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Notícia.

De Ana Reber.

- Vou deitar, tá? Eu gosto de falar olhando pro teto, me sinto mais `a vontade. Olha, é o seguinte: eu tenho uma notícia meio chata pra te dar. Na verdade não sei bem como te dizer isso e acho que você também não vai concordar com a minha decisão, mas enfim. Eu não vou poder mais vir. Eu sei que você acha que eu não tô completamente curado, mas realmente não vai dar para continuar. Queria te agradecer, porque putz, você me ajudou a superar vários traumas, foi importante mesmo. Me sinto bem melhor agora. De verdade. Aquela coisa mal resolvida que eu tinha com a minhã mae, lembra? Aqueles traumas de infância também, aquelas minhas loucuras todas. Pois é, eu sinto que tudo isso passou… Antes de vir aqui conversar com você, eu não tava conseguindo fazer quase nada sozinho, mal saía de casa, só caminhava até a esquina para comprar cigarros. Você me ajudou mesmo. Impressionante. Seu método para me deixar mais à vontade, seu jeito de lidar comigo.  Acho que o fato de falar muito e ter alguém pra ouvir também ajuda, né?
E você tinha toda razão, vir duas vezes por semana foi bem melhor mesmo. Enfim, espero que você entenda a minha decisão…Eu queria continuar vindo, mas não dá, não dá mesmo. Agora que eu tô namorando… não dá pra ficar encontrando uma puta, sabe? Foi mal. Óh, tá aqui os cinquentinha de hoje. Qualquer coisa se eu precisar muito eu te ligo, tá?

Ana Reber é cronista do Blônicas.

Escrito por Blônicas . às 16h48
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A metelança.

De Carlos Castelo.

Quatro e quinze da manhã. E aquele miado de gata.

Romeu levantou abruptamente da cama. Passou a mão pelos olhos ramelentos, apurou os ouvidos.

Percebeu logo que era a vizinha de cima copulando.

Haviam se mudado para o novo apartamento há poucos dias. E, gradualmente, conheciam as manias dos outros condôminos.

O vellhinho do 34, que Norma apelidara maldosamente de “Enfisema Ambulante”, sempre com um cigarro entre os dedos amarelecidos e uma tosse de cachorro estranhíssima.

A bebê de poucos meses do 52 - que chorava seguidamente da meia-noite às três da madrugada - e a mãe só repetindo: “disciplina nesse berço, disciplina, Mariana!!!”.

Ou o advogado de meia-idade que defecava ruidosamente pontualmente às 11 e 15 da noite, nem um minuto a menos, nem um minuto a mais.

Mas nada se comparava ao que Romeu ouvia agora.

Aquilo não era mais uma relação sexual, era um capítulo do Kama Sutra com som quadrifônico, movimento e em 3D.

Isso porque a dona tinha a estranha capacidade de foder em vários cômodos e muito rapidamente.

Ouvia ela berrar “HAAAAAAAA HUA HUA” quase em cima de sua cabeça – o que significava que metia no quarto. E, alguns segundos depois, o grito já virava um “haaaaaaa hua hua” baixinho, lá nos confins da lavanderia.

Isso tudo acompanhado de um arrastar fino de saltos palito.

Romeu pensava que talvez a vizinha fosse um misto de velocista com atriz pornô quando Norma interrompeu seus pensamentos.

- Coisa, hein?

Romeu tentou abstrair.

- Que coisa?

- Essa metelança, Romeu. O que poderia ser?

Metelança. Norma nunca usara essa expressão. Estaria excitada com o furdunço do 78?

- Parece que ela transa correndo, né? Uma hora está no quarto, outra no banheiro, depois parece que vai lá pros fundos do apartamento – constatou Romeu.

- Pois é, agora uma coisa me chama mais atenção do que isso.

- Quê?

- Esses gritos. Não pode ser de prazer uma coisa dessa.

- Vai ser é sexo anal.

- Sexo anal pra muita gente dá prazer, sabia, Romeu? Só que uma pessoa não grita desse jeito só por estar gozando.

Parecia até que a vizinha ouvia o diálogo no escuro. Bem nessa hora soltou um “HAAAAAAAA HUA HUA” gigante, dessa vez da cozinha.

- Olha aí – disse Norma – essa mulher deve ter algum problema de lubrificação. Sabe aquela doença que, quando vem a penetração, a pessoa sente dor?

- Exame de próstata?

- Não, Romeu, vaginismo, se não me engano. Dói quando faz relação.

- Mas então se dói porque ela corre do quarto pra lavanderia, da lavanderia pra sala?

- Vai ver arde.

- Olha, não sei não. Me parece que isso é uma trepada animal, isso sim.

Sem ouvir o que Romeu dissera, Norma emendou:

- Ou então ele bate nela. É isso!!! Essa mulher está sendo espancada!!

Romeu coçou a cabeça, levantou-se.

- Onde você vai?

- Mijar.

- Acho que você devia aproveitar o embalo e ligar pra Polícia, Romeu.

- Polícia?

Quando Norma encasquetava com uma ideia era impossível contornar.

- É, Polícia, sim senhor. Essa dona está apanhando. Escuta isso: são gritos de dor, de pavor.

A mulher berrou algo meio cifrado, um eco chegou no apartamento deles sob a forma de um “….ERDA!!!!!”. Romeu fez um cone com a mão no ouvido e comentou:

- O que foi que ela disse?

- Nossa, Romeu, o maníaco está fazendo a pobre coitada comer fezes.

- Você enlouqueceu, Norma? Isso é uma coisa de aprovação, você não percebe? Merda!!! Quer dizer: que delícia. O oposto…

- Eu ouvi direitinho ela dizendo “NÃO vou comer merda!” Um psicopata no nosso prédio fazendo horrores a uma mulher. E você não toma a atitude de ligar pra PM agora!!!

Romeu foi mais longe.

Vestiu-se, desceu até a calçada e foi fumando um cigarro até a esquina, onde havia uma farmácia 24 horas.

Um tempo depois voltou ao quarto. Vestiu novamente o pijama e deitou-se ao lado da mulher.

- E aí, que horas a Polícia chega? – inquiriu a esposa.

- Mas eu não chamei a Polícia – informou ele, secamente.

- Não? E foi aonde, esse tempo todo?

- Na farmácia.

- Farmácia?

- É.

- …

- Comprei um gel lubrificante e deixei na porta do apartamento dela. Se for problema de secura, da próxima vez ela faz a metelança sem gritar.

E dizendo isso, Romeu virou-se para o lado e foi para os braços de Morfeu.

Carlos Castelo é cronista do Blônicas.

Escrito por Blônicas . às 16h43
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Redemoinhos.

De Tati Bernardi.

Essa noite eu sonhei que eu ia de pijama fechar o portão da minha casa e dava de cara com as duas. A Fabíola e a Melissa. As duas meninas mais bonitas da escola. Campeãs universais do jardim dois até o terceiro colegial. Elas ganhavam todas as eleições. O tal do Rodrigo Cabelinho era o menino mais bonito de todas as Américas e namorava a Fabíola. Mas, diziam as más línguas de doze anos, vivia chorando pela Melissa.
Meu apelido era “Fabíola feia”. Porque eu era muito parecida com a Fabíola, só que numa versão feia. Eu tinha o mesmo redemoinho na franja, mas nela ficava lindo, dava um charme, fazia o topete levantar pra depois cair elegantemente atrás das orelhas. Em mim ficava cabelo de gente que nunca tinha visto um pente na vida. Ou que tinha tomado um choque minutos antes de entrar na perua escolar que estava a toda velocidade e com as janelas abertas.
A Fabíola era a minha versão com bunda de bailarina, peitos incríveis e cara de safada. Eu tinha cara de boba mesmo. E minha bunda só servia para eu tentar fazer coco e deixar meu avô e suas milhares de ameixas felizes.
Quem vai na festa? A Rê, a Jú, a Dani, a Má e a Fabíola. Qual? A feia. Ah, a Fabíola feia vai? Vai! Que ótimo! Então a gente vai rir um pouco! Ela é tão engraçada, né? Muito!
Nessa época eu, totalmente incapacitada de viver uma relação amorosa graças a minha sem gracisse, vivia a relação amorosa dos outros. A Melissa não olhava na minha cara até descobrir que eu dava as melhores dicas amorosas do universo. Ela fazia exatamente como eu falava e conseguia o homem que queria. Eu nunca contei pra ela que ela conseguia porque era linda. E ela nunca me disse que sabia que conseguia porque era linda. Mas que eu dava excelentes conselhos eu dava. E ela não me largava.
A Fabíola também se apegou muito a mim depois que a mãe foi morar no interior e o pai arrumou uma namorada que ela detestava. Qualquer proble ma, corria pra falar comigo. Era estranho, mas eu realmente parecia ter uns trinta anos naquela época, quando dava os mesmos conselhos maduros e vividos que daria hoje. Ainda que hoje, em muitas situações, eu me comporte como alguém com doze anos.
Minha mãe também namorava na época e eu era sua melhor e mais recorrente conselheira. Não mãe, não liga pra ele! Deixa que ele ligue! E então ela esperava. Mas não aguentava muito. E se eu ligar pra irmã dele? Eu tinha pena e deixava “tá, pra irmã dele pode, mãe”. E pensava “coitada, tão menina”.
E depois de dar conselhos adultos pra Melissa, pra Fabíola e pra minha mãe, eu ia dormir e conversava com um coelhinho que eu tinha, que eu amava, e dizia a ele “eu só quero não fazer coco na calça amanhã, na prova de ciência, você me ajuda?”. Com o coelhinho eu não tinha nem trinta e nem doze anos. Eu tinha uns quatro ou cinco. Eu amava a porra do coelhinho. E ele me amava também, porqu e uma vez eu vomitei em cima dele e ele continuou sorrindo e com os bracinhos abertos.
Enfim, mas essa noite eu sonhei que ia fechar o portão da minha casa (detalhe: eu moro num apartamento e eu ia fechar um portão que nunca vi na vida) e dava de cara com a Melissa e a Fabíola. E elas estavam com roupas de bailarina. E eram tão absurdamente lindas e felizes e tudo ao redor delas era fácil e calmo. Elas continuavam as mesmas. E eu fiquei olhando, olhando. Pra ver se pelo menos agora as coisas poderiam ser diferentes. Esperando que elas me abraçassem e dissessem “nós sobrevivemos!”. Mas elas não fazem a menor ideia do que é isso. E então eu só fechei o portão. E dormi segurando o meu redemoinho, já que coelhinhos não existem.

Tati Bernardi é cronista do Blônicas.

Escrito por Blônicas . às 10h38
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Lugares para chorar em São Paulo.

De Giovana Madalosso.

Nem só de diversão vive o homem. Chorar também é preciso e, quando feito de maneira adequada, pode se revelar um ato de grande prazer. Se você quer chorar, saiba que São Paulo – cidade de tantas opções – também oferece lugares propícios para essa prática, onde o chorador se sentirá estimulado a verter seu pranto gota a gota, em quantidade suficiente para regar uma planta ou encher um aquário.

Supermercado 24 horas: recomenda-se uma visita durante a madrugada, quando você pode caminhar por corredores vazios, com a luz fria a iluminar a solidão dos notívagos e os olhares de peixe morto. Não é esse um microcosmo do mundo lá fora? Embalagens imploram por atenção, usando de frases de efeito, cores chamativas e outros subterfúgios estéticos para se destacarem entre seus pares, numa luta inglória pelo reconhecimento antes do prazo de validade. É, meu querido consumidor, a carência não poupa homens nem latas. E quando alguém lhe perguntar “tem algum item faltando?”, você poderá dizer “sim, me faltam todos os itens nesta vida!”. E ao perceber que até uma frase do manual da rede é capaz de lhe trazer alento, você estará pronto para chorar aos borbotões, sempre com a vantagem de ter à mão uma caixa de lenços em oferta.

Trânsito: ah, como é bom chorar na privacidade de um automóvel, com o gás carbônico acariciando as narinas e buzinas, sirenes e xingamentos se sobrepondo lá fora. Até parece que todo esse caos foi carinhosamente projetado para a sua dor. Entregue-se, sem pressa. Até porque você tem todo tempo do mundo para debulhar-se, sem ter de sequer engatar a segunda. Para uma experiência completa, repare como, nesse mar de individualismos, nem o seu pranto é capaz de incitar piedade. Ao invés de lhe dar um lenço, os outros motoristas vão lhe dar é uma bela cortada. Se está triste desse jeito, por que não se mata de uma vez? Seria um carro a menos, hão de murmurar entre os dentes, deixando você bem no meio do cruzamento, sob o olhar atento de um guarda que anota a sua placa.

Estátua do Borba Gato: não é comovente o esforço dedicado para erigir tamanha feiura? Pense quantos dias, meses e anos o escultor despendeu nesse trabalho insano, sem se dar conta de que apontava o cinzel na direção errada. Então você poderá chorar por ele e pela natureza humana, tão pródiga em equívocos de tamanha grandeza. Ou até pelo velho Borba, condenado a viver para sempre num paletó de ladrilhos.

Terraço Itália: lugar indicado para quem gosta de chorar com elegância. Peça um uísque, gire o gelo no copo e observe a vista. Você está no topo do mundo e, por alguns segundos, terá a ilusão de estar a salvo. Mas logo irá perceber que não adianta fugir: a sua tristeza é insistente a ponto de subir quarenta e um andares só para sentar-se ao seu lado. E, se a presença dessa companhia ilustre não for o bastante, peça a conta. O preço do drink irá, sem dúvida, levá-lo às lágrimas.

Cancela de Shopping: se tudo que você precisa para desmoronar é uma palavra de carinho, dirija-se ao shopping mais próximo. Pelo preço de uma permanência de duas horas, você vai ouvir alguém agradecendo a sua visita. Sim, alguém reparou que você veio, sabe quantas horas ficou e, pode ter certeza, gostaria que você tivesse ficado muito mais. Tanto que, se você demorar para sair, o braço esguio da anfitriã se fechará sobre o seu carro, e então você terá que voltar, entrar na fila de novo e revalidar seu ticket, agora se sentindo legitimado a chorar ainda mais.

Giovana Madalosso é cronista do Blônicas.

Escrito por Blônicas . às 10h34
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Star Trek.

De Silvio Pilau.

J.J. Abrams é um cara corajoso. Somente alguém com muita ousadia aceitaria reformular completamente uma das séries mais cultuadas e veneradas de todos os tempos. Mas a notícia é boa: Star Trek é um filme repleto de qualidades, uma produção que certamente agradará tanto os fãs quanto os iniciantes no universo da Entrerprise. J.J. Abrams não tem a menor ambição de construir algo mais do que um típico filme-pipoca, que apenas entretém por duas horas, mas o faz com extrema eficiência. 

O primeiro aspecto a ser destacado é a reverência de Abrams e dos roteiristas Roberto Orci e Alex Kurtzman ao material original. São diversas referências à série clássica, algumas delas que até não-iniciados irão perceber, como a presença de Leonard Nimoy e a narração final. No entanto, os roteiristas e o cineasta não se limitam às amarras e atualizam a história e personagens o tanto quanto necessário. Modificam, não desrespeitam. Claro que o texto acelera detalhes que poderiam receber mais cuidado, como o relacionamento entre Spock e Uhura, mas Orci e Kurtzman criam uma trama ágil e que exige atenção, impedindo o filme de perder o ritmo.

E ritmo não falta a Star Trek. Desde a ótima cena de abertura e das apresentações de Spock em Vulcano e de Kirk ao som dos Beastie Boys, Abrams pega o espectador pelo pulso e somente larga quando os créditos finais começam a aparecer. O cineasta constrói uma cena empolgante atrás da outra, não somente graças aos efeitos especiais, mas devido a um trabalho de direção hábil e uma montagem repleta de energia. Star Trek jamais deixa a bola cair, ainda que Abrams ocasionalmente apele para alguns recursos desnecessários, como o excesso de planos com a câmera de lado ou balançando.

Mas o que realmente faz Star Trek funcionar não é o espetáculo visual, e sim os personagens. Era fundamental para o reinício da franquia que Kirk, Spock e cia. conseguissem transmitir carisma e estabelecer uma dinâmica eficiente, o que realmente acontece. Star Trek é a história do nascimento de uma amizade e do surgimento dos laços entre uma equipe, e Abrams jamais perde o esse foco, mesmo em meio às feéricas explosões no espaço.

Claro que os méritos dessa conquista também se devem – e muito – ao elenco. Chris Pine surpreende no papel de Kirk ao carregar o filme com naturalidade, exibindo uma bem-vinda comicidade e retratando o espírito rebelde e contestador do personagem sem se tornar irritante. Ao mesmo tempo, Zachary Quinto demonstra talento ao conseguir transmitir a natureza conflituosa de Spock, preso entre a razão e a emoção. Mas é quando os dois dividem a tela que Star Trek realmente demonstra todo o seu potencial. A química entre Pine e Quinto é ótima e todos os momentos entre os personagens transmitem a sensação de que algo realmente está sendo erigido ali.

Contando ainda com uma ótima trilha sonora de Michael Giacchino e boas inserções de humor, Star Trek é um belo ponto de partida para uma franquia que tem tudo para voltar a conquistar admiradores. Não é uma obra-prima e não tem a ambição intelectual da série original, mas também não se propõe a isso. É feito com o objetivo de divertir e, visto por essa ótica, é muito bem sucedido. Deixa o espectador querendo acompanhar novas aventuras de Kirk, Spock e de toda a tripulação da Enterprise. Ponto para Abrams e toda a sua coragem.

Star Trek
De J.J. Abrams. Com Chris Pine, Zachary Quinto, Zoe Saldana, Simon Pegg, Karl Urban, Bruce Greenwood, Winona Ryder, Jennifer Morrison, Anton Yelchin e Leonard Nimoy.
Nota: 7.0

Silvio Pilau é cronista do Blônicas.

Escrito por Blônicas . às 11h34
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15 argumentos para levá-la ao menage.

De Edson Aran.

Ou: como trazer a amiga gostosa dela pra cama

1 – Pense nisso como um chá de Tapuer. Só que sem o Tapuer e sem o chá.
2 – Vocês podem conversar sobre “Sex and the City” e “Ugly Betty”
3 – Você não tem curiosidade de pegar naquele pe… tulante narizinho? É tão bonitinho.
4 – Eu só estou pensando no seu prazer, Marigilda. Juro! Sério mesmo! Quero ver tua mãe mortinha se for mentira!
5 – Vocês terão muita coisa em comum: eu, por exemplo.
6 – Se você não gostar, pode sair no meio. Hã... só você, tá?
7 – Esta experiência vai alicerçar ainda mais o nosso amor, Marinês... digo, Marigilda! Ma-ri-gil-da!
8 – Minha caixa de Viagra está quase vencendo e eu odeio desperdício!
9 – Você não faz nada que eu peço, benhê...
10 – Vocês podem treinar umas posições de pilates juntas. Na cama! Comigo!
11 – Você põe na boca. Se não gostar, não come!
12 – É que ela é tão gost, digo, interessante. A nível de ser humano, claro.
13 – Lembra quando você me pediu pra ir almoçar na casa da sua mãe? Eu também não queria ir, mas eu fui!
14 – Você precisa fazer alguma coisa: ninguém está te seguindo no seu Twitter!
15 – A gente só vai tirar a roupa e se lamber um pouco...

Edson Aran é cronista do Blônicas.

Escrito por Blônicas . às 17h51
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Vou não vou.

De Nelson Botter Jr.

- te devoraria tal caetano a leonardo di caprio
- isso é música, é?
- é, mas também é o que eu sinto quando cruzo olhares contigo
- obrigada, mas não quero não
- é, eu sei
- mas nem esquenta, caê, tem mais quinhentas por aí que seriam o seu leonardo di caprio num estalar de dedos
- é, eu sei
- então...
- ...
- ai, menino, tudo menos silêncio, acho desesperador, constrangedor, sei lá
- não tenho nada pra dizer, além do que já disse
- ah, sabe o que é... espero que você entenda, é que não me envolvo com garotos solteiros
- hein?
- não me envolvo com garotos solteiros
- mas quem falou em envolvimento?
- ah, que fosse uma noite e nada mais, pra mim já é um tipo de envolvimento, sabe... sou reservadona, sensível, moro no alto da torre do castelo, qualquer pele com pele já é um tipo de violação pra mim, quer dizer, envolvimento, coisa sagrada, sabe, eu sou assim, fazer o quê? espero que você entenda
- é, você sempre espera que eu entenda
- isso
- mas mesmo que role um carinho, qual o problema? não quer dizer que vai ficar apaixonadona e que vai sofrer por minha causa, é só uma amizade que rola algo a mais, uns beijinhos de vez em quando, um sexo gostoso...
- hahaha, garoto convencido, se liga, apaixonada eu? mesmo se eu sentisse alguma coisinha a mais de especial por você não desceria do salto, você nunca saberia, nem uma dica sequer, sou clássica, e essa coisa de amizade com sexo não rola, são princípios da minha vovó, tradição é tradição, sublimo com sorvete e seriados na tv a cabo
- e qual o problema de demonstrar algum afeto, baixar um pouco a guarda?
- eu não, vai que você me convence...
- se tem medo de ser convencida é porque quer que role, só não tem coragem... não?
- ihh, quer saber, você faz muitas perguntas, me irrita, me atrapalha... tinha de ser solteiro, né? quando bati o olho na sua mão e não vi aliança já sabia que era confusão à vista
- mas o que você tem contra solteiros?
- ué, não gosto de sofrer não
- sofrer?
- isso, a possibilidade de compromisso me arrepia, sabe, eu sou assim mesmo, prefiro homens casados ou que namoram, eles sabem os limites, não ficam atrás de você esperando algo a mais, querem ir direto ao ponto e fim de papo, solteiros não, procuram relacionamento, uma nova mãe, eu tô fora, já tenho um hamster que me consome muita atenção, cruzes!
- mas sou um solteiro diferente, ajo feito casado ou compromissado, fico na minha, nem vou querer algo mais sério depois, a amizade continua normal, apenas a cumplicidade aumenta
- não vai mesmo querer algo mais sério depois?
- não!
- e por que não? você não me acha bonita o suficiente? não sou boa o suficiente pra ser sua namorada?
- eu não disse isso
- então disse o quê? acha que sou bobinha? que não entendo nas entrelinhas? tudo bem, tudo bem, eu consigo superar... seu grosso 
- mas você mesma disse que...
- não precisa ficar se explicando, tudo bem, eu sou assim mesmo, espero que você entenda
- eu realmente não estou entendendo mais nada
- pois é, homens, todos iguais, nunca entendem nada, depois nós é que somos complicadas
- olha aqui pra mim, pára de chorar, por favor, vai
- tá tudo bem, vou ficar bem
- eu não quis dizer aquilo que... que disse
- me leva pra casa?
- mas...
- eu sabia que você seria dor de cabeça na certa
- tô quieto
- você tem chocolate aí?
- chocolate???
- é, cacau, açúcar...
- eu tô aqui falando sério e você com esse papo de doce?
- ai ai ai, vamos embora, vai
- ...
- vamos, cafa
- hmm...
- esse seu olhar me mata, menino
- esquece o certo e o errado, vamos aproveitar enquanto existe vida
- dramático
- sou
- xavequeiro
- sou
- charmoso
- sou?
- tentador
- sou?
- ai ai
- quê?
- vamos, meu caetaninho, vamos
- pra onde?
- demorou...
- hmmm
- é, caê, menino abusado, vamos
- pois não, madame di caprio, e vamos pra minha ou pra sua casa?
- melhor pra sua, né... se formos pra minha acho que meu marido não vai gostar

Nelson Botter Jr. é cronista do Blônicas.

Escrito por Blônicas . às 16h35
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Com o pão debaixo do braço.

De Xico Sá.

É tanta onda com essa tal de “crise do macho” -mote de peças, colóquio chique e cafés filosóficos em São Paulo- que este anacrônico que vos bafeja o cangote resolveu lembrar algumas atitudes e costumes capazes de reorientar esta criatura que se julga perdida no milharal da existência.

Nada devolve mais a macheza perdida como retornar para casa no começo da noite com aquele clássico pacote de pães debaixo do braço. É nessa hora que um homem se faz homem de verdade e consolida a admiração da cria da sua costela, dos rebentos, da mulher do vizinho etc.

Essa dica é o consenso da Chapada do Araripe, reserva de pterossauros e berço dos varões da família deste cronista.

Não importa se é a patroa a nova provedora do lar. Deixe ela, toda poderosa e orgulhosa da nova posição social, pagar a escola das crianças, completar o tanque do carro, encher a geladeira, abastecer a despensa e até saldar aquele “pindura” no botequim da esquina.

Nada disso envergonha um macho.

Só não abra mão do direito sagrado dos homens de boa vontade: voltar para casa no começo da noite com o dito saco de pães debaixo do braço.

Limpe, amigo, na boa o cocô-abacate do pimpolho, chore com a cebola cortada, desenvolva os dotes culinários e de corte e costura, passe a cera no piso, dê o brilho, rale a barriga no tanque, rale.

Pouco importa se é ela quem manda mesmo, pouco importa se só lhe resta, tempos modernos, dizer “sim, minha senhora”, “xô, galinha” e “pra dentro, menino”.

Só não deixe escapar, amigo, a oportunidade do eterno retorno com o pão nosso de cada dia a caminho do lar doce lar. Não, amigo, não deixe essa responsabilidade com a empregada, a funcionária, não é a mesma coisa. Toma tenência, se liga na simbologia do universo.

Pouco importa se a digníssima, toda executiva, toda trabalhada no azul do seu tailleur, já passou com o carrão na boutique de pães –é assim que chama a gente de bem- e trouxe baguetes e ciabatas para o jantar.

Ainda assim, não se deixe impressionar pela modernidade e submissão. É importante a imagem pública e o cumprimento do protocolo caseiro. Mesmo que esteja aposentado, finja que precisa ir às ruas e volte com o embrulho debaixo do sovaco. É um ritual espartano, é a prerrogativa zero zero um de um homem que honra suas calças.

Falar em calças, amigo, mesmo que já não tenha mais tanta utilidade assim debaixo daquele teto –até para apertar as costas, ela tem um japonês profissa!- evite o processo de pijamização. Um homem o dia inteiro em pijamas perde de vez o respeito. Fuja também dos moletons, vista-se com a decência do velho tergal vincado de sempre, fale alto nas esquinas, compre boiadas, lembre histórias da fazenda imaginária em Goiás ou Minas, movimente fortunas, mas reserve sempre umas patacas, umas moedas, para uma meia dúzia de pães a caminho de casa.

Xico Sá é cronista do Blônicas.

Escrito por Blônicas . às 14h24
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Memória básica.

De Cléo Araújo.

Era viciada em ser sexy.
O mais obviamente sexy possível.
Tinha conjuntos de lingerie matadores: um cor de pérola, um verde mato e um vermelho cereja. Tinha um tamanquinho de salto com plumas rosas, também, cara de puta chique. Só usava em datas especiais, assim como o corpete preto estilo dançarina do Moulin Rouge. Maior xodó. Seu sonho, aliás, era colocar um trapézio no meio do quarto para se fingir de Satine.
Tudo para ele.
Ela tomou aulas de dança do ventre.
Frequentou uma academia de flamenco. Pediu até para uma amiga que ia de férias para Espanha lhe trazer um par de castanholas.
Aí fez um curso de streap-tease on line. Estudou tango. Charlestone. Lap-dance. Poli-dance.
Tudo, tudinho para ele.
Ele?
Gostava, né. Se sentia todo especial quando ela armava uma produção dessas. E de surpresa, ainda, nossa, loucura total! Mas, mesmo cuidando para não parecer desfeita, ficava esperando que tudo chegasse ao fim para poder se enrolar com ela num cobertor, de onde pretendia não sair até a manhã seguinte.
Fato é que ela nunca prestou muita atenção no que ele achava. Vício é vício e o dela era ser sexy. Tanto que quando ele vinha, ela escondia, no fundo do guarda-roupa, a manta velha e cheia de bolinhas que atrapalhava a sua performance. E não é que mesmo assim ele a encontrava? E os dois acabavam sempre enrolados nela, maculando a cama de lençóis de seda perfumados que ela tinha selecionado especialmente para aquela noite de prazer.
Um dia, apesar de todas as plumas, de todas as transparências, de todas as rendas e cetins; apesar da música árabe e da produção com cara de mil e uma noites; apesar do arranjo da melodia japonesa e do seu belíssimo quimono de gueixa naquela noite regada a sakê; apesar do livro do Kamasutra na cabeceira, dos óleos, das massagens eróticas, das ostras e dos morangos com champanhe... Um dia, o relacionamento acabou. E foi num dia qualquer, sem produção nenhuma, na padaria, em frente a um pão na chapa e a um pingado.
Então ela maldisse todas as quinquilharias étnicas do seu guarda-roupa, todas as apostilas xerocopiadas dos cursos de sexo tântrico, todas as receitas de poções afrodisíacas e todos os endereços das melhores lojas de lingerie de São Paulo. Não precisava mais daquilo, daquele maço de canela em pau que não servia nem pra quentão, daquelas pétalas de rosas ressecadas que de bálsamo para banhos excitantes só serviriam pra juntar mofo, daquela porcaria daqueles conjuntos matadores que ela não usaria com mais ninguém, nunca mais, porque então ela odiava todos os homens do planeta.
Vestia suas calcinhas de algodão, sua camisola de flanela, sua pantufa do Garfield, tomava uma canja de galinha para levantar o espírito e se enrolava no cobertor velho. Era assim que ela pretendia viver sem ele: de pijama. E lá ela ficaria até o mundo acabar. Estava cansada, muito cansada de ter sido tão sexy à toa.
Ele, depois de um tempo, já não se recordava muito bem daquelas noites customizadas nas quais ela se transformava numa criatura quase inventada. Ele se esqueceu da gueixa e mal se lembrava do dia dos namorados ao lado da “odalisca”.
Se lembrava, sim, daquelas poucas coisas deliciosamente imperfeitas sobre ela. Do nariz vermelho quando a rinite atacava - e ela espirrava dezessete vezes seguidas. Daquela madrugada fria, quando ele chegou de viagem e ela abriu a porta do apartamento com uma camiseta da “Hard Rock – Orlando” que deveria ter no mínimo dezesseis anos, das meias de lã alaranjada de elástico frouxo e de uma calcinha de algodão cor de rosa que ela só usava “naqueles dias” – durante os quais, aliás, ele não era bem-vindo. Ah, e o cheiro do xampu no seu cabelo ainda úmido? Ela escovando os dentes. Ela com soluço. Ela fazendo uma baliza. Ela varrendo um copo quebrado. Era dessas coisas prosaicas que sua memória se alimentava. Era uma memória nua, do tipo que ele gostaria de poder enrolar num cobertor.
Não era uma memória de seda, nem de cetim, nem de plumas, nem de véus.
Era uma memória básica, de algodão. Tão simples e tão sincera quanto uma Hering velha que ele havia deixado para sempre em uma gaveta na casa dela.
Gaveta, aliás, onde ela guardava seus conjuntos de lingerie.
Aqueles matadores, perfeitos e esquecíveis.

Cléo Araújo é cronista do Blônicas.

Escrito por Blônicas . às 15h00
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Barbie blogueira.

De Tati Bernardi.

O William Carlos Williams tem uma poesia sobre nojo de homem, sabia? Sei, sei. É tipo eu chamar Tati Bernardi Tatis? Minha filha, é um poeta maravilhoso. Eu não gosto de poesia. Vou pegar uma coisa aqui que você vai gostar, calma ai. Perai que vou pegar um banquinho, tá lá em cimão. Eita, sua cueca é marinha? É marinho. Ahhh. Achei! Olha só. Kaváfis! Oi? Tá, tudo bem, fica conhecendo agora, sem problemas, vou ler pra você: “ohh macedônios…”. Pode parar! Tem certeza? Absoluta, tô fora de qualquer coisa que comece com “ohhh macedônios…”. Você é chatinha heim, Chatiane? Eu, né? Não é o “cagaris” que é chato não. Sou eu! Tá, mais uma tentativa! Roberto Piva. Ah, desse eu gosto. Confessa, ce nem sabe quem é. É, acho que não. Ó qui ó: “arcanjos de enxofre bombardeiam o horizonte através? dos meus sonhos”. Ufa! Beeem melhor… tem algo doce? O vinho me deu hipoglicemia. Tem bis velho na geladeira, quer? Tô me sentindo louca, que tem aí pra louca? Tem Lesley Chamberlain, conhece? Nietzsche chorou no cavalo, ficou louco. Ah, sei, o best seller que ele chorou e tal? Não, filhota, não! Me vê o bis velho? Tem cartas a Theo, tem Quixote. Ah, sei, você é o tipinho que chama gente famosa e morta de apelido como se ele fosse o cara que troca lâmpadas pra você? “Ô Quixotêê, não vai enfiar a faca, heim?”. Tó o bis. Valeu. Sabia que eu escrevo pra TV? Vou escrever um lance aí de quadrinhos. Quadrinhos!? Boa! Boa! Conhece Ralph Steadman? O cara ilustrou Freud, acredita?! Tá velho mesmo esse bis. E “Maus”? O do holocausto, o do Pulitzer… sabe? Hmmm. Art Spiegelman? Hmmmm….não, não sei não. Guido Crepax é lindo, ó. Você é a minha Valentina. Ah, valeu, ela tem peitões. Eu já tive um dia, antes da anfetamina natural do meu sangue ansioso matar enjaulado os meus estrógenos. Ol ha! Você também é poeta! Meio poesia de folder ginecológico mas já é alguma coisa. Bem mais atual que macedônios, pensa bem. É, mais atual eu não posso negar. Bonita essa música, que quer dizer isso? Quer dizer “te amo e também não”, é Sergie Gainsbourg, conhece? O cara da música universal da trepada? É. Ufa! Conheço! É, digamos que você não conheça exatamente, mas tudo bem. Você é pseudo-comunista? Não, por quê? Porque todo cara louco por mim que fica com pé atrás porque me acha chata é o típico leitorzinho de livro comunista que trata garçom como lacaio... já aconteceu 99 vezes! Isso me lembrou o Raymond Queneau. Responde, você é comunista? Não, se eu fosse esse tipo, não amaria sobre todas as coisas o “Viagem ao fim da Noite”. Sei. Céline fazia panfletos anti-semitas, mas escrevia sobre o tédio da vida como ninguém. Sei. Ce tá tirando sarro da minha cara? Não, eu tô tirando sarro da minha cara, to me sentindo uma imbecil. NÍ o sei porra nenhuma de nada. Tô me achando uma bonequinha na sua mão. É, você é a minha Barbie blogueira. Sou? É. Sabe o que é mais legal de tudo? O quê? Se eu gostasse de você, me mataria agora, mas como não gosto, me dá mais um bis velho e aumenta a música.

Tati Bernardi é cronista do Blônicas.

Escrito por Blônicas . às 12h22
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Terapia.

De Carlos Castelo.


- E então, Alexandra, como foi da última sessão para cá? Quer dizer algo?

- Foi bem curioso.

- Curioso?

- É que nunca tinha me acontecido isso. E acho que você sabe…

- …sabe o quê?

- Que eu não sou uma vaca.

- Hum, hum.

- Quando terminei com o Norberto, falei na última sessão que terminei com o Norberto, não falei?

- Falou.

- É, terminei com ele e, uns dias depois, fui pro Rio.

- Me recordo de você ter tido que ia viajar.

- Fiquei lá quietinha, trabalhando que nem uma maluca na filial carioca. Do escritório pro hotel, do hotel pro escritório. Só que na volta, quando tomei o táxi em Congonhas, já fui pegando o celular e mandando torpedos, torpedos, torpedos. Pra todos os caras que trombei na vida. Uma loucura.

- Por que loucura?

- Rolou uma coisa que eu tinha que dar pra alguém. E tinha que ser meio imediato, entende? Não sei direito o porquê.

- Hum, hum.

- Dar, estou dizendo DAR, Giorgio. Trepar, foder, percebe?

- Sim.

- Não faz essa cara, por favor? Parece que eu digo isso e é como se estivesse falando que vou comprar chicletes na padaria.

- O que pensa disso?

- Não pensei em nada, Giorgio, simplesmente agi. O cara do táxi era um senhor, mas bem cuidado, sem barriga, odeio homem barrigudo. Cruzei as pernas no banco de trás e fiquei mostrando a calcinha pro espelho dele. Se a minha ideia era dar, trepar, foder, por que não fazer isso com aquele ali? Nunca dei pra taxista.

- E aconteceu?

- Esse é o problema. Não aconteceu. O tiozinho me ignorou. Ele dava mais atenção ao GPS no párabrisa daquela merda de Corsa do que nas minhas coxas, na minha calcinha branca da Victoria Secret. Mas você me conhece, não sou de desistir. Fui pra meu apartamento, chorei, chorei, chorei. Depois tomei um banho ainda chorando, uma vodiquinha, me perfumei, botei minissaia e decote pra ir à luta.

- A ideia de fazer sexo imediatamente ainda persistia, Alexandra?

- De fazer sexo não, Giorgio. De dar, de trepar, de foder!

- Sim.

- Bom, liguei pra um restaurante japonês e pedi um sushi. O motoboy do restaurante subiu. Quando entrou na minha sala, me pegou sem a parte de cima da blusa.

- Hum, hum.

- Caprichei na cara de tarada praquele rapazinho espinhento, sujo de graxa, lindo.

- E conseguiu seu intento dessa vez?

- Não.

- Por quê?

- O menino era um cagão, Giorgio. Jogou o sushi de qualquer jeito em cima de uma mesinha de apoio belle-époque que tenho e desceu correndo escada abaixo…

- Entendo.

- Não, você não entende, Giorgio. Uma mulher jovem, bem sucedida, bonita, cheirosa querendo dar pra qualquer um e ninguém quer pegar?

- E depois?

- Bom, chorei, chorei, chorei e fui em frente. Liguei pra um colega meu, diretor de arte da agência de propaganda que apresenta as campanhas pra nossa empresa.

- Sim.

- Putz, foi a melhor imitação da voz da Carla Bruni que fiz, cara. Se o dono de uma empresa de tele-sexo me ouvisse contratava na hora. Marquei com ele à noite num barzinho da Vila Madalena.

- Compreendo.

- É, você compreendeu, mas ele não sacou nada. Nada. Tomamos vinho espanhol, comemos uns tapas e, lá pelas tantas, pedi para irmos embora. Só que ele não dizia nada. Aí tomei a iniciativa. Convidei o bonitão pra ir à minha casa.

- E ele foi?

- Foi e brochou.

- Sim?

- Sim, a brochada mais sensacional do universo.

- Sensacional?

- O sujeito não só brochou como teve uma queda violenta de pressão. Acabei a noite com ele num pronto-socorro cardiológico.

- E o que você tirou disso?

- Tirei que um pronto-socorro é um ótimo lugar pra se encontrar homem interessante. Enquanto o atendiam, fiquei conversando com um motorista de ambulância. Um cara meio índio, caladão, rude, mas intrigante, sabe?

- E então?

- Fui direta com ele, com pessoas menos sofisticadas é possível ser assim, você sabe. Olhei no fundo dos olhos do bad boy e disse: “olha, querido, eu percebi que você estava olhando pra minha bunda - e aí, quer me comer ou não quer?” A princípio, ele desconfiou. Mas, diante da minha certeza, topou ir comigo a um quarto de enfermaria.

- Satisfez, portanto, a sua pulsão, imagino.

- O caralho, Giorgio, o caralho! Bem na hora que a gente se pegou, tocou o Nextel do índio. Tinham atropelado uma velha na Nove de Julho e ele precisava correr pra lá de sirene ligada…

- Compreendo, Alexandra. E o que pensa fazer a partir dessa experiência?

- …

- O que pensa fazer?

- …

- Alexandra, pára de me olhar desse jeito!

Carlos Castelo é cronista do Blônicas.

Escrito por Blônicas . às 10h40
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Concreto armado.

De Bianca Rosolem.

Era hora. Olhei o relógio e vi o sol descendo lento como os ponteiros. Parecia não acabar. Apenas parecia. Encostei as costas na parede e olhei as vigas da construção. Tudo aconteceu naquele local sem vontade e sem teto. Só a estrutura pouco acabada. Alguns diziam que seria um novo galpão, talvez alguma fábrica grande de outro país que traria empregos e coisas da televisão. E depois dele, talvez, grandes prédios desafiariam o alto do céu e o horizonte. E as ruas sairiam em estradas com placas grandes de dizeres e lugares de ir.
Mas, longe dos contos de fadas e, sim, periféricos do que era mundo, claro que isso não se realizou. A adolescência acontecia enquanto nossos sonhos apodreciam junto das fundações.
 
Ao menos, éramos pobres iguais. Se é que isso é bom. O que tínhamos era como de todos, assim como a fome e a insatisfação inconscientes. Sabíamos de alguma maneira que algo não acontecia. Éramos trabalhadores de um relógio fora do tempo. E quando ficava muito pior, quando a vontade de gritar transcendia toda a bondade da vida, nos reuníamos nos escombros do sonho maior e fabulávamos um mundo novo. Chamávamos o lugar de “Nave”, nome colocado por Jeremias quando ainda éramos crianças. Lá passávamos as tardes, e depois as noites, fabulando. Entre o entulho e as poças d´água cheias de insetos, criávamos possibilidades incríveis. Imagens de movimento, liberdade e milhas sem fim.
 
E Jeremias era diferente. E era dentro. Bem interno e no olhar. Ele sempre comandava. Mas era sem impor. Quando percebíamos, ele já coordenava e dava as diretrizes da brincadeira. Sempre sutil, ele falava de um jeito calmo e apaziguava os ânimos exaltados. Se alguma briga saía, lá ia Jeremias para resolver. E logo após sua intervenção, abraços selavam a inimizade momentânea. Assim, ele nos mantinha unidos, todas as tardes.
 
E conforme crescíamos, as tardes esticavam até muitas estrelas encherem o céu. E foi numa dessas noites avançadas que Jeremias não me deixou voltar para acordarmos diferentes. A nossa cumplicidade infantil cresceu e virou uma vontade de ficar perto sem fim. E aos poucos o respeito virou admiração, e eu soube tempos depois que isso só poderia ser o melhor amor. Mas era bonito e estranho muitas vezes. Jeremias aparecia cada dia mais esfuziante, e seus olhos claros faiscavam centelhas inconformadas. Ele dizia muitas coisas sobre outros lugares, sobre oportunidades reais. E aquilo o consumia em uma febre inquieta e por vezes agressiva.
 
Nessa época, a mãe de Jeremias batia com freqüência a mão aflita na porta de minha casa o procurando. Ele sumia algumas noites, se escondia na Nave. Lá ficava tomando pinga roubada e olhando a noite. Tocava gaita e imaginava até onde o som poderia ir. Eu sempre lá o encontrava, até discutia um pouco sobre essa rebeldia. Mas ele cativava minha impostura e dizia coisas sobre o mundo e sua vastidão. Assim eu dormia, dentro das ondas de sua imaginação. Por muitas vezes sentia-me carregar pela frescura da noite até esses lugares que ele profetizava. Mas era algo de medo também. Um receio sem explicar e entender. E ele nunca dormia, era a febre que o fazia não parar jamais de invencionar a vida.
 
Todos nossos amigos lá sempre apareciam, e no lusco-fusco ouviam Jeremias, muitos ressabiados e outros admirados. Mas era unânime entender que o grande amigo estava doente. Quando isso me diziam “Ana Luz, você precisa alertar Jeremias, isso pode ser doença dos nervos” eu relutava como fera. Era além do amor. Eu entendia estranhamente seu descomportamento. Eu continha essa porção escura e temida, porém ela não me consumia como a ele.
 
E foi quando o pai de Jeremias adoeceu. Foi uma época difícil demais. Ele sofria e sua rebeldia tomou proporções assustadoras. Seus discursos inflamavam, seus olhos não encontravam repouso. Bebia muito, e chegou a gritar comigo. Sentiu muito depois. Mas não chorou uma lágrima. Viu sua mãe perdida, seus irmãos mais novos o olharem depositando expectativa sobre seus ombros. Mas isso não fazia parte de seus planos, nem de seu destino.
 
Eu que o amava, de mulher, jamais pedi para que ele ficasse comigo. Eu sabia que um dia ele desapareceria para viver. Qualquer grilhão naquela cidade adormecida e condenada o mataria na alma. Ele queria crescer o olhar pelos prédios enormes das grandes cidades. Ele queria sentir nas mãos a magia que permitiu o mundo crescer sem tanto espaço ocupar. Ele dizia sempre que lera em algum lugar – ele lia demais – que o concreto armado era a grande invenção da engenharia que permitiu ao homem transformar o ambiente e se urbanizar. Ele acreditava em toda essa evolução.
 
Durante um ano sua família sofreu o pai enfermo. A doença secava a carne e ele era a imagem da fragilidade. Todo de ossos, pequenino sobre a cama. Sempre a mãe chorando, os filhos com medo e Jeremias em casa não ficava. Praticamente morava na Nave, e desenhava o que não haviam acabado. Um dia me mostrou eufórico a Nave completa, como ele acreditava que ela seria se a boa vontade de Deus olhasse por nossa cidade. Era bonito sim. Ele estava feliz e triste em algum lugar que tentava esconder. E eu sentia que todos os dias ele me fazia mais feliz como se fosse despedida. Eu por muitas vezes chorei olhando o dia amanhecer. Mas não era triste.
 
E chorava agora, enquanto a brisa morna crescia do chão e levantava a saia do meu vestido. Era quase noite e eu o esperava e já sabia. Sem saber o que dizer, eu ensaiava tantas palavras. Mas tudo parecia errado. Eu senti seus passos atrás de mim. Olhei-o todo de preto e vi que ele era um homem. Bonito e não era daqui. Nem meu. Chorei mais e o abracei. Não o confortei. Foi ele quem ajeitou minha cabeça no peito. Naquela hora eu entendi, toda a criança até aqui. Ele sempre estivera preparado, estranhamente. Era o destino dele mesmo, agora eu acreditava. Ele enterrou o pai durante a tarde e não chorou. Estava triste, mas sem desespero. Ele sabia para onde seguir. E eu também.
 
- Ana, pegou suas coisas?
 
- Eu não peguei. Nada. Fiquei aqui, pensei em dizer tanta coisa. Mas parece que nós já havíamos ensaiado isso em outro lugar.
 
- Ana... .
 
- Eu não vou. Não é hora de ir. É hora do destino. E você vai, e eu fico. Aqui. Vejo crianças crescendo, o mato irá medrar e esconder este nosso sonho. Mas eu vou ficar e cuidar das memórias de nossas esperanças.
 
 - Eu não posso... Ir... .
 
- Você já foi Jeremias. Você construiu essa nave ainda criança.
 
- Mas, e seus sonhos, Ana! Você nunca teve medo de mim Ana Luz, sempre você foi parte também.
 
- Mas eu não sei se é outro esse mundo todo se eu vou comigo. Vou ficar.
 
- Ana... .
 
E nada mais poderia ser dito. E tudo foi apenas despedido, e ele tomou caminho na estrada de terra. Nunca soubemos se ele chegou.

Bianca Rosolem é cronista do Blônicas.

Escrito por Blônicas . às 10h34
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