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Por que você não gosta de mim?
De Tati Bernardi. Esses dias me ligou um cara. Ele parece o Clive Owen, leu todos os livros do universo, é crítico de música, já foi crítico de cinema, é cantor nas horas vagas (compõe letras divertidas e canta com aquele vozeirão danado de bom) mora numa casa absurdamente charmosa, escreve e fala como especialista sobre tudo e qualquer coisa, ama crianças e, apesar de já ter idade pra ser meu tio, tem um desempenho invejável pra andar de triciclo. Aí ele me liga e faz a fatídica pergunta que todas as mulheres bacanas já sonharam em fazer um dia para seus machos desistentes: “por que você não gosta de mim?”. Diante de tamanha coragem (coragem, inclusive, de agir como mulher), procurei dar a ele a resposta mais honesta, profunda e clara que pudesse existir dentro de mim. Respirei fundo e deixei a verdade sair. E foi então que me ouvi dizendo: “porque não!’ A partir desse dia, perdoei todas as pessoas que partiram deixando pra trás essa mulher incrivelmente foda (eu!) e gata e talentosa e com invejável desempenho pra andar de triciclo. Mau gosto acontece com todo mundo. Tati Bernardi é cronista do Blônicas. O maior passo da humanidade.
De Xico Sá. Nascimento do Passo, gênio das 70 e tantas mungangas do frevo, que me desculpe; os velhos e bons b-boys, idem ibidem; os mestre dos baques solto e virado que me perdoem; Elvis, pomba-gira da pele branca, negocie; Fred Astaire, qualé, não se revire no desenho pontilhado dos seus respeitáveis sete palmos; funkadeliks forever, Chicago e Belém com as suas aparelhagens, samba, samba, samba, candomblé, os deuses que dançam, a todos o meu respeito e o sangue sem mertiolate dos meus joelhos... Mas, na boa, o maior passo da humanidade se deu quando o primeiro negro pisou na lua: salve Michael Jackson, um, dois, espírito a três passos do chão, me encoxe, wanna take you on a moonwalk... Ele vai pagar a vida inteira por ter sido maior que Armstrong e sua gangue, por ter fincado a bandeira da sua tara acima de todos os musicais de todas as tendências... Wanna take you on a magic carpet ride… Salve os bois bumbás, os tchans, o samba duro, as lias de itamaracás, a ciência sob o calçamento do mangue, a fulerage, a macumba da japonega, mas, peraí, ninguém levitou tão bonito quanto esse rapaz! Forever my love, you'll be mine. A lua, esse conhaque, o passo da humanidade, comovido com alma perra e carapuça de jabá-pop à vera. Eu sei, ele perdeu o nariz original como o carinha do barbeiro de Gogol, mas pouco importa, nao o diminui como o primeiro negro a pisar a areia movediça da lua. A América nunca vai perdoar o seu primeiro negro mais leve que as folhas das folhas da relva, coitada d´América... Ninguém, nem o mais mungangueiro dos artistas populares, nem os comedores de vidros, ninguém sob a lona do nosso Soleil, ninguém no farol, ninguém no sinal... Nunca houve um passo tão lindo, ajoelhe e reze sr. Balé clássico, bata palmas, morra de inveja, gaste a arrogância das sapatilhas... Nunca houve um passo como moonwalk, nunca houve mais linda invasão à lua dos doidos varridos, Michael Jackson nunca caiu nesse agá minúsculo, pra enganar moça, ora direis, de pisar nos astros distraído. Ele andou palmos acima, seu mar vermelho, tábuas sagradas, Moisés da hora, por entre as nuvens do auto-engano, por entre os dez mandamentos, a terra é azul.... e ele, marcha à ré, se move. Estátua! Stop. Parou ele ou parou o pop? Xico Sá é cronista do Blônicas. Nomes impróprios.
De Giovana Madalosso. Tenho apreço por nomes. Deve ser de família. Minha mãe se preocupa tanto com isso que, quando minha irmã nasceu, não conseguiu decidir entre os nomes pré-selecionados. Queria sentir qual deles combinava mais com a personalidade da menina, na ocasião um joelho que só se expressava através do choro. Durante quase seis meses, fomos obrigados a chamá-la, alternadamente, de Isadora, Chiara e Bruna, gerando tamanha confusão mental no bebê que até nosso gato, quando chamado, atendia com mais prontidão. Ainda que tenha achado a experiência exagerada, entendo a sua motivação. Nomes têm o poder de influir no destino do nomeado. E não digo isso com base na onomástica ou na cabala, mas em outra escola tão poderosa quanto: o mau gosto. Ouvi falar de um pai que queria registrar o filho como Rambo. O funcionário do cartório tentou dissuadi-lo, dizendo que Rambo não era um nome propriamente dito. Depois de muita conversa, chegaram num consenso e o filho foi registrado como Sylvester Stallone. Escapou de ser título de filme, mas continuou carregando nas costas um peso pesado. Imagino o primeiro dia de aula do garoto. Sylvester Stallone!, a professora deve ter chamado, e todos viraram para trás, esperando uma imensa massa de músculos e, ao verem um menino franzino, ainda cheirando a fraldas, devem ter caído na gargalhada, dando início a uma sucessão de constrangimentos que devem tê-lo acompanhado por toda a sua vida. É inegável: nomes compõem uma imagem. Os artistas têm tanta consciência disso que sempre apelaram sem culpa para os pseudônimos. Sabe quem foi Agenor de Miranda Araújo Neto? O Cazuza. Dá para imaginar os fãs gritando “Agenor! Agenor! Agenor!”? Era capaz de os mais desavisados nem comprarem o disco, achando se tratar de um cantor de pagode. Se Xuxa não tivesse adotado outro nome, seu programa se chamaria Show da Maria da Graça, interessante só para os baixinhos evangélicos, e olha lá. E o que dizer de Malba Tahan? Esse escolheu um pseudônimo tão persuasivo que eu passei a infância inteira achando que lia um escritor árabe, quando na verdade lia o brazuca – e muito esperto ¬– Júlio César de Melo e Sousa. Na literatura os nomes também têm um papel relevante, já que servem de ferramenta para definir o personagem. Nesse caso, a personalidade nasce antes e o nome vem como uma extensão dela, atingindo um grau de coerência raro no mundo dos mortais. Capitu consegue condensar, em seis letras, toda a aura de mistério e sedução da personagem. Uma Terezinha de olhar oblíquo e dissimulado não fascinaria tantos os leitores. Lewis Carrol acertou chamando sua personagem de Alice. Fosse Cassandra no País das Maravilhas e o público pensaria se tratar das aventuras de uma garota pervertida com um coelho ninfomaníaco. Seja na ficção ou na realidade, há, por trás de cada nome, a projeção de um desejo. Todos querem promover socialmente o seu rebento, muitas vezes lançando mão de firulas indizíveis para atingir esse objetivo. As classes mais baixas apelam para o status do inglês, dando origem a Maycons, Uóchingtons, Gecicas e outras pérolas que, ironicamente, nem os anglo-saxões conhecem. Já a classe média – sempre cansada de ser mediana – tenta elevar o filho apostando em nomes aristocráticos ou na grandiosidade dos sufixos: “Cassio é simples demais. Vamos pôr Cassius. Ou, melhor ainda, Cassius Frabricius”. Com as classes mais altas, o ciclo se inverte. Esses buscam a simplicidade. Não porque não queiram provar nada para ninguém – no fundo, todo mundo quer –, mas porque o que querem provar é justamente que estão acima das aspirações sociais e, portanto, podem se dar ao luxo do despojamento impresso em Claras, Pedros e Marias. Num mundo de anseios tão diversos, o resultado é uma sociedade formada por RGs que vão de Jesus Krystos a Darkison Wilsons. O que, no final das contas, não é de todo mau, pois faz com que uma pergunta tão banal quanto “qual o seu nome?” seja o começo de uma conversa, no mínimo, divertida. Giovana Madalosso é cronista do Blônicas. 10 perguntas de ouro que se deve fazer antes de sair com alguém.
De Carlos Castelo. 1) Ronca? 2) Algum problema de flatulência? Em caso positivo, qual? 3) Algum parente próximo já sofreu crise de catatonia, esquizofrênia ou tem hálito desagradável? 4) Gosta de comer algo repugnante, do tipo buchada de carneiro, miolo, Quarteirão com Queijo ou jiló? 5) Come de boca aberta? 6) Usa drogas ou álcool? Recreativamente? Em caso negativo, já teve oportunidade de ver jacarés andando pela parede? 7) Emite sons desagradáveis durante a relação sexual? De que tipo? Animalescos, guturais, eletrônicos? 8) Professa alguma religião xiita, tipo “Sara Minha Terra”? 9) A personalidade de minha futura sogra se encaixa em qual destas categorias: raivosa, competitiva, neurótica, histriônica, onipotente, superprotetora, castradora. 10) O HIV está em dia? Carlos Castelo é cronista do Blônicas. Mulher tentáculos.
De Ana Reber. Adoro sala de espera de consultório médico. Fico torcendo para que demore um tempinho a ser chamada, que assim dá para folhear algumas publicações antigas. Porque consultório médico que se presta, só tem revista velha. Pois bem, passeando em pleno mês de junho por anúncios de Dia dos Pais, Namorados, Páscoa e etceteras do calendário de lojistas, acabei dando de cara com um reclame de Dia das Mães. Reclame aliás é a palavra ideal, já que é exatamente o que eu pretendo fazer daqui para frente. Vou descrever a imagem impagável que eu vi no dito reclame: em frente ao shopping, uma mulher linda, vestida num tailleurzinho cinza, com uma mão fala ao celular, enquanto segura com a outra mão quinze sacolas de compras e ah, quase esqueço: carrega um bebê no colo. Imaginaram a cena? Pois é, só de olhar já me deu uma canseira danada. Me fiz então duas perguntas: 1- como a modelo ainda teve a pachorra de sorrir?? 2- É essa a imagem da mulher moderna? Uma louca que faz tudo ao mesmo tempo? Juro para você que se uma mulher assim existe mesmo, ela corre um risco sério de no meio de uma ligação de negócios, enfiar o bebê na sacola e dizer para vendedora que não serviu. Quando chegam essas datas Dia das Mães, Dia das Mulheres, e os anúncios e comerciais de teve começam a pipocar, eu fico louca. Simplesmente odeio as homenagens às mulheres que são guerreiras e conseguem ser lindas, mães, ótimas profissionais, gostosas e campeãs de xadrez nas horas vagas. Onde estão elas? Me mostrem uma comunidade no Orkut, um blog e eu juro que sossego. Porque as mulheres, mães e profissionais que eu conheço, fizeram cocô pela última vez há uns três anos atrás. Não me levem a mal. Não faço votos para que sejamos feias, gordas, ou que não tenhamos mais filhos. Não desejo tampouco que a gente queime o sutiã com bojo, nem deixe de depilar o buço. Agora esse tanto de cobranças, para mim é demais. Porque estou achando que fazer tudo isso ao mesmo tempo é uma missão impossível até mesmo para a super mulher do anúncio. No fundo tive a impressao que por trás do sorriso, a modelo estava era com cara de angústia. E não a culpo. Será que ao invés de ficarem puxando nosso saco, dizendo que conseguimos fazer tudo ao mesmo tempo, não daria para dividir algumas tarefas conosco? Tenho certeza de que muitos já fazem isso, mas falta ainda um monte de machos aderindo a essa campanha. Quem sabe assim, a gente não consegue ser todas essas coisas, mas uma de cada vez? Porque nos anúncios de Dia dos Pais, não vejo essas cobranças. Os pais são coisas muito mais simples: amigos, heróis, companheiros...Será que no próximo Dia da Mulher ou das Mães, não daria para dar de presente um pouco de sossego? Quinze minutinhos para que a gente escolha o que quer ser pelo menos nesse intervalo de tempo? Porque para ser mãe, atleta, profissional, estar com a unhinha feita e a virilha depiladinha, precisaríamos de uns dez braços. Mulheres tentáculos. E sinceramente, nunca achei o polvo o animal mais charmoso do mundo. Ana Reber é cronista do Blônicas. Viajar é preciso.
De Cléo Araújo. Às vezes eu penso que quase poderia ser feliz só com essa sensação de véspera. Cléo Araújo é cronista do Blônicas. A mulher invisível.
De Silvio Pilau. Há pouco tempo, o diretor e roteirista Cláudio Torres confessou em entrevista que um dos erros cometidos em Redentor, seu trabalho de estreia, foi exatamente a ânsia de querer fazer vários filmes em um só. De fato, Redentor mesclava diversos gêneros e ideias em uma produção claramente ambiciosa, mas com resultado bastante irregular. Ainda assim, era possível perceber que Torres era um diretor com certa ousadia e originalidade, capaz de realizar filmes interessantes quando obtivesse alguma experiência. Assim, não deixa de ser decepcionante que este A Mulher Invisível seja uma obra tão convencional e repetitiva. Em seus primeiros trinta minutos, o filme sofre do mesmo mal de artificialismo, com os diálogos demorando a soar naturais e o filme levando algum tempo para “fisgar” o espectador. Para piorar, grande parte das piadas desse primeiro ato não funcionam, como a montagem com as mulheres que Pedro leva para a cama e as excessivas brincadeiras com o fato de Amanda não ser real (“Eu só existo com você!”). Felizmente, A Mulher Invisível se torna mais interessante quando o casal sai do apartamento e começa a interagir com as pessoas. São nesses momentos que a produção consegue arrancar algumas boas risadas, quando outros vêem o protagonista agindo sozinho. Estas cenas são o grande destaque e fazem do filme algo passível de se assistir. Ainda assim, Torres exagera na quantidade delas, e A Mulher Invisível acaba limitando seu alcance às gags visuais decorrentes de tal situação ao invés de buscar maior inteligência ou ironia do roteiro. Selton Mello se sai bem na comédia física – com ecos claros de Steve Martin em Um Espírito Baixou em Mim. Talentoso, Mello não está em seus melhores momentos no restante do filme, mas se destaca nas cenas em que deve agir sozinho, demonstrando mais uma vez ótimo timing cômico. Por outro lado, Luana Piovani nada faz além de parecer bonita – Torres, aliás, cria todos seus planos de forma a explorar corpo escultural da atriz. O ponto alto do elenco é, como sempre, Fernanda Torres, que mais uma vez comprova ser a melhor atriz de comédia do Brasil ao entregar com perfeição absoluta todas as suas falas. Porém, ainda que consiga gerar algumas risadas, A Mulher Invisível falha em termos narrativos. A história e os personagens jamais são desenvolvidos de maneira satisfatória, tornando-se meros instrumentos para as cenas físicas. Os romances, por exemplo, não convencem, com os personagens se apaixonando de maneira abrupta. Torres ainda erra quando, após Pedro descobrir que Amanda não existe, utiliza uma montagem com o personagem se dando conta de que fazia tudo sozinho. Essa cena teria algum impacto se a plateia não soubesse da condição do protagonista (vide Clube da Luta), mas acaba perdendo-o por isso não ser um segredo. Outra falha diz respeito ao fato de como Pedro vê Amanda. Em certos momentos, parece que ele apenas a enxerga, falando com alguém que não existe. No entanto, em uma cena dentro de casa, o personagem parece incorporá-la, pois pergunta e responde pelos dois. É uma incoerência do roteiro que demonstra, mais uma vez, como o grande objetivo do filme não é contar uma história, mas simplesmente fazer algumas piadas. Aliás, isso fica bem claro quando se percebe que Torres não sabe como encerrar sua obra, estendendo-se demais em diversos finais. Para uma comédia, A Mulher Invisível não chega a ser um desastre, pois oferece momentos divertidos e algumas boas risadas – ao menos, o suficiente para fazer o filme cair no gosto do público. Mas, infelizmente, é só. A mulher Invisível Silvio Pilau é cronista do Blônicas. Momento repescagem.
De Tati Bernardi. Em alguns momentos da vida, mais comumente quando começa o inverno, repensamos nossos “descartes” (não o pensador) pelo mundo afora. Tati Bernardi é cronista do Blônicas. Mitos que ninguém conhece (ou: essa mitologia pra mim é grega!)
De Edson Aran. Sosifudis e Acepipis. Bucéfalus e Tesuda. Autanálisis e Tália. Edson Aran é cronista do Blônicas. Do manual de civilidade destinado às meninas para uso nas escolas públicas e privadas.
De Xico Sá, com ajuda espírita, samples e a partir da herança de Pierre Louys, soprado ao escriba por lindas ninfomaníacas em flor. Não diga: "Minha buceta." Não diga: “Quero te dar o cuzinho”. Não diga: "Estou com vontade de foder." Não diga: "Acabo de gozar como uma louca." Não diga: “Ninguém me chupa como você”. Não diga: "Vou masturbar-me." Não diga: “Vamos foder”. Não diga: "Quando eu tiver pentelho no cu." Não diga: “Precisamos inovar as posições”. Não diga: "Eu prefiro a língua ao pau." “Não diga: “Não é nada disso que você está pensado”. Não diga: "Entre as refeições só bebo porra." Não diga: “Mete mais devagarzinho”. Não diga: "Tenho doze consolos em minha gaveta." Não diga: “Beije os meus pés”. Não diga: "Os romances honestos me chateiam." Não diga: "Quando se lhe mostra uma pica, ela se zanga." Não diga: "É uma menina que se masturba até quase morrer." Não diga: "É a maior puta da terra." Não diga: "Ela deixa-se enrabar por todos aqueles que a masturbam." Não diga: "Eu a vi ser fodida pelos dois buracos." Não diga: "Ele dá três sem tirar da buceta." Não diga: "Ele gozou em minha garganta e eu na dele." Não diga: "Seu pau é demasiado grosso para minha boca." Não diga: "Ele fode muito bem as menininhas, mas não sabe enrabá-las." Não diga: “Cadê o gel lubrificante”. Não diga: “Você é o homem da minha vida”. Não diga: “Vou chupar o seu pau”. *Do Catecismo de Devoções, Intimidades & Pornografias, ed.do Bispo. Xico Sá é cronista do Blônicas. Tanto clichê.
De Bianca Rosolem. Seu Messias estranhou a atitude dela naquele dia. Não que seu comportamento pudesse ser tomado por normal, mas existia uma constância nos atos excêntricos de sua funcionária. Porém, como já dito, o patrão ficou ensimesmado com os devaneios presentes no olhar que vira enquanto fechava o sebo junto dela naquela noite. Lúcia é uma senhora de meia idade que suspira a piedade do mundo. De início alguns clientes reclamaram da funcionária. Quando foi admitida, há 07 anos, a clientela sentiu-se incomodada por suas freqüentes lamúrias, olhares cabisbaixos e pedintes. Diziam que este comportamento lotado de autopiedade não compensava o incrível conhecimento literário que Lúcia possuía. Mas, Messias já estava compadecido por Lúcia. E seu coração, com aspirações nobres por um lugar no céu, concedeu a vaga a esta tão solitária senhora. Mas cabe falar que detalhe algum sobre sua vida era conhecido, sabia-se de sua solidão pela postura carente e amarga que carregava com os ombros curvados. E, como cabe a todo bom literato, tal segredo só se revela drasticamente ao final, entre choros convulsos e peitos arfantes. Sempre pontual, Lúcia chega às 8:30 da manhã e abre a loja. Moreno, o ajudante sorridente, a auxilia na tarefa de levantar a porta de ferro de correr. Ele por vezes presta atenção quando Lúcia levanta os braços e, neste momento, por conta da seqüência lógica de movimentos, é possível ver os joelhos da senhora com a subida da longa saia. “Nem são tão maus assim”, dizia, mais tarde, Moreno entre gargalhadas quando sentado no estoque separando as porcarias adquiridas: “Quanto livro velho! Como essa gente pode gostar?”. Sempre com alguma leitura nas mãos, Lúcia fica a um canto atrás do balcão. Os cabelos presos em um coque no alto da cabeça e os óculos que escorregam para a ponta do nariz delicado conferem um ar melancólico àquela senhora. Sempre que alguém adentra a loja ela levanta somente os olhos e, seu olhar sempre com algo triste para dizer, pousa sobre o cliente recém-chegado. Nesta exata cena, alguns dão meia-volta e desistem, outros encaram e entram corajosamente; e aqueles despreocupados apertam o passo em direção do interior da loja e acenam para ela sem olhar diretamente para sua cara. Independente de qual a situação ocorrida dessas mencionadas, Lúcia sempre suspira e se encolhe, resignada, ajeitando os óculos e enfiando-se o máximo possível nas linhas escritas que segura nas mãos. Alguns – raros - gostam de conversar com ela sobre livros, e ela o faz sem parecer se entusiasmar ou importar. Sua feição jamais adquire outra dor. Sempre desiludida, suspirando melancolia e comendo sonhos da padaria da esquina, em todos os anos de trabalho, Lúcia nada mudou, nem sequer os cabelos embranqueceram. Pois assim era sua funcionária que naquela noite, precisamente às 7:00 horas, corou ao se despedir. E nesse rubor, Seu Messias viu um brilho muito sutil em seus olhos. E quando Lúcia percebeu que algo demonstrara, deu um pequeno salto de susto deixando o livro que carregava escorregar e cair no ponto exato que a separava de Seu Messias. Os dois se olharam surpresos, e quando Messias fez gesto de abaixar, Lúcia pareceu arisca e ágil, rapidamente tomou o livro em sua posição apertada ao peito. Trêmula despediu-se e saiu andando rapidamente e desajeitada. Messias ficou parado, e cogitou se ela assim reagira por levar um livro. “Não, ela já faz isso há anos, e ambos sabemos desses pequenos empréstimos”, disse consigo mesmo, cheio de curiosidade. Sorriu, meneou com a cabeça e pensou porque a vida lhe rodeara de livros e pessoas esquisitas. Mas não encontrou nenhuma resposta. Lúcia desceu o Largo São Francisco em disparada, quase que fugida. Parou e encostou-se a um poste do caminho, respirou lentamente e fez a tontura passar. Sentiu o livro queimar em suas mãos. Estava toda de febre, seu corpo formigava, e sentia cócegas borboleteantes na boca do estômago. Pegou o ônibus no terminal Bandeira e permaneceu muda e quieta durante todo o trajeto, com o olhar disperso no movimento dos prédios, dos carros e das pessoas. Nada parecia em algum lugar parar ou a algum lugar chegar. A cidade brilhava luzes, e a vida que passava sempre tão despercebida a seus olhos fez-se reconhecida e parte. Naquele dia, sem que lhe desse trégua o burburinho enjoativo do estômago, deixou o olhar vagar e levá-la por além das pálpebras desiludidas. E viu o desenrolar engraçado do final do dia na a inquietude e no cansaço daqueles que para casa desejavam voltar. O quê poderia os esperar atrás das portas familiares era de se pensar ou da memória pouco lembrar. Pois, sem família por perto desde os 15 anos, Lúcia costumava deixava a chave sobre a mesinha da entrada após fechar a porta para sentar-se sozinha na mesa de jantar. Nunca ninguém a esperou, ou ela ansiou chegar por alguém. Mas, novamente o livro queimava em suas mãos. A face adquiria a vermelhidão daquele que leva brasas novas no coração. Entrou diferente e não deixou a bolsa e as chaves no lugar de sempre. Levou-os até o quarto, deixando apenas o livro sobre a mesa próxima da porta. E, assim, quando terminou o jantar de congelados, levantou-se calmamente, como se fizesse um mistério para si mesma e abriu a janela. O apartamento simples não trazia vista para alguma beleza, apenas via-se outras janelas tão vulgares quanto a sua. Mas, mesmo ciente disto, Lúcia deixou-se a olhar tudo aquilo e sentiu a temperatura mais leve àquela hora da noite de verão. Contrariando todos os seus dias já vividos, deixou a janela aberta. Pegou o livro que quase a denunciara, e seus lábios pensaram em sorrir de maneira travessa. Lembrou-se pouco criança e mais garota, loura e doce, que um dia foi, e sentou na poltrona. Abriu-o na primeira página e leu a dedicatória contida. “Lúcia, para vivermos um amor louco. E sem fim. Te amo. Carlos. Janeiro/1979”. Leu ainda algumas vezes mais aquelas palavras que mexiam em todo seu interior, e tomou consciência de tantas coisas que aconteciam em seu corpo. Talvez ela estivesse um pouco viva naquelas palavras que nem suas eram. “Mas, e se fossem, meu Deus?”, ela pensou um pouco alto, quase arrependida. E, se alguém pudesse amá-la e ser louco, e ser bom também? E se ela pudesse viver e sorrir às vezes quando alguém dissesse seu nome? Ela ainda imaginou como seria se ela fosse ela e ele fosse Carlos. E ele poderia esperá-la também na porta para saber abraçar e beijar bem de leve para a vizinha fofoqueira não reparar. Jantariam juntos e falariam do dia e da chuva forte que caía. Assistiriam o jornal da TV, e quando a noite fosse fria ele a abraçaria e aqueceria suas mãos geladas. Ele poderia até gostar de música e ouvi-las nos sábados à tarde, enquanto ela sentava e tricotava algum caminho de mesa novo. E no ônibus ela poderia pensar sobre ele, sobre a casa, e nas muitas coisas que as pessoas fazem juntas. E ele também seria esperto e ensinaria coisas que ela nunca ousara saber. Perdida em devaneios, com o corpo trêmulo por não estar acostumado a viver, Lúcia passou toda a noite sonhando como se fosse a primeira vez, e de olhos bem abertos também. Bianca Rosolem é cronista do Blônicas. |