COLUNISTAS
MILLY LACOMBE


XICO SÁ

CLÉO ARAÚJO

NELSON BOTTER JR

TATI BERNARDI


LEO JAIME


ANA REBER

HENRIQUE SZKLO

GIOVANA MADALOSSO

CARLOS CASTELO

BIANCA ROSOLEM

LUSA SILVESTRE

EDSON ARAN

SILVIO PILAU


AQUI VOCÊ TAMBÉM ENCONTRA:

Ailin Aleixo
Antonio Prata
Carol Marçal
Cristiana Soares
Evandro Daolio
Gisela Rao
Marcelino Freire
Rosana Hermann
Paulo Castro

E MAIS:
Alexandre Heredia
Ana Paula Ganzaroli
Analice Alves
Edgar Costa Neto
Felipe Soares Machado
Helena Marcolini
Isadora P. Szklo
Klauss Klein
Lívia Venina
Lu Paiva
Luís Couto
Luis Gonzaga Fragoso
Marcelo Ferrari
Marcelo Sguassábia
Mauro Judice
Ricardo Campos Soares
Ricardo Prado
Thaís SBA
Thaty Hamada



ARQUIVO

01/02/2011 a 28/02/2011
01/12/2010 a 31/12/2010
01/08/2010 a 31/08/2010
01/07/2010 a 31/07/2010
01/06/2010 a 30/06/2010
01/05/2010 a 31/05/2010
01/04/2010 a 30/04/2010
01/03/2010 a 31/03/2010
01/02/2010 a 28/02/2010
01/01/2010 a 31/01/2010
01/12/2009 a 31/12/2009
01/11/2009 a 30/11/2009
01/10/2009 a 31/10/2009
01/09/2009 a 30/09/2009
01/08/2009 a 31/08/2009
01/07/2009 a 31/07/2009
01/06/2009 a 30/06/2009
01/05/2009 a 31/05/2009
01/04/2009 a 30/04/2009
01/03/2009 a 31/03/2009
01/02/2009 a 28/02/2009
01/01/2009 a 31/01/2009
01/12/2008 a 31/12/2008
01/11/2008 a 30/11/2008
01/10/2008 a 31/10/2008
01/09/2008 a 30/09/2008
01/08/2008 a 31/08/2008
01/07/2008 a 31/07/2008
01/06/2008 a 30/06/2008
01/05/2008 a 31/05/2008
01/04/2008 a 30/04/2008
01/03/2008 a 31/03/2008
01/02/2008 a 29/02/2008
01/01/2008 a 31/01/2008
01/12/2007 a 31/12/2007
01/11/2007 a 30/11/2007
01/10/2007 a 31/10/2007
01/09/2007 a 30/09/2007
01/08/2007 a 31/08/2007
01/07/2007 a 31/07/2007
01/06/2007 a 30/06/2007
01/05/2007 a 31/05/2007
01/04/2007 a 30/04/2007
01/03/2007 a 31/03/2007
01/02/2007 a 28/02/2007
01/01/2007 a 31/01/2007
01/12/2006 a 31/12/2006
01/11/2006 a 30/11/2006
01/10/2006 a 31/10/2006
01/09/2006 a 30/09/2006
01/08/2006 a 31/08/2006
01/07/2006 a 31/07/2006
01/06/2006 a 30/06/2006
01/05/2006 a 31/05/2006
01/04/2006 a 30/04/2006
01/03/2006 a 31/03/2006
01/02/2006 a 28/02/2006
01/01/2006 a 31/01/2006
01/12/2005 a 31/12/2005
01/11/2005 a 30/11/2005
01/10/2005 a 31/10/2005
01/09/2005 a 30/09/2005
01/08/2005 a 31/08/2005
01/07/2005 a 31/07/2005
01/06/2005 a 30/06/2005
01/05/2005 a 31/05/2005
01/04/2005 a 30/04/2005
01/03/2005 a 31/03/2005
01/02/2005 a 28/02/2005
01/01/2005 a 31/01/2005


LIVROS



EM BREVE



Visitantes únicos desde 15/01/2005
Site Meter Add to Technorati Favorites

XML/RSS Feed
O que é isto?

Leia este blog no seu celular


Bem casado.

De Cléo Araújo.

Fugi um pouco.
Estou sentada na poltrona da antessala da festa.
Por aqui circulam os que estão nela “a trabalho”. O que não chega a ser o meu caso. Eu vim pelos noivos. Meus amigos.
Ao meu lado, uma vovozinha perdida puxa papo. Saiu da “bagunça” porque aquelas luzes a estavam deixando “tonta”.
Tem também um molequinho de seus cinco anos de idade correndo de lá pra cá e de cá pra lá. Mas ele não está fugindo. Está só explorando.
Há também três fumantes em volta de um cinzeiro, um painel com uma foto monumental dos noivos, em sépia, e um rapazinho bem magrinho tocando violino.
Eis que surge, esbaforida, a organizadora da festa, daquelas com um visual business: terninho preto, rádio na cintura, rabo de cavalo e cara de quem tem uma responsabilidade equivalente a digitar o código para desarmar a bomba atômica nas mãos. O que ela carrega? Um boá cor de rosa, uma cartola preta e um par de Havaianas douradas.
Estico meu pescoço e percebo que a cartola chega às mãos do noivo; o boá, às da noiva; e as Havaianas, aos pés da mãe da noiva. Sim, a organizadora de casamentos é quem troca o sapato dela, ali mesmo, ajoelhada no chão. Mil e uma utilidades, essa moça.
Parece ser o convite para a “abertura” da pista de dança.
O som sobe...
“At first I was afraid, I was petrified...”. O violinista é silenciado, os fumantes apagam seus cigarros, o molequinho de cinco anos resolve explorar o banheiro feminino e até a vovozinha parece ter ficado mais animada ao som de Glorya Gaynor.
Então eu entro no salão e dou de cara com uma das madrinhas. Mas não é qualquer madrinha. É a madrinha alfa. É ela quem está distribuindo coroas de princesa, daquelas feitas de brilhantinhos falsos, às outras madrinhas da matilha. Nesse ínterim, enquanto a madrinha líder tenta desenroscar uma coroa da outra e enquanto os convidados gritam que “it’s fun to stay at the Y-M-C-A” uma garotinha de seus doze anos se aproxima e faz a pergunta: “posso pegar uma, tia?”. No que a madrinha chefe se coloca categoricamente “Não, querida, essas são SÓ para as madrinhas, tá?”. Cargo importante, esse...
A música vai subindo...
“You can dance, you can jive, having the time of your life…Uuuuh”. 
Como eu não estou muito a fim de dançar, me sento com um copo de uísque e permaneço tranquila, conversando com um amigo de infância que não via... Bom, que não via desde a última vez que havia tocado Abba no casamento de outro amigo em comum.
Uma terceira amiga que estava dançando resolve voltar para mesa e se senta ao nosso lado. Ficamos ali os três, comendo uma barquinha de folhado com camarão, rindo, conversando, falando mal de alguém, naturalmente, quando surge numa espécie de palco uma pessoa que parece ser uma espécie de animador de casamento, pois é uma mistura de Ryan Seacrest com Bira, baixista do sexteto do Jô Soares. E é ele quem chama os noivos até o palco. Sim, ele tem um microfone.
Os noivos agradecem à presença de todos, até daqueles que vieram lá do Canadá para prestigiar o dia mais importante das suas vidas. Os canadenses se levantam e batem umas palminhas. O noivo desce e a noiva fica. O animador anuncia então que é chegada a grande hora da noite. Ela vai jogar o buquê! Urruuu!
Voltamos à nossa conversa enquanto meninas de seis a sessenta e oito anos de idade correm para perto do palco. Viro-me para pedir para o garçom completar meu copo de uísque quando começa a contagem regressiva. “3, 2, 1 e...” - lá se vai o ramalhete pelos ares. Dezenas de bananas, chapinhas, cachinhos e tranças de raiz se engancham na tentativa de agarrar a sorte grande. Mas qual não é minha surpresa quando percebo que aquele arremessado não é o verdadeiro buquê com o qual a noiva entrou na igreja. Não, senhor! Trata-se de um buquê doublé. Feito de matéria prima mais barata e manufaturado especialmente para ser jogado às leoas. Sei que a mocinha de vestido vermelho e baby liss pode até ter perdido uma sandália no empurra empurra, mas que conseguiu abocanhá-lo, conseguiu! E ficou bem feliz.
Divirto-me, então, com os amigos. É como se fôssemos cúmplices de alguma coisa ou simplesmente um grupo de debochadores despeitados prontos para partir assim que o primeiro funk ou o primeiro axé começar a rolar.
Já é tarde, os amigos do noivo já picotaram a sua gravata e eu resolvo que está bom de ir embora. Um grupo de outsiders se anima a sair comigo. Vamos até os noivos para dar aquele tchau e desejar aquela Lua de Mel. E não é que eles estão felizes mesmo? Cansados, casados, mas felizes. Ali, naquele instante, me sinto um pouco mal por ter passado 65% da festa naquela postura cínica. Mas é só Claudinha Leite cantar o primeiro acorde para que eu dê mais uma vez os parabéns ao casal e bata em retirada.
Antes de sair, penso em deixar meu telefone com o bartender gatinho que fiquei paquerando durante os outros 35% da festa. Mas, além de me sentir velha demais pra isso, estou sendo expulsa pela poeira que dona Ivete resolve começar a levantar.
Caminhamos, eu e os outros amigos, até a porta do salão. Tomamos um café, comemos uns petit fours e partimos.
Amanhã, duas certezas.
Uma é a de que os pombinhos embarcarão para Maceió e curtirão as belezas naturais de Maragogi.
A outra é a minha ressaca de uísque oito anos.
Café da manhã?
Bem casado e Coca Cola.

Cléo Araújo é cronista do Blônicas.

Escrito por Blônicas . às 10h49
[]


Os hunos.

De Edson Aran.

Entre todas as hordas bárbaras (motoboys, mulheres-frutas, sem-terra) que tumultuaram a Idade Média, nenhuma foi pior do que os hunos.

Nômade feito flagelado da seca, o huno era hábil em cima de um cavalo e, diz a lenda, onde passava não nascia grama.

Isso levou historiadores a afirmarem que os deputados e senadores brasileiros também são hunos. Onde eles passam também não cresce grama. Alguns comem tudo, outros vendem pra quem pagar melhor. A única diferença é que eles não usam mais cavalos: como andam de quatro, a montaria ficou obsoleta.

Átila, o rei dos hunos, aterrorizou os povos da Europa Central no século 4. Muito folgado, Átila entrava num boteco, pedia um conhaque Dreher e passava a noite inteira contando piada ruim e mexendo com a mulher dos outros. Aí baixava policia, a porrada comida e todo mundo ia dormir na delegacia.

Identificar um huno é muito simples. Quando você suspeitar que alguém no bar é huno, não entre em pânico. Olhe para o outro lado, assovie uma canção do Roberto e, quando ele se distrair, você grita "Ei! Ô huno!". Se ele olhar, é huno legítimo.

Os hunos são criaturas perigosas, especialmente quando munidas de arco e flecha, armamento que dominam com rara eficiência. No caso do conflito se tornar inevitável, tranque as mulheres e as galinhas no celeiro, envenene os poços, arme-se de um rifle e fique à espreita.

Quando eles se aproximarem, quebre a vidraça com a coronha do rifle e grite: "Malditos hunos! Venham me buscar se puderem, seus bastardos!" Depois é só mandar bala até a chegada da sétima cavalaria ou das tropas do imperador de Bizâncio. O que passar primeiro.  

Edson Aran é cronista do Blônicas.

Escrito por Blônicas . às 10h15
[]


Desbravadores dos céus.

De Silvio Pilau.

Zeca Pagodinho tem medo de avião. Sempre que pode, o bêbado mais famoso e divertido do país evita viagens aéreas. Felizmente, Zeca não representa nossos interesses. Felizmente, quem representa não sofre desse mal. Para os nossos políticos voar é um prazer. Uma diversão. Um passatempo. Passam mais em lojas de conveniências de aeroportos ou vendo filmes no ar do que no Congresso trabalhando. Viajam, se precisar, até de graça. São capazes desse sacrifício. Tudo por nós.

São seres nobres, bravos, altivos. São corajosos desbravadores que não temem desafiar os céus. São nossos filhos engravatados de Ícaro, que exalam intempérie ao confrontar a lei da gravidade. Por isso, não entendo a polêmica em torno das passagens gratuitas. Precisamos de pessoas assim. É disso que são feitos os verdadeiros heróis, ora. São forjados a partir da capacidade de fazer aquilo que não conseguimos fazer. Ceifando os céus a todo momento, nossos políticos apenas comprovam a coragem que esperamos deles.

Tolos vocês que pensam que eles estão se aproveitando de prerrogativas políticas. Ingênuos vocês que acreditam que eles usufruem de prazeres rindo do povo. Nossos destemidos brasileiros dos céus, nossos políticos voadores, estão demonstrando que são as escolhas certas para o nosso país. Estão lá, com a cabeça nas nuvens, com os pés bem longe do chão, mas não porque estão longe da realidade. Claro que não. Estão lá, a quilômetros da terra, para ter uma visão mais ampla do país. Para ver tudo de cima. Querem somente ver melhor para governarem melhor. Simples assim.

Mas, na verdade, ainda assim tem uma coisa nessa história toda que me deixa indignado. Não muito, mas me causa um certo desconforto. Eles estão viajando para o exterior em seus ternos de milhares de reais e tomando drinques em paraísos naturais às minhas custas. Eu paguei. O tempo que passo no escritório trabalhando foi pra que eles pudessem saborear essas viagens. Por isso, considero má educação o fato de não me agradecerem. Nem um muito obrigado. Nem mesmo uma lembrança a quem bancou tudo.

Acho que a polêmica toda é por causa disso. Se eles ao menos nos trouxessem uma presentinho de suas andanças aéreas - um chaveiro, que fosse - ninguém estaria falando nada.

Silvio Pilau é cronista do Blônicas.

Escrito por Blônicas . às 09h44
[]


Não há diamantes que comprem uma alma perra.*

De Xico Sá.

Tudo que sei é que esta é uma história em primeira pessoa. Blow-up. Quando dei fé, cão vadio, aos teus pés lá embaixo estava, mulher-abismo.

Enfiei-me entre os dedos lambi como um lazarento... pulgas passionais ainda tentaram me avisar, epa!, durante a queda, em vão. Uma mulher muito grande, alma desenhada por R. Crumb. Pulgas mais avexadas, sado-camonianas, escreveram no meu couro, em caligrafia-coceira, “o amor é fogo que arde e não se sente”, ah, se eu pego esse caolho eu furo o outro. Lambi os dedinhos, um a um, mas não com ritmo, queria que você visse o desassossego desse pobre cardisplicente sob a forte chuva de granizo. Não há guarda-chuvas para o amor, Catherine. Nem mesmo quando se tem 20 anos. Não há diamantes que comprem uma alma perra, Catherine, não há barcos, salva-vidas, só perdição e enchentes. Não à-toa os sofás bóiam nos aguaceiros. Sofás dormidos por homens que erraram, homens que já partiram. “As mulheres são todas diferentes. Quando se perde um homem, há outro igual ao virar da esquina. Quando se perde uma mulher, é uma vida”. Desde o dia em que cai aos seus pés não sabia se estava a ganhá-la ou perde-la. O AMOR É FODIDO, do amigo ultramarinho Miguel Esteves Cardoso, me ensina coisas. Ao contrário das pulgas sado-camonianas, este gajo, certa noite das antigas, na cidade de São Paulo, boate Love Story, dizia que as lágrimas das raparigas são coquetéis sem álcool. Dizer “não chores” funciona sempre, porque só mencionar o verbo “chorar” emociona-as e liberta-as, dando-lhes carta branca para chorar ainda mais. As raparigas, depois de chorar, soprou-me o gajo, lirismo-Morrisey, ficam com vontade de fazer amor.

* do livro "Cão vadio aos pés de uma mulher-abismo" (editora Fina Flor, esgotado).

Xico Sá é cronista do Blônicas.

Escrito por Blônicas . às 14h15
[]


Gran-Torino dilema.

De Leo Jaime.

Será que alguém vai entender? Clint Eastwood retoma o personagem truculento e tosco de outrora para dar um rumo e situar na história, diante da atualidade, aquele ponto de vista. É certo que o durão de outrora merecia ser revisitado, por tudo, até para supor um amadurecimento e mudança de atitude. No entanto, o que me parece mais apropriado é o fato desta história, tão bem contada por este fantástico ator/diretor, abordar o encontro de um homem de 80 com um cara de 17 anos.

Há uma frase no roteiro que é uma sentença: “enquanto estes pilantras estiverem por aí os jovens decentes não terão a menor chance”. E diz isso se referindo a uma pseudo-gangue do bairro, que curte hip-hop e tem aquela cultura horrorosa de achar que com armas tudo se resolve. E vendo-se refletido nos tais jovens, percebe que este não é o método e que o jovem comum, boa pessoa, não tem chance de sobreviver num mundo em que os brutos tendem a vencer sempre. A gangue que ameaça o tal garoto do filme é a mesma que, em outro momento, o protege de outra gangue.

Gangue? Bad boy? Achar bonitinho e supor que estes caras são a versão atual dos jovens rebeldes de outra eras é muito burro e superficial. A tal cultura hip-hop de pimps, hoes, bitchs é ridícula! E copiada aos estertores por todos os jovens do mundo! Enquanto este modelo vingar, não há a menor chance!

Espero que isso, para quem ver o filme, fique claro!

A solução é: cumprir a lei! E se a lei é desagradável, lutar para mudá-la. Ponto final.

Tiroteio nas ruas tranquilas do Rio de Janeiro. O bagulho sendo vendido e sendo comprado regularmente, apesar do terror e das mortes. Não dá pra dizer que a sociedade não esteja fazendo sua parte. A parte ruim está sim, que é alimentar este estado de coisas com a omissão ou olhando para o outro lado. Ninguém luta para a legalização ou pára de comprar.

Vai ver nem pensam no assunto. Botam Black Eye Peas no som, bem alto, e ficam cantarolando My Hump. Sem saber direito o que estão dizendo ou fazendo da vida.

Leo Jaime é cronista do Blônicas.

Escrito por Blônicas . às 14h29
[]


Homem de ferro

De Henrique Szklo

Me sinto ameaçado pelo mundo. Uma ameaça constante e perturbadora. Por isso sou duro, muitas vezes inflexível e implacável. Sinto que se o vento bater forte eu vou quebrar, por isso não vergo. Travo, resisto até a morte. Bato de volta no vento pra ele deixar de ser besta. Sei que é inútil. Sei que preciso relaxar, pra minha própria sanidade, pra minha própria sobrevivência. Sei de tanta coisa que não serve pra nada. Mas como vou abrir a minha guarda assim sem mais nem menos, esperando o direto no meu queixo. Como vou relaxar e gozar se a ameaça está sempre à espreita? Como, se eu sinto que um mínimo momento de fraqueza pode abrir as portas do meu castelo e me destruir por dentro? Estou cercado por cavalos de tróia. Isso se reflete na minha atitude, nas minhas relações, nos meus gestos. Sou uma pessoa dura. Acredito que minha linguagem corporal expressa essa inflexibilidade com mais presteza que as palavras. Isso afasta as pessoas, afasta os empregos, afasta tudo. Como diferenciar uma ameaça de um carinho? Como saber se a mão que chega vem para esmurrar ou para afagar? Na dúvida, eu impeço a mão de me tocar. Às vezes de forma áspera, como que uma mensagem subliminar: não volte mais aqui, não se atreva. Quem consegue uma aproximação comigo o faz à maneira dos adestradores de cães raivosos. Vêm com calma. Tentam ganhar a confiança lentamente com gestos nunca bruscos. Tentando comprar a confiança com pequenos pedaços de carne. Mas a maioria das pessoas não tem esta paciência, por isso correm o risco de serem mordidas pelo cão que tentam alimentar. Aliás, mesmo aqueles que acreditam ter adestrado o animal, correm risco constante de levar uma abocanhada. Ao meu lado, ninguém está totalmente seguro. Tentar transpassar minhas defesas, meu campo de força, minha carapaça é uma missão inglória. Sou uma pessoa blindada. Sou o homem de ferro. Tenho uma capacidade de proteção e de ataque invejável, mas não me comunico com o mundo exterior e tenho meus movimentos prejudicados pelo peso e pela falta de flexibilidade da armadura. É isso que eu sou, um herói solitário. Minhas pretensas boas intenções se perdem na minha luta contra o mal. Uma luta que brutaliza aos poucos, que desfigura lentamente as feições humanas. Não sei se algum dia conseguirei tirar meu traje protetor e encarar o vento e o sol e as pessoas de peito aberto. Todo herói tem seus dilemas. Herói bem resolvido não é herói. Talvez eu não queira ser herói. Mas só talvez. Talvez o que eu queira de verdade ainda não foi desvendado. Talvez nunca seja. Certamente nunca será.

Henrique escreve no Blônicas e é casca grossa.
Visite seu
site, o fotoblog de camisetas autodestrutivas e sua Academia de Criatividade.

Escrito por Blônicas.. às 15h41
[]


Vicky Cristina Barcelona Katita e Ruriá.

De Carlos Castelo

SAÍDA DO CINE LUMIÈRE - EXTERIOR - NOITE

Katita e Ruriá - ele webdesigner, ela atriz - saem da última sessão de “Vicky Cristina Barcelona” e se dirigem a pé pela calçada até um pé-pra-fora do Itaim.
Discutem sobre o filme que acabaram de ver.

KATITA
- Que tal? Curtiu?

RURIÁ
- Médio.

KATITA
- Médio, é? Por quê?

RURIÁ
- Sei lá, achei o filme mais offline do Woody Allen até hoje.

KATITA
- Offline? Por quê?

RURIÁ
(cofiando o microcavanhaque)
- Por “n” motivos. A escolha do personagem central, por exemplo, o Juan Antônio. Quer coisa mais offline do que enfocar a vida de um pintor catalão. Em pleno 2009? Numa época onde elegem um presidente negro no país mais poderoso do mundo usando o messenger?

KATITA
- Me explica melhor isso, Ru. Dá um exemplo menos online, por favor…

RURiÁ
- Quer coisa mais offline do que uma tela de pintura? Uma tela não abre pra nada, é fechada em si. É o oposto do que a Grande Rede propõe. O filme só fica nas pinceladas, nas exposições em galerias, no meio físico. Isso é OLD SCHOOL!

KATITA
- Ué, mas ele ia enfocar em quem mais? Num engenheiro de TI? Será que dava caldo? Um cara desses conseguiria comer aquela mulherada toda, fazer elas praticarem suicídio por causa dele? Enquanto ele usasse um calculadora HP? Sei não, Ru, acho que não daria liga.

Ruriá faz uma cara entendiada. E, depois de alguns momentos de silêncio, responde ao comentário da companheira.

RURIÁ
- Olha, cada um tem o seu ponto-de-vista sobre uma história. É a web-democracia, meu bem. A minha visão é a de que o filme é off pra cacete. E, de mais a mais, a trama não dialoga com as redes sociais. Elas não podem cooperar, comentar, interagir. Em resumo, pra mim o Woody Allen não faz filmes pra Geração Y e nem conversa com a Web 2.0.

BAR PÉ SUJO - INTERIOR - NOITE

Garçom idoso coloca uma garrafa de Serramalte e dois copos americanos na frente do casal.

KATITA
- Mas por que o Woody Allen deveria estar preocupado em criar para Geração Y ou para a Web 2.0? Meu, o cara passa metade do tempo com a Penélope Cruz e a outra com a Scarlett Johansson…

Ruriá bebe um longo gole da cerveja, dá uma babadinha e usa o guardanapo para limpar o canto da boca.

RURIÁ
- Melhor pra ele, mas seria mais coerente com o tempo em que estamos. Sem contar que aqueles diálogos que ele põe na boca dos personagens...

KATITA
- Geniais!

RURIÁ
- Prolixos! Cada fala daquela não cabe em três vídeos do Youtube. O cara simplesmente desconhece web-semântica!

Kakita se irrita, pede outra cerveja. O velho garçom traz. Ela quase toma a garrafa da mão dele. Coloca no copo, sobe espuma, mas ela bebe assim mesmo, num gole nervoso.

KATITA
- Então tá, senhor sabe-tudo. Como é que você contaria a complexa história daquelas mulheres e daquele pintor catalão de uma maneira virtualmente correta?

Ruriá lança-lhe um olhar frio. E responde com grande segurança e superioridade.

RURIÁ
- Eu faria um game.

FIM

Carlos Castelo é cronista do Blônicas.

Escrito por Blônicas . às 16h42
[]


Vazio.

De Bianca Rosolem.

E então um dia ela descobriu. Desde o início algo dele intrigava-a. Por muitas vezes ele mostrava-se absorto em algum grande mistério, como que desconectado da realidade. Os olhos paravam em algum ponto distante, e permaneciam assim, imóveis. Quando interrogado, ele parecia simplesmente acordar de um sonho muito profundo, dizendo “o quê?”. Foi assim quando seu pai morreu, a notícia chegou através de um telefonema do hospital. Logo após desligar, ele permaneceu alguns minutos sem se mover sobre o sofá. Ela sentou-se calmamente e pousou os braços sobre os seus ombros e aguardou. Ele nada disse, levantou-se e foi tomar banho. Ela esperou sentada na cama, e quando o viu saindo do banheiro com a toalha enrolada na cintura, perguntou. “O quê? Ah, sim, Ana, meu pai acabou de falecer.” No enterro ele não falou muito, apertou todas as mãos e agradeceu as condolências, ouviu palavras de conforto, fez um discurso sobre a vida do pai. Chegou em casa, tirou o paletó escuro e dormiu. Ela também dormiu, segurando a mão dele, mas tinha certeza que ele não sentia a sua compreensão.
Ela consultou muitos livros para buscar uma solução ao que ela interpretava como uma inabilidade emocional do marido. Ela sabia que ele sentia a dor, a alegria, a angústia e o medo perante as situações que a vida lhe apresentava, porém, acreditava que ele apenas não possuía a capacidade para reagir. Não sabia como abordar com ele tal assunto, pois de certo seria algo muito delicado. Assim, deixava mensagens pela casa, um livro, um artigo de jornal, uma matéria no repórter da TV. Ele, todavia, parecia sempre tão absorto em seu interior, como se a cada dia o mundo exterior se tornasse apenas um lugar de visita rápida de seu ser.
Foi quando ele perdeu o emprego. A barba crescia vigorosamente, e ela não sabia mais como se comunicar com o marido. Ela dizia sobre o tempo, os preços do mercado, “meu Deus como estão altos”, comentava sobre as boas notas do filho. Na realidade ela tagarelava loucamente sobre tudo e todos, e ele nada grunhia, ficava de um canto ao outro, quieto, totalmente preso de si.
Ela chorou quando foi a um médico indicado por uma grande amiga, “minha grande amiga”, ela dizia soluçando. Queria de qualquer forma uma solução para o mal do marido, algo que a ciência conhecesse para trazê-lo de volta à vida. “Ele sorria, bem, não muito, mas eu já vi, sim, eu me lembro, existe uma foto em algum lugar, ao menos se eu fosse mais organizada encontrava para então você ver”. Essa era a esposa: Bondosa, corajosa, criou o filho, deu-lhe amor, atenção, e pagava a escola particular “tão cara”. Trabalhava muito e sofria tanto mais. Agüentava por muito tempo o choro, até que em algum momento bobo as lágrimas desciam com grandes convulsões, como no dia que vislumbrou a gata que andava se esgueirando pelo quintal amamentando seus filhotinhos recém-nascidos. Costumava também se culpar sobre o marido, e jamais desistiu de procurar pela “cura”.
O garoto estava crescido e lembrava fisicamente o pai, ela estava orgulhosa em vê-lo formando-se no segundo grau. Era inteligente e já ajudava nas despesas da casa. O pai, para ele, era uma sombra triste sobre a sua vida, uma memória de algo que não foi bom nem ruim. Era apenas a presença da ausência. Ele não compartilhava das teorias da mãe, que de alguma forma absolviam a conduta do pai, como alguém vítima de uma doença. Ele apenas acreditava que ele era um homem demasiado infeliz e egoísta. Nunca sentiu nada pelo pai, ele nunca fora capaz de despertar sentimento que fosse sobre o filho. O nó da gravata que hoje fizera para o baile aprendeu a fazer sozinho, como muitas outras coisas que os rapazes contam com a ajuda do pai para descobrir, ele apenas aprendeu por aí. O amor da mãe limitou a forma de conhecimento, e, assim, podemos chamá-lo de bom rapaz. Ela tentou dizer ao marido que era formatura de Eduardo “um homem veja só, um homem!”. Ele, porém, permaneceu imóvel diante da TV.
Partiram a mãe e o filho, e ele ficou lá sentado. A TV fazia uma luz azul sobre o seu rosto macilento. Ele sentiu um formigamento nos pés que crescia lentamente pelas pernas, e subia pelos quadris. Tentou se mover e não conseguiu. Ele pensava “mexam-se pernas” e elas permaneciam imóveis. Então o formigamento atingiu seus braços antes que pudesse alcançar o telefone.  A esposa e o filho iriam demorar, afinal era a formatura e depois a festa. Certamente ficaria ali, imóvel, durante muito tempo. Os olhos começaram a arder, pois não conseguia mais piscar. De repente, ele já não mais podia pensar sobre seu corpo e sua estranha condição, e teve certeza que estava morrendo. Isto porque viu-se em uma praia muito bonita, sentia a areia sob seus pés e entre os dedos, nunca gostara da sensação da areia. Ele realmente estava lá, de alguma forma, mesmo que seu corpo ainda estivesse no sofá. Ficou muito perdido, correu pela praia, entrou no mar, nadou muito até o fundo, até que esqueceu o sofá, a esposa e o filho. Depois foi mais para o fundo, quando já não mais sabia de nada.
Apenas viu a água salgada tomar-lhe tudo lentamente. E seus olhos embaçaram e já não tinha mais foco.
Eram talvez três horas da manhã, ninguém jamais soube precisar a hora. A esposa e o filho entraram ainda inebriados pela alegria comum, quando encontraram o corpo do homem que se desfazia em areia. Os dedos do pé quase até o tornozelo eram montes de areia, assim como as mãos, parte do rosto e da barriga. A sala exalava um odor marinho, de ressaca e peixe podre. A mulher se assustou e ajoelhou, e gritou, e chorou. O filho chamou a polícia, que chamou o médico forense, que chamou um colega cientista, que chamou um ufólogo, que chamou o jornaleco semanal.
“O homem que virou areia”, como foi chamado em todos os lugares por muitas vezes, até que se sucedeu a morte da estranha gorda, foi objeto de muitas especulações, mas não existiram explicações finais.
Sua esposa em um programa de TV, daqueles que a platéia faz perguntas às pessoas que ficam no palco, disse que acreditava que na realidade, talvez toda aquela areia explicasse o estranho comportamento do marido durante toda a vida. Acreditava que a areia foi tomando a sua alma com o passar do tempo, uma espécie de doença, que o tornava estranhamente vazio.
A verdade, ninguém jamais soube, mas na época muitas pessoas se assustaram e procuraram por indícios de areia em seus interiores ou de seus próximos.
Nada encontraram.

Bianca Rosolem é cronista do Blônicas.

Escrito por Blônicas às 11h27
[]


...

De Henrique Szklo

As palavras são uma invenção do homem. Não existem na natureza. A linguagem da natureza é muito mais sutil, ampla, difusa e por isso mesmo, poderosa. O homem criou a linguagem para facilitar a sua vida - a mesma razão pela qual inventou todo o resto – mas como todas as invenções, naturais e anti-naturais, esta possui um perverso efeito colateral. Como a função primária da palavra é justamente definir as coisas de forma clara, objetiva e inconteste, já vai aí uma falha intransponível. Nada na natureza é totalmente claro, objetivo e inconteste, portanto as palavras definem apenas uma pequena e insignificante fração das coisas. A fração mais superficial e óbvia. Seu real e complexo significado fica fora da zona da linguagem criada pelo homem. A palavra não traz em si atestado de idoneidade. Como se diz, o papel aceita tudo e, digamos que isto pode se extender pela linguagem falada como um todo, portanto uma boca aceita tudo. A palavra não possui mecanismos de comprovação de sua autenticidade. Já a natureza quando se comunica, apesar de nos faltar clareza em muitos momentos – mais por nossa limitação do que por qualquer outra causa - o faz de forma inconteste, contundente e plenamente comprovável. A natureza não se comunica com palavras. Se comunica com sinais. Sinais amplos e complexos, que exigem de seus interlocutores um pouco mais do que um raciocínio lógico. Uma pupila tem muito mais a dizer sobre o verdadeiro pensamento de alguém do que uma lingua. A lingua mesmo pode trazer informações valiosas. Não pelo seu movimento em busca da construção de sons, mas em sua textura, umidade, rigidez e tamanho. A palavra, portanto é limitada, limitadíssima. Não carrega em seu bojo todo o espectro de significados que aquele objeto, ato, conceito ou idéia têm. Se conforma em definições leigas e preguiçosas e mesmo assim temos a sensação de que “entendemos o mundo”, porque eventualmente conheçamos muitas palavras e milhares de suas combinações ilusórias.

Henrique escreve no Blônicas e usa mal as palavras.
Visite seu
site, o fotoblog de camisetas autodestrutivas e sua Academia de Criatividade.

Escrito por Blônicas.. às 10h57
[]


Livro do autoconhecimento humano.

De Marcelo Ferrari.

 

sofremos até a página sete
amamos o próximo até a página três
temos certeza absoluta até a página dois
gostamos de peixe cru até a página nove
achamos a julia roberts bonita até a página cinco
conversamos como adultos até a página seis
pensamos na camada de ozônio até a página oito
acreditamos no ser humano até a página um
aceitamos o mundo como ele é até a página quatro
mas julgamos

julgamos sempre

pela capa.

 

Marcelo Ferrari é escritor convidado. Seu blog: http://xixicomtinta.blogspot.com/

Escrito por Blônicas às 10h53
[]


Mais forte.

De Cléo Araújo.

Logo ela, que sempre foi assim, tão certinha de tudo.
A moça centrada. Séria. Crítica. Acima.
Era ela quem sabia qual era o remédio para cachorro com caganeira.
Era ela quem informava que o tamanho da pilha para o controle remoto da TV era AAA.
Era ela quem sempre se lembrava do nome daquela música, daquela banda, como é que era mesmo o refrão? E ela sabia. Que jantava franguinho grelhado com saladinha de cenoura ralada e alface americana. Que dormia cedo. Que não gostava de anel entalado no dedo nem de novela das oito.
Logo ela. Tão certa de si. Tão perfeita, depilada, macia, maquiada, esmaltada, perfumada, arredondada e penteada.
Um dia, e foi de uma hora para outra, se deu conta de que não tinha mais certeza de coisa nenhuma nessa vida. De coisas complexas às mais mundanas ações da rotina, ela simplesmente não sabia mais.
Não tinha ideia do que faria no feriado. Logo ela, a rainha dos calendários, a fonte para se saber quando cairia o Carnaval de 2017.
Era incapaz de escolher entre palmito ou aspargo para acompanhar o filé.
Não conseguia decidir se comprava uma bota de esqui, um peixe beta ou uma casquinha do McDonald's.
Aí, tomou duas pílulas anticoncepcionais no mesmo dia. Levou uma multa de zona azul. E deixou o queijo brie embolorar na geladeira.
Foi quando começou a perder.
Perdeu o celular, o guarda-chuva, o prazo para o pagamento do IPVA, perdeu até a estréia de "Fringe". Logo ela, a pessoa mais conectada e agendada do planeta.
Buscou análise. Acupuntura. Pilates. Viagem de navio. Aula de canto. Tomou chá branco, tequila, tomou até um passe em um centro espírita. Começou a ler horóscopo. E fez até um mapa astral. Logo ela, que nunca tinha acreditado em nada nem em ninguém, comprou uma vela de sete dias e deixou queimando em cima da geladeira do lado de uma imagem de Santo Expedito que ela comprou em uma loja de macumba.
Mas que nada... Continuava sem si. Continuava acordando suada de um cochilo com a TV ligada em "Caminho das Índias". E os sonhos? Os mais estranhos. Num deles, Thom Yorke a sequestrava e a jogava algemada dentro de um porta-malas para fazer dela sua escrava sexual.
Nada mais fazia sentido.
Tudo se resumia àquela obsessão.
Tudo se reduzia àquela vontade, àquele desejo esquisito, errado, fora de hora. Logo ela, a pessoa menos mal intencionada que ela conhecia, agora uma moça sem centro. Descontrolada. Inconsequente. Abaixo.
Tudo se traduzia naquele amargo de foi-não foi na sua boca. Tudo se sublimava naquela necessidade de fazê-lo ouvir o que ela não poderia querer dizer. Tudo a sua volta estava completamente fora de ordem, sem pilha, sem remédio, sem música, sem rumo. E foi aí que ela percebeu. As pupilas dilatadas, as mãos suando frio e o abdômen que se contraía com vergonha do que o corpo todo tentava dizer.
Não havia mais nada que ela pudesse fazer.
Logo ela, que se controlava tanto, agora queria se arrepiar. Logo ela, que se bastava tanto, agora queria apresentar a ele suas axilas, seus tornozelos, a parte de trás dos seus joelhos e suas cicatrizes de catapora. Logo ela, que não se permitia nada, agora queria se deixar.
E ela queria muito.
E ela queria logo.

Cléo Araújo é cronista do Blônicas.

Escrito por Blônicas . às 10h31
[]


As sociedades secretas.

Organizações que você nunca ouviu falar .

De Edson Aran.

Os Escurinhos da Bavária
A Ordem dos Iluminados da Bavária surgiu em 1776. Para se contrapor a ela, foi fundada na mesma cervejaria a Ordem dos Escurinhos da Bavária, que preferiu rejeitar o Iluminismo e viver no maior negrume. Ou seja, no Escurismo. Na Ordem dos Escurinhos  só podia entrar escurinho. Um problemão, já que, afinal, eles estavam na Bavária e não no Baixo Gávea. Até hoje a Ordem não conseguiu fazer a primeira reunião. 

Esporte Clube Zoroastro Sensitivo
O Esporte Clube Zoroastro Sensitivo (E.C.Z.S.) venceu por três a zero o Clube de Futebol e Regatas Paranormal Paracelso (C.F.R.P.P.), conquistando a taça Hermes Trimegisto 2009 (HT 2009). Gols de Chicão Nostradamus, Cipriano Fenômeno e Conde de Cagliostro, o Cacá.

Os Serventes de Pedreiros
Pedreiro, em inglês, é masson. A maçonaria, portanto, desenvolveu-se a partir das guildas (gildas metidas a besta) de pedreiros renascentistas. Os maçons (isto é, pedreiros) se reúnem semanalmente para dominar o mundo e fazer rituais engraçados. Já os serventes de pedreiros (isto é, serventes de maçons) se reúnem semanalmente pra conversar sobre bunda de mulher e a boa fase do Ronaldo Fenômeno.

Ordem dos Cavaleiros Templates
Rivais da Ordem dos Cavaleiros Templários, os Templates nunca fizeram nada de original. Só copiaram as outras ordens. Apertos de mão secretos, planos para o estabelecimento de uma Nova Ordem Mundial, misteriosos rituais escandalosos... os Templates copiaram tudo. Atribui-se a eles a proteção à poderosa máquina xerox de Jesus Cristo, descoberta numa loja de conveniências do Mar Morto em janeiro deste ano. Foi com ela que Jesus fez todos aqueles pães e peixes.

Confraria da Salamandra Vesga
A Confraria da Salamandra Vesga possui, atualmente, um único membro. O membro é de borracha sintética, tem três velocidades e pode ser observado na sede da organização, em Zurique.

Edson Aran é cronista do Blônicas.

Escrito por Blônicas . às 10h32
[]


Tudo aquilo.

De Tati Bernardi.

Combinei comigo um dia e um horário. Terça, onze e cinquenta da noite. Depois que eu resolvesse o problema do aquecedor que quebrou e depois que eu resolvesse o problema do cara que fez um buraco no teto por conta disso e o problema do pintor que viria depois do cara que arrumaria o buraco no teto. Depois que eu resolvesse o problema da grana alta que tenho que arrumar em uma semana. E eu contando centavo pra pagar nove reais da minha conta do UOL. Para isso só mudando de agência. Minha gerente é o tipinho loira de raiz de pêlo de Poodle que chega pra trabalhar rouca porque foi em alguma micareta fora de hora (e todas não são?). Depois que eu entregasse treze roteiros em um mês. Um milagre que só um ser sem dormir e sem vida seria capaz de cumprir. E eu cumpri. Dormindo e com vida. Terça, onze e cinquenta. Até lá, preciso resolver o problema da produtora que voltou a me encher o saco. O problema da emissora que continua me pagando pro pão com ovo. O problema do escritório de advocacia que resolveu me cobrar honorário até do segurança noturno que bateu punheta e limpou com a xerox rasurada do meu contrato. Tem também o problema da contadora que se confundiu com a minha senha e agora tô há semanas sem receber pelos meus freelas. Preciso entregar aqueles textos pra peça de teatro, ainda que ninguém me diga com clareza o que é pra ser feito. Bota aí alguma coisa de Revolução Francesa. Sei. Posso botar sadismo? Preciso inventar um jeito da minha personagem do filme trepar com um gringo por dinheiro e isso jamais parecer prostituição. Tá fácil.

Combinei comigo um dia e um horário. Terça, onze e cinquenta. Depois que eu resolvesse meus exames pedidos pelo médico há meses. Agora preciso correr, pra aproveitar que o meu plano bom vai pro saco e eu vou ficar com meu plano vagabundo. Depois que eu resolvesse o lance da administradora do prédio ter o CNPJ caçado e meu condomínio ter subido para o equivalente ao que eu gastaria pra visitar minha amiga em Londres. Aliás, ia me dar isso de presente de trinta anos, mas esse ano fico sem presente mesmo. O importante é pagar meu porteiro que dorme na madruga enquanto eu negocio com os sequestradores relâmpago do bairro “ah, vai assaltar em alto de Pinheiros que lá tem velha rica e desocupada, aqui não tenho nem pra jujuba e preciso entregar um roteiro, agora não rola ir até o caixa com você, muito menos passear pelo bairro curtindo o seu cd pirata do Simple Red remixado”.

Combinei comigo um dia e um horário. Terça, onze e cinquenta. Depois que eu resolvesse o lance de passar três dias por semana no Rio para melhorar minha social no trabalho. Não tenho dinheiro e pra falar a verdade (pela milésima vez) não tenho prazer nenhum em passar esses dias no Rio, longe da minha casa, marcando encontros, sempre em pé e com barulho, com gente que te enche de beijo e de festinha e nem dá tchau na hora de ir embora.

A Net me cobrou em duplicidade de novo, eu devo dinheiro pra mais da metade da família, nenhum ser humano do planeta me abraça e sorri antes de perguntar porque ando tão magra ou porque cortei meu cabelo igual cabana de índio depois do vendaval. Minha ressonância da coluna foi usada numa campanha de tobogãs assassinos das noites do terror. Minha psicanalista me mandou aumentar as sessões para três por semana mas eu não tenho tempo ou dinheiro nem para meia. Se bem que todas duram “meia” e quando preciso ir embora, é só gritar algo do tipo “odeio homem” ou “quero trepar comigo” ou “não fui eu, fui ele” ou “não sou eu que to falando, mas eu acho” que ela se levanta num misto de ódio com delírio e me expulsa dali. E eu faço de conta que saiu sem q uerer. Minha empregada chora porque não tenho dinheiro pra pagar três vezes por semana. E eu que tô chorando pra pagar uma por mês? Escreveram vaca na poeira do meu carro quando eu fui doar umas roupas velhas para um centro espírita. O chá boa noite só aumenta a minha vontade de roçar os dentes alucinadamente e conferir novamente os trincos da porta. As furadeiras do meu prédio cantam sempre em uníssono com os galos, principalmente aos domingos. Meus hormônios me enlouquecem, ora falham, eu seco, não tenho fome de nada e medo de tudo, quero sumir e odeio todo mundo. Ora bombam, faço amor até com geladeira desregulada, quero 567 filhos, amo o que segue. Vai e vem. As estrias se partem e algo dentro de mim o tempo todo.

E terça chegou, são onze e cinquenta da noite. Coloco Radiohead. If I could beeeee, who you wanteeeed. Apago todas as luzes. Vai, Tati, sofre. Você precisa sofrer um pouco. Vai. Você combinou que se daria pelo menos uns instante de luto pelo amor que morreu. Vamos lá. Uma lágrima. Um, dois, três e…e…e…ah, eu tenho mais o que fazer!

Tati Bernardi é cronista do Blônicas.

Escrito por Blônicas . às 10h08
[]


A mentira tem pernas curtas, mas torneadas.

De Xico Sá.

A mentira tem pernas curtas mas bem torneadas, como as de Lurdinha, por exemplo, minha prima e musa da lan house de Solidão, Pernambuco.

A mentira tem pernas curtas, mas é pra lá de sexy, usa um shortinho que só vendo, de parar a Rebouças, de fechar o comércio.

A mentira é só um modo menos doloroso de se editar a vida, um corte, uma linguagem, diz um amigo que não sai da sua gelada ilha de edição nem para ir ao banheiro.

Democrática, a mentira nasceu para todos como o sol dos trópicos.

Mente o católico e o evangélico também mente ao dizer que esse mal jamais sairia da sua boca. Mente o judeu, mente o árabe da Faixa de Gaza e só não mente o homem-bomba porque não volta para contar a história.

O macho mente, mas mente muito melhor a fêmea, ela tem a manha, o esmero, o escopo, a marcenaria da coisa, o dom de iludir como na canção de Noel & Vadico, a treta, o apuro, a língua, o domínio. 

De tanto abusarmos da moça de pernas curtas, nós, os marmanjos, banalizamos tal prática, nos entregamos pelo olho, pelos trejeitos, mesmo quando se trata da mentira mais sincera.

Se for jornalista o sujeito, nooossaa, só deixa de mentir quando artista morto, como na música de Fred 04.

É isso mesmo, até os melhores exemplares da raça masculina cometem as suas trapaças, dissimulações, subterfúgios, maquiagens na face da quase sempre insuportável realidade. Do presidente da corte superior ao trombadinha. A diferença é que uns ainda coram, enquanto outros nem se incomodam com as faces infestadas por cupins.

Todo esse nariz de cera, esse lero-lero da cumeeira dessa crônica, para dizer que folheei dia desses, na espera do dentista, “101 mentiras que os homens contam _e por que elas acreditam” (ed. Ediouro), da norte-americana Dory Hollander, um clássico da psicologia barata. Aliás, nem no dentista foi, o fato deu-se no consultório do homeopata, quer dizer, no analista...

Minto. Comprei mesmo o livro no sebo, por dever de ofício, e o devorei, olhos de traça. Que mentira que lorota boa, seu escriba de meia tigela, seu Zelig, que fica inventando desculpas para as leituras mais vagabundas.

Dane-se, comprei, li e gostei, pronto.

 Melhor assim. E quer saber, é um clássico da psicologia popular universal. Está para a fofoca de salão como “A Interpretação dos Sonhos” [by Freud] está para a psicanálise. São frases que podem ser ditas tanto em Manhattan como no sertão do Crato. Dona Hollander fez uma pesquisa séria, ouvindo muita gente, sobre nossas mentiras, nem sempre sinceras, e nossas piores promessas.

Vai de um inocente "estou cansado demais" a um irresponsável "eu te amo" _dito na hora errada à mulher errada, no lugar errado”. Começo, meio e fim e a nossa cuca ruim, como na canção do príncipe Ronnie Von.

Por que elas acreditam, entonce? A psicóloga arrisca respostas. Uma delas: as mulheres acham que ceticismo e romantismo não podem andar juntos, sob pena de estragar as coisas.

Dona Hollander nos separa em dois blocos: os perigosos e, digamos, aéticos, que abusam da mentira, que enganam por "esporte e lucro", de forma inescrupulosa como donos de bancos; os mentirosos ocasionais, que se mostram dissimulados sob pressão e desviam a realidade com pequenas lorotas, artifícios para se livrar da "fúria feminina" etc.

Nessa categoria estão também aqueles que poderíamos chamar de canalhas líricos, inocentes galanteadores como o Bertrand Morane do filme "O homem que amava as mulheres".

Seja qual for a sua classificação, a leitura  pode ser feita de forma séria e compenetrada, na linha auto-análise, ou apenas como um delicioso chiclete para a mente, ora. À guisa de tira-gosto, ficam ai algumas casquinhas e caldinhos das nossas melhores mentiras captadas pela autora:

"As únicas fantasias sexuais que tenho são com você".

"Você é maravilhosa, merece alguém melhor do que eu".

"Relaxe, é apenas uma amiga".

"Vou deixar minha mulher".

"O que me atrai em você é a sua mente".

"Não, não acho você gorda".

Xico Sá é cronista do Blônicas.

Escrito por Blônicas . às 12h14
[]