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Por que você não gosta de mim?

De Tati Bernardi.

Esses dias me ligou um cara. Ele parece o Clive Owen, leu todos os livros do universo, é crítico de música, já foi crítico de cinema, é cantor nas horas vagas (compõe letras divertidas e canta com aquele vozeirão danado de bom) mora numa casa absurdamente charmosa, escreve e fala como especialista sobre tudo e qualquer coisa, ama crianças e, apesar de já ter idade pra ser meu tio, tem um desempenho invejável pra andar de triciclo.

Aí ele me liga e faz a fatídica pergunta que todas as mulheres bacanas já sonharam em fazer um dia para seus machos desistentes: “por que você não gosta de mim?”.

Diante de tamanha coragem (coragem, inclusive, de agir como mulher), procurei dar a ele a resposta mais honesta, profunda e clara que pudesse existir dentro de mim. Respirei fundo e deixei a verdade sair. E foi então que me ouvi dizendo: “porque não!’

A partir desse dia, perdoei todas as pessoas que partiram deixando pra trás essa mulher incrivelmente foda (eu!) e gata e talentosa e com invejável desempenho pra andar de triciclo.

Mau gosto acontece com todo mundo.

Tati Bernardi é cronista do Blônicas.

Escrito por Blônicas . às 14h47
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O maior passo da humanidade.

De Xico Sá.

Nascimento do Passo, gênio das 70 e tantas mungangas do frevo, que me desculpe; os velhos e bons b-boys, idem ibidem; os mestre dos baques solto e virado que me perdoem; Elvis, pomba-gira da pele branca, negocie; Fred Astaire, qualé, não se revire no desenho pontilhado dos seus respeitáveis sete palmos; funkadeliks forever, Chicago e Belém com as suas aparelhagens, samba, samba, samba, candomblé, os deuses que dançam, a todos o meu respeito e o sangue sem mertiolate dos meus joelhos...

Mas, na boa, o maior passo da humanidade se deu quando o primeiro negro pisou na lua: salve Michael Jackson, um, dois, espírito a três passos do chão, me encoxe, wanna take you on a moonwalk...

Ele vai pagar a vida inteira por ter sido maior que Armstrong e sua gangue, por ter fincado a bandeira da sua tara acima de todos os musicais de todas as tendências... Wanna take you on a magic carpet ride…

Salve os bois bumbás, os tchans, o samba duro, as lias de itamaracás, a ciência sob o calçamento do mangue, a fulerage, a macumba da japonega, mas, peraí, ninguém levitou tão bonito quanto esse rapaz!

Forever my love, you'll be mine. A lua, esse conhaque, o passo da humanidade, comovido com alma perra e carapuça de jabá-pop à vera.

Eu sei, ele perdeu o nariz original como o carinha do barbeiro de Gogol, mas pouco importa, nao o diminui como o primeiro negro a pisar a areia movediça da lua.

A América nunca vai perdoar o seu primeiro negro mais leve que as folhas das folhas da relva, coitada d´América...

Ninguém, nem o mais mungangueiro dos artistas populares, nem os comedores de vidros, ninguém sob a lona do nosso Soleil, ninguém no farol, ninguém no sinal... Nunca houve um passo tão lindo, ajoelhe e reze sr. Balé clássico, bata palmas, morra de inveja, gaste a arrogância das sapatilhas...

Nunca houve um passo como moonwalk, nunca houve mais linda invasão à lua dos doidos varridos, Michael Jackson nunca caiu nesse agá minúsculo, pra enganar moça, ora direis, de pisar nos astros distraído.

Ele andou palmos acima, seu mar vermelho, tábuas sagradas, Moisés da hora,  por entre as nuvens do auto-engano, por entre os dez mandamentos, a terra é azul.... e ele, marcha à ré, se move.

Estátua!

Stop.

Parou ele ou parou o pop?

Xico Sá é cronista do Blônicas.

Escrito por Blônicas . às 18h18
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Nomes impróprios.

De Giovana Madalosso.

Tenho apreço por nomes. Deve ser de família. Minha mãe se preocupa tanto com isso que, quando minha irmã nasceu, não conseguiu decidir entre os nomes pré-selecionados. Queria sentir qual deles combinava mais com a personalidade da menina, na ocasião um joelho que só se expressava através do choro. Durante quase seis meses, fomos obrigados a chamá-la, alternadamente, de Isadora, Chiara e Bruna, gerando tamanha confusão mental no bebê que até nosso gato, quando chamado, atendia com mais prontidão. Ainda que tenha achado a experiência exagerada, entendo a sua motivação. Nomes têm o poder de influir no destino do nomeado. E não digo isso com base na onomástica ou na cabala, mas em outra escola tão poderosa quanto: o mau gosto.

Ouvi falar de um pai que queria registrar o filho como Rambo. O funcionário do cartório tentou dissuadi-lo, dizendo que Rambo não era um nome propriamente dito. Depois de muita conversa, chegaram num consenso e o filho foi registrado como Sylvester Stallone. Escapou de ser título de filme, mas continuou carregando nas costas um peso pesado. Imagino o primeiro dia de aula do garoto. Sylvester Stallone!, a professora deve ter chamado, e todos viraram para trás, esperando uma imensa massa de músculos e, ao verem um menino franzino, ainda cheirando a fraldas, devem ter caído na gargalhada, dando início a uma sucessão de constrangimentos que devem tê-lo acompanhado por toda a sua vida.

É inegável: nomes compõem uma imagem. Os artistas têm tanta consciência disso que sempre apelaram sem culpa para os pseudônimos. Sabe quem foi Agenor de Miranda Araújo Neto? O Cazuza. Dá para imaginar os fãs gritando “Agenor! Agenor! Agenor!”? Era capaz de os mais desavisados nem comprarem o disco, achando se tratar de um cantor de pagode. Se Xuxa não tivesse adotado outro nome, seu programa se chamaria Show da Maria da Graça, interessante só para os baixinhos evangélicos, e olha lá. E o que dizer de Malba Tahan? Esse escolheu um pseudônimo tão persuasivo que eu passei a infância inteira achando que lia um escritor árabe, quando na verdade lia o brazuca – e muito esperto ¬– Júlio César de Melo e Sousa.

Na literatura os nomes também têm um papel relevante, já que servem de ferramenta para definir o personagem. Nesse caso, a personalidade nasce antes e o nome vem como uma extensão dela, atingindo um grau de coerência raro no mundo dos mortais. Capitu consegue condensar, em seis letras, toda a aura de mistério e sedução da personagem. Uma Terezinha de olhar oblíquo e dissimulado não fascinaria tantos os leitores. Lewis Carrol acertou chamando sua personagem de Alice. Fosse Cassandra no País das Maravilhas e o público pensaria se tratar das aventuras de uma garota pervertida com um coelho ninfomaníaco.

Seja na ficção ou na realidade, há, por trás de cada nome, a projeção de um desejo. Todos querem promover socialmente o seu rebento, muitas vezes lançando mão de firulas indizíveis para atingir esse objetivo. As classes mais baixas apelam para o status do inglês, dando origem a Maycons, Uóchingtons, Gecicas e outras pérolas que, ironicamente, nem os anglo-saxões conhecem. Já a classe média – sempre cansada de ser mediana – tenta elevar o filho apostando em nomes aristocráticos ou na grandiosidade dos sufixos: “Cassio é simples demais. Vamos pôr Cassius. Ou, melhor ainda, Cassius Frabricius”. Com as classes mais altas, o ciclo se inverte. Esses buscam a simplicidade. Não porque não queiram provar nada para ninguém – no fundo, todo mundo quer –, mas porque o que querem provar é justamente que estão acima das aspirações sociais e, portanto, podem se dar ao luxo do despojamento impresso em Claras, Pedros e Marias.

Num mundo de anseios tão diversos, o resultado é uma sociedade formada por RGs que vão de Jesus Krystos a Darkison Wilsons. O que, no final das contas, não é de todo mau, pois faz com que uma pergunta tão banal quanto “qual o seu nome?” seja o começo de uma conversa, no mínimo, divertida.

Giovana Madalosso é cronista do Blônicas.

Escrito por Blônicas . às 12h19
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10 perguntas de ouro que se deve fazer antes de sair com alguém.

De Carlos Castelo.

1) Ronca?

2) Algum problema de flatulência? Em caso positivo, qual?

3) Algum parente próximo já sofreu crise de catatonia, esquizofrênia ou tem hálito desagradável?

4) Gosta de comer algo repugnante, do tipo buchada de carneiro, miolo, Quarteirão com Queijo ou jiló?

5) Come de boca aberta?

6) Usa drogas ou álcool? Recreativamente? Em caso negativo, já teve oportunidade de ver jacarés andando pela parede?

7) Emite sons desagradáveis durante a relação sexual? De que tipo? Animalescos, guturais, eletrônicos?

8) Professa alguma religião xiita, tipo “Sara Minha Terra”?

9) A personalidade de minha futura sogra se encaixa em qual destas categorias: raivosa, competitiva, neurótica, histriônica, onipotente, superprotetora, castradora.

10) O HIV está em dia?

Carlos Castelo é cronista do Blônicas.

Escrito por Blônicas . às 12h15
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Mulher tentáculos.

De Ana Reber.

Adoro sala de espera de consultório médico. Fico torcendo para que demore um tempinho a ser chamada, que assim dá para folhear algumas publicações antigas. Porque consultório médico que se presta, só tem revista velha. Pois bem, passeando em pleno mês de junho por anúncios de Dia dos Pais, Namorados, Páscoa e etceteras do calendário de lojistas, acabei dando de cara com um reclame de Dia das Mães.  Reclame aliás é a palavra ideal, já que é exatamente o que eu pretendo fazer daqui para frente. Vou descrever a imagem impagável que eu vi no dito reclame: em frente ao shopping, uma mulher linda, vestida num tailleurzinho cinza, com uma mão fala ao celular, enquanto segura com a outra mão quinze sacolas de compras e ah, quase esqueço: carrega um bebê no colo. Imaginaram a cena? Pois é, só de olhar já me deu uma canseira danada. Me fiz então duas perguntas: 1- como a modelo ainda teve a pachorra de sorrir?? 2- É essa a imagem da mulher moderna? Uma louca que faz tudo ao mesmo tempo? Juro para você que se uma mulher assim existe mesmo, ela corre um risco sério de no meio de uma ligação de negócios, enfiar o bebê na sacola e dizer para vendedora que não serviu. Quando chegam essas datas Dia das Mães, Dia das Mulheres, e os anúncios e comerciais de teve começam a pipocar, eu fico louca. Simplesmente odeio as homenagens às mulheres que são guerreiras e conseguem ser lindas, mães, ótimas profissionais, gostosas e campeãs de xadrez nas horas vagas. Onde estão elas? Me mostrem uma comunidade no Orkut, um blog e eu juro que sossego. Porque as mulheres,  mães e profissionais que eu conheço, fizeram cocô pela última vez há uns três anos atrás. Não me levem a mal. Não faço votos para que sejamos feias, gordas, ou que não tenhamos mais filhos. Não desejo tampouco que a gente queime o sutiã com bojo, nem deixe de depilar o  buço. Agora esse tanto de cobranças,  para mim é demais. Porque estou achando que fazer tudo isso ao mesmo tempo é uma missão impossível até mesmo para a super mulher do anúncio. No fundo tive a impressao que por trás do sorriso, a modelo estava era com cara de angústia. E não a culpo. Será que ao invés de ficarem puxando nosso saco, dizendo que conseguimos fazer tudo ao mesmo tempo, não daria para dividir algumas tarefas conosco? Tenho certeza de que muitos já fazem isso, mas falta ainda um monte de machos aderindo a essa campanha. Quem sabe assim, a gente não consegue ser todas essas coisas, mas uma de cada vez? Porque nos anúncios de Dia dos Pais, não vejo essas cobranças. Os pais são coisas muito mais simples: amigos, heróis, companheiros...Será que no próximo Dia da Mulher ou das Mães, não daria para dar de presente um pouco de sossego? Quinze minutinhos para que a gente escolha o que quer ser pelo menos nesse intervalo de tempo? Porque para ser mãe, atleta, profissional, estar com a unhinha feita e a virilha depiladinha, precisaríamos de uns dez braços. Mulheres tentáculos. E sinceramente, nunca achei o polvo o animal mais charmoso do mundo. 

Ana Reber é cronista do Blônicas.

Escrito por Blônicas às 11h01
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Viajar é preciso.

De Cléo Araújo.

Às vezes eu penso que quase poderia ser feliz só com essa sensação de véspera.
É que tenho essa relação estranha com as viagens.
Uma mistura de aperto no peito por deixar as coisas daqui e uma euforia por encontrar as coisas de lá.
No fim, eu vou. Cá entre nós? Fico feliz à beça. Mas acho difícil pra danar.
Primeiro porque o meu pecado capital definitivamente é a preguiça. Eu até gostaria que fosse a luxúria ou a vaidade, mas não, é a tão pouco glamourosa preguiça mesmo.
Isso significa que não é fácil sair daqui e voar por mais de 11 horas - sabendo que, para voltar, serão pelo menos mais 12, no sentido oposto. Essas 23 horas de avião me angustiam, mas num embolado de sensações difícil de descrever.
Já sei que vou sentir saudade da minha cachorra. Da minha nova faca de cozinha, do meu computador, do meu carro mecânico, do Renato Machado, dos meus vinhos chilenos, do Simon Cowell, de cozinhar com restos da geladeira às dez da noite e do “bom dia” do senhorzinho da banca de jornal.
Mas aí, de repente, a preguiça dá uma trégua. Me empolgo na arrumação da mala. Decido que preciso de uma roupa nova para comemorar meu aniversário em um lugar especial, uma nova cor para os meus novos cabelos brancos, um All Star vermelho e um Ipod de um milhão de gigas.
Aí vou atrás de alguém para aguar as minhas plantas. Repasso telefones de emergência para os porteiros - no caso do prédio ser invadido por Gremlins e eles precisarem evacuar as dependências do edifício. Distribuo os meus itinerários para pai, mãe e irmã, caso eles precisem me localizar numa situação inesperada, do tipo, a Venezuela invadir o Brasil. E isso tudo porque eu vou ficar fora de casa durante a eternidade de quinze dias. Turista, sim, mas com toques de neurose.
E a nécessaire? Acetona, por exemplo. Levar ou não? Tem coisa melhor do que precisar de uma acetona e tê-la ali, no conforto da sua frasqueira, no meio da madrugada e num lugar isolado e sem farmácia como, sei lá, o Monte Saint Michel? Durante a maré alta? Mas imagine se ela resolve vazar dentro da mala? Que caca...
Bom, quando faltam só algumas horas para o embarque, há que se checar dezoito vezes o passaporte, os cartões de crédito, os adaptadores de tomada, o e-ticket anotado em algum lugar, os vouchers de hotel, enfim, é uma versão compacta de todo o seu mundo que você precisa carregar em uma mala média e em uma bolsa a tiracolo. E se existe uma certeza turística nessa vida, ela é a seguinte: algumas coisas vão faltar - como uma meia, um colírio e um alicate de unha - e outras voltarão intactas - como o vestidinho preto de sair e o sapato de salto.
Sei que lá vamos nós. E já decidi que quero estar lá enquanto estiver. Inteira. Não quero só o frio na barriga da véspera. Não quero perceber o quanto tudo foi sensacional só depois, como resultado da lembrança. Não quero a memória da taça de vinho branco naquele restaurante charmoso que descobri sem querer numa ruela. Quero viver a taça de vinho branco na hora exata em que ele fizer cócegas nas minhas papilas.
Quero curtir os chuveiros traiçoeiros, as camas estranhas, os idiomas desconhecidos e até as bolhas nos pés. Quero descobrir um novo jeito de chamar a Kibon e a Elma Chips. Quero um bronzeado nem que seja com a marca da camiseta para levar para casa.
Lá, onde as plantas estão hidratadas, onde a cachorra está adorando tirar uma folga de mim, onde não há Gremlins e nem invasões bélicas inesperadas de inimigos sul-americanos.
Viajar é preciso, sim.
E nem é tão difícil.
É só levar uma acetona bem tampada, um All Star vermelho, apertar os cintos e ir.

Cléo Araújo é cronista do Blônicas.

Escrito por Blônicas . às 11h13
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A mulher invisível.

De Silvio Pilau.

Há pouco tempo, o diretor e roteirista Cláudio Torres confessou em entrevista que um dos erros cometidos em Redentor, seu trabalho de estreia, foi exatamente a ânsia de querer fazer vários filmes em um só. De fato, Redentor mesclava diversos gêneros e ideias em uma produção claramente ambiciosa, mas com resultado bastante irregular. Ainda assim, era possível perceber que Torres era um diretor com certa ousadia e originalidade, capaz de realizar filmes interessantes quando obtivesse alguma experiência.

Assim, não deixa de ser decepcionante que este A Mulher Invisível seja uma obra tão convencional e repetitiva. Em seus primeiros trinta minutos, o filme sofre do mesmo mal de artificialismo, com os diálogos demorando a soar naturais e o filme levando algum tempo para “fisgar” o espectador. Para piorar, grande parte das piadas desse primeiro ato não funcionam, como a montagem com as mulheres que Pedro leva para a cama e as excessivas brincadeiras com o fato de Amanda não ser real (“Eu só existo com você!”).

Felizmente, A Mulher Invisível se torna mais interessante quando o casal sai do apartamento e começa a interagir com as pessoas. São nesses momentos que a produção consegue arrancar algumas boas risadas, quando outros vêem o protagonista agindo sozinho. Estas cenas são o grande destaque e fazem do filme algo passível de se assistir. Ainda assim, Torres exagera na quantidade delas, e A Mulher Invisível acaba limitando seu alcance às gags visuais decorrentes de tal situação ao invés de buscar maior inteligência ou ironia do roteiro.

Selton Mello se sai bem na comédia física – com ecos claros de Steve Martin em Um Espírito Baixou em Mim. Talentoso, Mello não está em seus melhores momentos no restante do filme, mas se destaca nas cenas em que deve agir sozinho, demonstrando mais uma vez ótimo timing cômico. Por outro lado, Luana Piovani nada faz além de parecer bonita – Torres, aliás, cria todos seus planos de forma a explorar corpo escultural da atriz. O ponto alto do elenco é, como sempre, Fernanda Torres, que mais uma vez comprova ser a melhor atriz de comédia do Brasil ao entregar com perfeição absoluta todas as suas falas.

Porém, ainda que consiga gerar algumas risadas, A Mulher Invisível falha em termos narrativos. A história e os personagens jamais são desenvolvidos de maneira satisfatória, tornando-se meros instrumentos para as cenas físicas. Os romances, por exemplo, não convencem, com os personagens se apaixonando de maneira abrupta. Torres ainda erra quando, após Pedro descobrir que Amanda não existe, utiliza uma montagem com o personagem se dando conta de que fazia tudo sozinho. Essa cena teria algum impacto se a plateia não soubesse da condição do protagonista (vide Clube da Luta), mas acaba perdendo-o por isso não ser um segredo.

Outra falha diz respeito ao fato de como Pedro vê Amanda. Em certos momentos, parece que ele apenas a enxerga, falando com alguém que não existe. No entanto, em uma cena dentro de casa, o personagem parece incorporá-la, pois pergunta e responde pelos dois. É uma incoerência do roteiro que demonstra, mais uma vez, como o grande objetivo do filme não é contar uma história, mas simplesmente fazer algumas piadas. Aliás, isso fica bem claro quando se percebe que Torres não sabe como encerrar sua obra, estendendo-se demais em diversos finais.

Para uma comédia, A Mulher Invisível não chega a ser um desastre, pois oferece momentos divertidos e algumas boas risadas – ao menos, o suficiente para fazer o filme cair no gosto do público. Mas, infelizmente, é só.

A mulher Invisível
De Cláudio Torres. Com Selton Mello, Luana Piovani, Vladimir Brichta, Maria Manoella, Fernanda Torres, Paulo Betti, Lúcio Mauro e Marcelo Adnet.
Nota: 5.5

Silvio Pilau é cronista do Blônicas.

Escrito por Blônicas . às 16h07
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Momento repescagem.

De Tati Bernardi.

Em alguns momentos da vida, mais comumente quando começa o inverno, repensamos nossos “descartes” (não o pensador) pelo mundo afora.
É a época em que cai a ficha, finalmente, de que o tal moço incrível que vai te dar segurança, filhos, amor incondicional, cultura geral mas com profundidade e quinze orgasmos por semana pode não existir. Aí você pensa: poxa, mas tinha aquele lá, ele não era tão ruim, era? Acabou por quê?
É o momento repescagem. Todo mundo já repescou ou foi repescado. Basta o cachecol e a bota de cano alto saírem às ruas. O amor meia boca volta a imperar. Garotos não tão bons de papo mas com uma boa performance no quentinho do edredom, voltam pro jogo. Outros, mais recatados e sem glamour na pegação, mas inteligentes e perfeitos para um vinhozinho de fim de dia, reaparecem com boas chances de serem valorizados. É o frio, minha gente. Nada além disso.
Os bons de papo e de cama, mesa e banho, então, nossa. Esses recebem propostas de casamento, ganham presentes, massagens e outras coisinhas que mulheres juravam jamais dar. Elas esquecem que eram tipos malucos, inconstantes, mentirosos, traidores, covardes e mais um monte de coisa grave que ganha “desimportância” conforme o frio aumenta. Eram ótimos partidos! Eu que sou muito exigente! O frio diminui as expectativas, as esperanças, os sonhos. O frio só aumenta o desespero.
Se você, caro leitor, é um partido meia boca, saiba que suas chances duplicam no inverno. Se você, cara leitora, é uma mulher que odeia se sentir burra, espere o tempo esquentar antes de mandar aquela mensagem de texto de madrugada pro seu ex-ex-ex-ex-ex-namorado. Se você deixou ele ir embora, não é o frio que deve trazê-lo de volta.
Calma que daqui a pouco a voz da razão ou da regata com shortinho vai te mostrar o caminho correto.

Tati Bernardi é cronista do Blônicas.

Escrito por Blônicas às 19h06
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Mitos que ninguém conhece (ou: essa mitologia pra mim é grega!)

De Edson Aran.

Sosifudis e Acepipis.
Sosifudis era um pastor de macacos-prego na ilha de Tebas. Um dia, quando estava levando os animais para pastar, viu, ao longe, uma mulher nua nadando no mar. Mas a mulher não era mulher, era a ninfa Acepipis, que chegou à praia e disse:
“Olha só, onde eu descolo um sanduíche natural?”
Sosifudis, enlouquecido com as curvas da criatura, respondeu:
“Cola na minha que tu vai se dar bem, princesa...”
Papo vem, papo vai, Sosifudis passou o rodo na gostosa. O problema é que Acepipis era a ninfa favorita de Zeus que, injuriado, desceu do Olimpo bufando e trovejou para Sosifudis:
“Tu não respeitas minha autoridade, oh, tolo mortal fanfarrão!”
E Zeus prendeu Sosifudis num rochedo altíssimo e ordenou que todos os pombos do mundo cagassem na cabeça dele pelo menos uma vez por dia até o fim dos dias. Os macacos-prego viraram um grupo de axé music, a ninfa Acepipis virou modelo-manequim-e-atriz e Zeus virou ganso para afogar o próprio em outro ponto do Peloponeso.

Bucéfalus e Tesuda.
Tesuda, filha do herói Teseu com a rainha Boazuda, detestava viver em Creta, onde vivia cercada por todo tipo de cretino.
“Ai, como você é Tesuda!”, dizia o cretino e, não contente, ainda acrescentava “um dia você vai tropeçar nesse orgulho e cair nos meus braços, minha deusa!”
Pior era Zeus que, doidão por Tesuda, virava galo, touro, leão, cavalo e, em noites de nenhuma imaginação, até preá e ornitorrinco. Toda manhã ela tinha que chamar a prefeitura pra recolher os animais na porta. Um saco. Ou sapo, de vez em quando.
Cansada de tanto assédio, Tesuda atravessou o mediterrâneo e foi dar na Tessália, onde casou com o rei Bucéfalus. A filha deles, Bucetuda, não passa em Creta nem fodendo,

Autanálisis e Tália.
O dramaturgo grego Autanálisis era famoso por suas tragédias que versavam, basicamente, sobre a guerra de Tróia. Era sempre Ajax, Páris, Aquiles, Ulisses e Agamenon.
Um dia, porém, depois de ter escrito todas as variações possíveis sobre a guerra (incluindo um drama claustrofóbico passado dentro do cavalo), Autanálisis sentou numa pedra e clamou:
“Oh, musas, preciso de uma idéia pra emocionar a platéia!”
Nem bem havia clamado, Autanálisis viu uma moça toda sinuosa com dois peitões que quase pulavam pra fora da toga.
Ele abateu a moça no seu cafofo e, antes mesmo de acender um cigarrinho, o dramaturgo viu surgir na sua mente uma tragédia inteira, com três atos, prólogo e epílogo, mais a participação de Zeus e metade do Olimpo.
“Oh, musas, obrigado, obrigado!”, disse Autanálisis, caindo de joelhos.
E a moça do peitão, ainda arrumando a toga.
“Obrigado, o cacete! São 300 dracmas, mais o dinheiro da liteira...”

Edson Aran é cronista do Blônicas.

Escrito por Blônicas às 18h19
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Do manual de civilidade destinado às meninas para uso nas escolas públicas e privadas.

De Xico Sá, com ajuda espírita, samples e a partir da herança de Pierre Louys, soprado ao escriba por lindas ninfomaníacas em flor.
 
Não diga: “Chupe-me todinha”.
Diga: “use a pedagogia da manga”.

Não diga: "Minha buceta."
Diga: "Meu coração."

Não diga: “Quero te dar o cuzinho”.
Diga: “voltei da depilação”.

Não diga: "Estou com vontade de foder."
Diga: "Estou nervosa."

Não diga: "Acabo de gozar como uma louca."
Diga: "Sinto-me um pouco fatigada."

Não diga: “Ninguém me chupa como você”.
Diga: “Eis a língua universal”.

Não diga: "Vou masturbar-me."
Diga: "Vou voltar."

Não diga: “Vamos foder”.
Diga: “Oremos ao senhor”.

Não diga: "Quando eu tiver pentelho no cu."
Diga: "Quando eu for grande."

Não diga: “Precisamos inovar as posições”.
Diga: “Vamos ler o catecismo”.

Não diga: "Eu prefiro a língua ao pau."
Diga: "Só gosto de prazeres delicados."

“Não diga: “Não é nada disso que você está pensado”.
Diga: “Se junte a nós e sejamos felizes”.

Não diga: "Entre as refeições só bebo porra."
Diga: "Sigo uma dieta especial."

Não diga: “Mete mais devagarzinho”.
Diga: “Não foi assim que te ensinei”.

Não diga: "Tenho doze consolos em minha gaveta."
Diga: "Nunca me entendio quando estou só."

Não diga: “Beije os meus pés”.
Diga: “Você hoje ainda não rezou por mim”.

Não diga: "Os romances honestos me chateiam."
Diga: "Eu gostaria de ter algo interessante para ler."

Não diga: "Quando se lhe mostra uma pica, ela se zanga."
Diga: "É uma original."

Não diga: "É uma menina que se masturba até quase morrer."
Diga: "É uma sentimental."

Não diga: "É a maior puta da terra."
Diga: "É a melhor menina do mundo."

Não diga: "Ela deixa-se enrabar por todos aqueles que a masturbam."
Diga: "Ela flerta um pouco."

Não diga: "Eu a vi ser fodida pelos dois buracos."
Diga: "É uma eclética."

Não diga: "Ele dá três sem tirar da buceta."
Diga: "Ele tem o caráter muito firme."

Não diga: "Ele gozou em minha garganta e eu na dele."
Diga: "Trocamos algumas impressões."

Não diga: "Seu pau é demasiado grosso para minha boca."
Diga: "Sinto-me bem pequena quando converso com ele."

Não diga: "Ele fode muito bem as menininhas, mas não sabe enrabá-las."
Diga:" É um simplório."

Não diga: “Cadê o gel lubrificante”.
Diga: “Com o carinho de sempre”.

Não diga: “Você é o homem da minha vida”.
Diga: “Você me conforta bem lá dentro”.

Não diga: “Vou chupar o seu pau”.
Diga: “derrama o mingau dos deuses”.

*Do Catecismo de Devoções, Intimidades & Pornografias, ed.do Bispo.

Xico Sá é cronista do Blônicas.

Escrito por Blônicas às 15h41
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Tanto clichê.

De Bianca Rosolem.

Seu Messias estranhou a atitude dela naquele dia. Não que seu comportamento pudesse ser tomado por normal, mas existia uma constância nos atos excêntricos de sua funcionária. Porém, como já dito, o patrão ficou ensimesmado com os devaneios presentes no olhar que vira enquanto fechava o sebo junto dela naquela noite.

Lúcia é uma senhora de meia idade que suspira a piedade do mundo. De início alguns clientes reclamaram da funcionária. Quando foi admitida, há 07 anos, a clientela sentiu-se incomodada por suas freqüentes lamúrias, olhares cabisbaixos e pedintes. Diziam que este comportamento lotado de autopiedade não compensava o incrível conhecimento literário que Lúcia possuía. Mas, Messias já estava compadecido por Lúcia. E seu coração, com aspirações nobres por um lugar no céu, concedeu a vaga a esta tão solitária senhora. Mas cabe falar que detalhe algum sobre sua vida era conhecido, sabia-se de sua solidão pela postura carente e amarga que carregava com os ombros curvados. E, como cabe a todo bom literato, tal segredo só se revela drasticamente ao final, entre choros convulsos e peitos arfantes.

Sempre pontual, Lúcia chega às 8:30 da manhã e abre a loja. Moreno, o ajudante sorridente, a auxilia na tarefa de levantar a porta de ferro de correr. Ele por vezes presta atenção quando Lúcia levanta os braços e, neste momento, por conta da seqüência lógica de movimentos, é possível ver os joelhos da senhora com a subida da longa saia. “Nem são tão maus assim”, dizia, mais tarde, Moreno entre gargalhadas quando sentado no estoque separando as porcarias adquiridas: “Quanto livro velho! Como essa gente pode gostar?”.

Sempre com alguma leitura nas mãos, Lúcia fica a um canto atrás do balcão. Os cabelos presos em um coque no alto da cabeça e os óculos que escorregam para a ponta do nariz delicado conferem um ar melancólico àquela senhora. Sempre que alguém adentra a loja ela levanta somente os olhos e, seu olhar sempre com algo triste para dizer, pousa sobre o cliente recém-chegado. Nesta exata cena, alguns dão meia-volta e desistem, outros encaram e entram corajosamente; e aqueles despreocupados apertam o passo em direção do interior da loja e acenam para ela sem olhar diretamente para sua cara. Independente de qual a situação ocorrida dessas mencionadas, Lúcia sempre suspira e se encolhe, resignada, ajeitando os óculos e enfiando-se o máximo possível nas linhas escritas que segura nas mãos. Alguns – raros - gostam de conversar com ela sobre livros, e ela o faz sem parecer se entusiasmar ou importar. Sua feição jamais adquire outra dor. Sempre desiludida, suspirando melancolia e comendo sonhos da padaria da esquina, em todos os anos de trabalho, Lúcia nada mudou, nem sequer os cabelos embranqueceram.

Pois assim era sua funcionária que naquela noite, precisamente às 7:00 horas, corou ao se despedir. E nesse rubor, Seu Messias viu um brilho muito sutil em seus olhos. E quando Lúcia percebeu que algo demonstrara, deu um pequeno salto de susto deixando o livro que carregava escorregar e cair no ponto exato que a separava de Seu Messias. Os dois se olharam surpresos, e quando Messias fez gesto de abaixar, Lúcia pareceu arisca e ágil, rapidamente tomou o livro em sua posição apertada ao peito. Trêmula despediu-se e saiu andando rapidamente e desajeitada. Messias ficou parado, e cogitou se ela assim reagira por levar um livro. “Não, ela já faz isso há anos, e ambos sabemos desses pequenos empréstimos”, disse consigo mesmo, cheio de curiosidade. Sorriu, meneou com a cabeça e pensou porque a vida lhe rodeara de livros e pessoas esquisitas. Mas não encontrou nenhuma resposta.

Lúcia desceu o Largo São Francisco em disparada, quase que fugida. Parou e encostou-se a um poste do caminho, respirou lentamente e fez a tontura passar. Sentiu o livro queimar em suas mãos. Estava toda de febre, seu corpo formigava, e sentia cócegas borboleteantes na boca do estômago. Pegou o ônibus no terminal Bandeira e permaneceu muda e quieta durante todo o trajeto, com o olhar disperso no movimento dos prédios, dos carros e das pessoas. Nada parecia em algum lugar parar ou a algum lugar chegar. A cidade brilhava luzes, e a vida que passava sempre tão despercebida a seus olhos fez-se reconhecida e parte. Naquele dia, sem que lhe desse trégua o burburinho enjoativo do estômago, deixou o olhar vagar e levá-la por além das pálpebras desiludidas. E viu o desenrolar engraçado do final do dia na a inquietude e no cansaço daqueles que para casa desejavam voltar. O quê poderia os esperar atrás das portas familiares era de se pensar ou da memória pouco lembrar. Pois, sem família por perto desde os 15 anos, Lúcia costumava deixava a chave sobre a mesinha da entrada após fechar a porta para sentar-se sozinha na mesa de jantar. Nunca ninguém a esperou, ou ela ansiou chegar por alguém. Mas, novamente o livro queimava em suas mãos. A face adquiria a vermelhidão daquele que leva brasas novas no coração.

Entrou diferente e não deixou a bolsa e as chaves no lugar de sempre. Levou-os até o quarto, deixando apenas o livro sobre a mesa próxima da porta. E, assim, quando terminou o jantar de congelados, levantou-se calmamente, como se fizesse um mistério para si mesma e abriu a janela. O apartamento simples não trazia vista para alguma beleza, apenas via-se outras janelas tão vulgares quanto a sua. Mas, mesmo ciente disto, Lúcia deixou-se a olhar tudo aquilo e sentiu a temperatura mais leve àquela hora da noite de verão. Contrariando todos os seus dias já vividos, deixou a janela aberta. Pegou o livro que quase a denunciara, e seus lábios pensaram em sorrir de maneira travessa. Lembrou-se pouco criança e mais garota, loura e doce, que um dia foi, e sentou na poltrona.

Abriu-o na primeira página e leu a dedicatória contida. “Lúcia, para vivermos um amor louco. E sem fim. Te amo. Carlos. Janeiro/1979”. Leu ainda algumas vezes mais aquelas palavras que mexiam em todo seu interior, e tomou consciência de tantas coisas que aconteciam em seu corpo. Talvez ela estivesse um pouco viva naquelas palavras que nem suas eram. “Mas, e se fossem, meu Deus?”, ela pensou um pouco alto, quase arrependida. E, se alguém pudesse amá-la e ser louco, e ser bom também? E se ela pudesse viver e sorrir às vezes quando alguém dissesse seu nome? Ela ainda imaginou como seria se ela fosse ela e ele fosse Carlos. E ele poderia esperá-la também na porta para saber abraçar e beijar bem de leve para a vizinha fofoqueira não reparar. Jantariam juntos e falariam do dia e da chuva forte que caía. Assistiriam o jornal da TV, e quando a noite fosse fria ele a abraçaria e aqueceria suas mãos geladas. Ele poderia até gostar de música e ouvi-las nos sábados à tarde, enquanto ela sentava e tricotava algum caminho de mesa novo. E no ônibus ela poderia pensar sobre ele, sobre a casa, e nas muitas coisas que as pessoas fazem juntas. E ele também seria esperto e ensinaria coisas que ela nunca ousara saber.

Perdida em devaneios, com o corpo trêmulo por não estar acostumado a viver, Lúcia passou toda a noite sonhando como se fosse a primeira vez, e de olhos bem abertos também.

Bianca Rosolem é cronista do Blônicas.

Escrito por Blônicas às 17h32
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