo?”. Era tentador, embora eu nunca tivesse pensado a respeito. “Claro”, respondi. E ela imediatamente começou a ligar para igrejas (assim com minúscula mesmo) para saber como fazer para se livrar da culpa de termos sido batizadas.

Pelo que me lembro, depois de muito tentar falar com um padre sem conseguir (eles são, naturalmente, muito ocupados) Nina encontrou uma boa alma que resolveu dedicar um tempo ao próximo – no caso, ela. Quando explicou o que queríamos e por que queríamos, o padre disse: “Ah, sua amiga é gay? Então ela já está automaticamente excomungada”.

E meu mundo caiu. “Mas eu quero um ritual de excomunhão! Eu pago!”, gritei. “Conforme-se, você não vai ter um”, respondeu Nina. “A Igreja já faz questão de não ter você em seus cadastros de almas”.

Nunca fiz o teste para saber se meu dinheiro seria ou não aceito pela igreja católica para que ela me excomungasse em um ritual. Um dia, talvez, tenha saco para entrar em uma igreja, superar o arrepio em meu corpo toda vez que entro em uma (sempre em respeito a algum amigo, ou amiga, que ainda usa o estabelecimento para casar) e abrir a carteira em nome da divina excomunhão. Por enquanto, me basta saber que já saí dessa. E pelo motivo mais nobre: ser quem sou.

Por que mesmo gostaria de fazer parte de uma organização em que estupradores são bem-vindos e homossexuais não? Valha-me deus.

Mas hoje minha revolta com o catolicismo já nem é tão grande. Acho que perdi o ímpeto para criticá-lo porque ele mesmo está tratando de descer ao inferno sozinho. É como aquele jogador que, de tão ruim, não precisa nem de marcador durante o jogo: esse, a natureza marca.

Na verdade, vibro todas as vezes que algum dos representantes da igreja católica dá declarações como a desse padre (bispo ou coisa que o valha. Não sei a respeito das fardas da instituição) pernambucano que disse que abortar era pior do que estuprar. Fico realmente feliz quando ouço uma estupidez desse nível. Feliz porque é bom ver a verdade vindo à tona – e pela boca de homem de batina. Aí, é melhor ainda. Parece que, finalmente, a natureza está tratando de marcar a igreja católica.

E começo a sonhar com o dia em que a humanidade alcançará um nível de desenvolvimento espiritual que permita a todos distinguir entre a declaração diabolicamente abobada de um padre e a justiça cósmica. Nesse dia, o catolicismo terá sido enterrado – e isso sim será divino.

Que a igreja fique com seus estupradores e pedófilos. Que os abrigue em seus altares de mármore, que dedique a eles missas e liturgias em latim. Enquanto isso, nós, os que fazem sexo sem querer reproduzir, os que usam camisinha, os que amam pessoas do mesmo sexo, os que não vão à missa nem amarrados, os que acham que uma menina de nove anos pode e deve tirar o feto que foi resultado de um estupro feito por quem deveria protegê-la ficamos do lado de cá.

Aliás, ficamos do mesmo lado daqueles que comem moluscos (no Levíticos 11:10 está escrito que eles, os que comem o molusco, são uma abominação), dos que trabalham aos sábados (o Êxodos 21:7 diz quem trabalha aos sábados deve ser morto e talvez a igreja, ocupada com tantas ações judiciais movidas por vítimas da pedofilia de seus padres, esteja se esquecendo de matar esses caras) e dos que aparam a barba (que, segundo determinação do mesmo livro, também devem ser assassinados).  É nóis.

Porque tem ainda o seguinte. Se amanhã  um maluco decidir matar alguém que não aparou a barba ou que trabalhou no sábado, esse cara está automaticamente absolvido pela igreja católica, mãos dadas com o pedófilo e com o estuprador. É por isso que eu oro: incluam-me fora desse time, pelo amor de Deus.

Milly Lacombe é cronista do Blônicas.

Escrito por Blônicas . às 10h00
[]


Como criar um personagem.

De Edson Aran.

Nesta minha vida de escritor bem sucedido e cercado de mulheres por todos os lados, especialmente o de baixo e o de cima, ouço frequentemente a mesma pergunta: “Como faço para criar personagens surpreendentes capazes de me transformar num prosador laureado e cheio de mulheres querendo dar pra mim?”
Muito simples, meu caro. Criar um personagem inesquecível não requer prática nem habilidade. Siga os meus passos.

Evite criar personagens planos
Um bom personagem não deve ser plano, mesmo que você esteja escrevendo a biografia de um losango. Ele deve ser complexo e cheio de emoções ambivalentes como se fosse gente de verdade. Para isso, tudo o que você precisa fazer é deixar o personagem doidão de vez em quando sem qualquer motivo aparente.
Um personagem plano funciona assim:
“Capitu obedecia e jogava com facilidade, com atenção, não sei se diga com amor. Um dia fui achá-la desenhando a lápis um retrato; dava os últimos rasgos, e pediu-me que esperasse para ver se estava parecido. Era o de meu pai, copiado da tela que minha mãe tinha na sala” (Dom Casmurro, capítulo 31)
Note agora como um personagem complexo funciona melhor:
“Capitu obedecia e jogava com facilidade, com atenção, não sei se diga com amor. Um dia fui achá-la desenhando a lápis um retrato; dava os últimos rasgos, e pediu-me que esperasse para ver se estava parecido. Era o de um demônio medieval sodomizando uma freira amordaçada num calabouço escuro e úmido como os becos do Cosme Velho”
Daí pra frente, tudo o que Capitu fizer será complexo, mesmo que não seja. O efeito melhora se, no resto do livro, você não fizer mais referência alguma ao tal sodomita demoníaco.

Escrevas frases memoráveis para o seu personagem
Ninguém é Oscar Wilde, Bernard Shaw ou Millôr Fernandes, sempre com um epigrama engatilhado para disparar em eventos sociais. Mas, ainda assim, os grandes personagens sempre têm uma frase de efeito. Elas podem ser literariamente simples (“meu nome é Bond, James Bond”) ou complexas (“a vida, Horácio, é uma história cheia de som e de fúria, contada por um idiota significando nada”). Note como um diálogo fica muito melhor com frases mais elaboradas:
“—Você não me ouve, Capitu.

-- Eu? Ouço perfeitamente.
-- O que eu dizia?
-- Você... falava que a consistência é o último refúgio daqueles que não têm imaginação.
-- Qual consistência, Capitu. Eu falava...
-- Falava que... só os muito fúteis não julgam pela aparência.
-- Capitu...”

Dê um passado ao seu personagem
É muito importante que seu personagem tenha um passado. Ele não pode surgir na página 15 como se tivesse saído da maternidade – a não ser que ele seja um bebê predestinado a ser o anti-cristo. Neste caso, tudo bem. Mas se o personagem for adulto, um passado dará a ele mais dramaticidade e riqueza. Quanto mais nebuloso e misterioso for este passado, melhor. Aprenda:
“Capitu olhou para mim de um modo oblíquo e dissimulado, levantou o olhar sem levantar os olhos. De repente, seus olhos se arregalaram e ela disse:
-- Bentinho! Ninjas!
Não atinei com a razão daquilo, mas ela mesma me esclareceu:
-- Ah, desculpe, por um momento pensei que eu estava de volta à ruas sujas de Hokkaido durante a guerra com o czar Nicolau em 1905, que levou à conquista nipônica dos territórios da Manchúria e da Coréia. O que é mesmo que você dizia?”

Encha seu personagem de defeitos físicos
Personagens caolhos, cegos, manetas ou pernetas são mais lembrados pelos amantes dos livros do que aqueles que não têm nenhum defeito. Por que você acha que ninguém se esquece do capitão Ahab, do corcunda de Notre Dame, do Mr. Hyde e do monstro de Frankenstein? Veja como transformar um personagem vulgar numa figura literária inesquecível:
“Capitu tinha olhos de cigana oblíqua e dissimulada. Na verdade, fiel leitor, tinha apenas um olho de cigana oblíqua e dissimulada. O outro ela perdera ainda na infância, quando tentara coçar a pálpebra com o gancho que lhe substituíra a mão esquerda. Por isso, agora, Capitu era conhecida como a horrenda Cigana Maneta Caolha do Engenho Novo”

Se tudo falhar, transforme seu personagem em vampiro
Vampiros vivem para sempre. Seu personagem também viverá.

Edson Aran é cronista do Blônicas e faz 82 anos hoje.

Escrito por Blônicas às 18h06
[]


Nerd.

De Ana Paula Ganzaroli.

Você sabe que é nerd se usa óculos. Todo nerd usa, se não usa, não é nerd.

Você sabe que é nerd se gostava muito, mas muito, mas tanto que chegava a doer de português e/ou matemática. Você fazia a tarefa mínima e a tarefa complementar da escola com os pés nas costas.

Você sabe que é nerd se passava cola na escola. Se os seus “colegas” se tornavam amigos no dia “D” e se o seu professor te isolava nas provas finais.

Você sabe que é nerd se tem rinite. Todo nerd tem, é uma lástima. Não sei explicar se é por conta da conjuntura dos planetas, ou por mera falência parcial dos seus glóbulos brancos e ou por mera teoria darwiniana

Você sabe que é nerd se fala em glóbulos brancos e Darwin e se gosta de ir à biblioteca, do cheiro dela, dos livros de lá, mas principalmente, das pessoas que lá frequentam.

Você sabe que é nerd se antes de experimentar drogas foi ler um livro para saber o efeito e dependência que cada uma causaria em seu organismo e para não trocar gato por lebre.

Você sabe que é nerd se gosta de Machado de Assis.

Você sabe que é nerd se descobre o sexo primeiro pelos livros, depois pela tv, depois pelos amigos e só por último, na “vida real”.

Você desconfia que seja nerd se for o último a perder a virgindade. Se você troca uma saída com seus amigos para assistir a um documentário super legal no History Chanel.

Você sabe que é nerd se sua mãe voltava orgulhosa da reunião de pais e mestres, e exibia o seu boletim com um beijo na bochecha e com a promessa de um presente fora de época.

Você sabe que é nerd se imagina um verso para a pessoa amada ou se faz declarações de amor cheias de poesia, ainda que nunca vá às vias de fato.

Você sabe que é nerd se lê vários livros por ano, mas ainda assim se culpa, porque a sua lista de livros-memoráveis-para-ler-antes-de-morrer, não pára de crescer.

Você percebe que virou um nerd se faz listas de compras, pior, se faz orçamento mensal, pior ainda, se faz orçamento anual, e tem duas previdências privadas. Tudo é sempre muito planejado porque o nerd tem medo de arriscar.

Você percebe que é nerd se ficou envergonhado por ter respondido muitas vezes com um “sim” ao ler o texto.

Mas veja, não fique triste, e nem se ache excluído ou parte das minorias que viraram feriado nos calendários, eu descobri que sou uma nerd também.

Vale lembrar que sempre vai ter um (a) nerd por perto. Preste atenção quando alguém fizer “atchim”, se for bonito (a) e usar óculos, comece a treinar os versos e poemas. Ela (ele) vai adorar, afinal, os nerds também amam, e ainda declamam Drummond.

Ana Paula Ganzaroli é leitora do Blônicas e escreve como convidada.

Escrito por Blônicas . às 18h26
[]


A gorda.

De Bianca Rosolem.

Aquela senhora era muito gorda. Ela sentava-se no banco, todas as manhãs, e lá ficava, plácida em sua magnânima adiposidade. Ela não lia, não conversava. Simplesmente permanecia sentada por horas a fio. Nem sequer o sol a incomodava, mesmo este derretendo as camadas superficias de gordura que formavam pequenas gotículas oleosas nas têmporas da mulher. Com o sol quase a pino podia-se contemplar grandes manchas de suor embaixo das enormes tetas. O olhar era longe, sem foco. Em alguns momentos ela passava um lenço sebento na face. Ela não ligava para risos, falatórios de canto. Na realidade ela nem sequer percebia o movimento maldoso que se formava ao seu redor. Ela era alheia a tudo que cheirava mundo.
Quando começava a escurecer ela ia embora. Ela carregava uma tristeza anunciada no olhar que não se dissipava. Claro que todos os moradores da rua apostavam e especulavam sobre a vida daquela imensa senhora. Mas nunca, ninguém, nem mesmo o investigador da polícia civil que se meteu numa aposta grande, descobriu algo sobre ela. Ela sumia entre a multidão, mesmo sendo aquela pujança de carne. As crianças a temiam de certa forma, afinal, sempre estava lá sentada no banco, com aquele olhar vidrado e perdido. Alguns mais despudorados tentaram travar diálogos com a estranha. Mas nada conseguiram, nem sequer um olhar. Nada desviava a atenção dirigida ao nada da gorda. Ela esperou ao longo de muitos anos, sentada, naquele banco. Os cabelos esmaeciam, ficavam ralos. Ela parecia maior, maior. As crianças iam agora para a faculdade, e podiam ainda ver aquele ser da infância desolado no banco da praça.
Muito esta senhora esperou, pelo o quê, ninguém jamais soube. Mas todos sabiam que ela fora uma pessoa persistente. Afinal, ela não desistiu, lá permaneceu até que um dia ela já não pode mais.
Peceberam que ela não aparecia. Até que um dia o Sr. que colecionava plantas carnívoras mostrou a todos o obituário indicando que uma senhora muita gorda, sem parentes ou amigos, havia falecido. Seus vizinhos, nauseados por um cheiro terrível oriundo da residência de sua estranha vizinha, chamaram a polícia. No local foi descoberto o corpo, enorme, sem vida, exalando um fedor torturante.
Ela estava deitada na cama, cercada de crisântemos amarelos, e vestia uma grinalda de nubente amarelada e mofada.
Ela ainda olhava para o nada, só que desta vez mais fixo do que nunca. Não acharam vestígios de suicídio, parecia que ela sabia quando seria o fim.
A estória correu a cidade, muito foi o que se fantasiou sobre aquela mulher. Desde decepções amorosas a homicídios e fugas da polícia. Mas nada se confirmou.
Ela era só aquela mulher gorda que rompia com a rotina estúpida e proletária daquele subúrbio no lugar nenhum.

Bianca Rosolem é cronista do Blônicas.

Escrito por Blônicas . às 15h43
[]


Pelos poderes de Grayskull.

De Xico Sá.

As mulheres com filhos são especiais, especialíssimas, mas o inesperado encontro com os seus rebentos, em um corredor estreito, minutos antes do dia clarear direito, podem nos deixar mais perdidos do que barata em salão de forró ou gafieira, uma loucura, uma batalha napoleônica, aquela coisa toda, pinel mesmo, sentindo-me  um boa-praça da Tamarineira azeitando o eixo do sol na quarta-feira de cinzas, um calouro no Mira y Lopez, um trelelé que acabou de dar entrada no Galba Veloso, para ficar apenas em alguns dos sanatórios gerais do Recife, Fortaleza e Belo Horizonte.

Foi assim que me vi, revi, quando, numa ressaca miserável, rumei do leito amoroso em busca de um copo de água gelada depois da primeira noite com uma ex-ex-ex.

Tem mercadoria mais preciosa, amigo, em um final de madruga, depois de uma farra monstra, do que um copo de água gelada? Vale por um açude de Orós, vale por uma barragem de Tapacurá, vale por toda a bacia hidrográfica do rio das Velhas, prosseguindo aqui a nossa conversa com o Ceará, Pernambuco e Minas, a santíssima trindade que publica em respeitosos jornais essa crônica.

Pois sim, mal este abestalhado que vos bafeja a prosa abriu a porta... Mal este mamador profissa chutou aquele taco solto do apartamento da nega... Mal este infame mirou uma luz mínima, uma réstia de nada...

Mal este carga-torta, com uma brasa em cada branco do olho, tomou consciência do universo, Nossa Senhora dos Paus d´Água, mal arrumou os óculos fundo-de-garrafa sobre a napa moura, e já veio  aquela criatura enfurecida com uma espada toda iluminada, incandescente, de modo a me deixar mais areado e perdido do que pitomba em boca de banguela.

As mulheres com filhos ainda em casa, repriso, são especiais, especialíssimas, mas confesso: foi a maior batalha da minha vida. Fiquei me sentindo assim um duelista de Joseph Conrad, um espadachim acuado, um cavaleiro sem armas, um homem morto.

Irrompi daquele quarto macio e escuro, amigo, com o único e banal objetivo de matar a minha sede, e eis que me deparo com o endiabrado menino, na saúde sem freio e sem controle dos seus cinco, seis anos, no máximo, disposto a tudo nesse mundo, inclusive disposto a se vingar das maldições gregas e freudianas, disposto a passar por cima do meu então magro cadáver, disposto a proteger sua Jocasta, o cão chupando manga, a febre do rato, um pirraia dos infernos, um cabinha destemido, um mutum em redemoinhos e t´esconjuros tantos.

O endiabrado menino, senhoras e senhores, portava uma daquelas armas iluminadas que me levou direto para um conto de ficção científica do Bráulio Tavares com Zé Ramalho, deus-mor da raça, como personagem, amo os dois à vera, por supuesto.

Uma tocha de fogo que aumentou ainda mais a minha sede e a minha ressaca...

E pensar que eu me contentaria, àquela altura da quase manhã, com um simples copo de água, desejo sagrado que não se pode negar a nem uma criatura da face da terra.

Sim, leitores de Jó, o diabo do menino, sorriso sádico, estava armado com uma daquelas miseráveis espadas de He-Man, ali no final dos anos 80, e me espetou como o demônio espeta uma alma vagabunda que chega ao inferno durante o cochilo da sua sesta, puro descuido.

O menino acabou comigo, à vera, antes uns bons cutucões das peixeiras do Beco da Facada... O filho da mãe, da amante, da amada, me tirou o couro e o osso, parecia um Delmiro Gouveia comprando pele de bodes e de cabras, sertões afora, saudade daquele menino que duelou de homem para homem ainda no estreito corredor escuro da sua infância.

Xico Sá é cronista do Blônicas.

Escrito por Blônicas . às 15h03
[]