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Escrito por Blônicas às 16h29
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NA MIRA DO CHEFE (IN BRUGES).

De Silvio Pilau.

NA MIRA DO CHEFE (IN BRUGES)
De Martin McDonagh. Com Colin Farrell, Brendan Gleeson, Ralph Fiennes e Clémence Poésy.

Ocasionalmente, grandes estrelas aceitam reduzir salários e participar de produções pequenas. Isso acontece quando têm certeza de se tratar de um projeto interessante e original, capaz de render uma boa obra e gerar oportunidades de carreira. É o caso, por exemplo, de Na Mira do Chefe, modesta produção inglesa/americana que tem no elenco nomes como Colin Farrell (Miami Vice) e Ralph Fiennes (da série Harry Potter).

Escrito e dirigido pelo novato Martin McDonagh, Na Mira do Chefe conquistou fãs e abocanhando diversos prêmios em 2008(como o Globo de Ouro de melhor ator e uma indicação ao Oscar de roteiro). E a louvação ao filme é justa. McDonagh construiu uma obra que utiliza referências de forma original, mesclando diálogos espirituosos com uma violência que, por vezes, soa absurda. Na Mira do Chefe não pertence a um só gênero: é, ao mesmo tempo, comédia, drama, thriller e filme de ação.

O grande mérito da produção é o inteligente roteiro. Trata-se de um filme repleto de pequenas ideias, onde praticamente toda cena guarda uma pérola. Além disso, o diretor/roteirista ainda consegue fazer com que praticamente tudo acabe tendo utilidade no final. Por exemplo, cenas que parecem desnecessárias, com o único objetivo de fazer rir, acabam desempenhando papel importante em algum momento posterior, como a briga no restaurante e a família americana.

Mas onde o roteiro de Na Mira do Chefe atinge níveis altos é mesmo nos diálogos. A quantidade de falas inspiradas que saem da boca dos personagens é impressionante e faz deste um daqueles filmes cujos diálogos podem entrar para a cultura pop. Fica difícil escolher uma favorita: elas vão desde o bizarro (“Eles estão filmando pessoas pequenas!”), passando pelo sarcasmo (“Purgatório é entre o céu e o inferno. Você não foi tão ruim, mas também não foi tão bom. Como o Tottenham.”) e chegando até à metalinguagem (“Cale a boca. Este é o tiroteio final.”).

Claro que estas frases ganham outro alcance quando entregues por atores de talento. Colin Farrell talvez encarne aqui seu melhor papel. O ator compõe Ray como um assassino quase neurótico, amargurado por um erro recém-cometido. Ao mesmo tempo em que constroi um personagem interessante, conflituoso, Farrell brilha nos diálogos, realizando inflexões perfeitas e demonstrando um timing cômico insuspeitado. O mesmo vale para Brendan Gleeson e Ralph Fiennes, que aproveitam ao máximo a riqueza do material para criarem personagens fascinantes e iluminarem momentos específicos; a cena na qual conversam em um café no meio da rua é ouro puro.

McDonagh, porém, não surpreende apenas no roteiro e demonstra ser um excelente diretor ao superar a difícil tarefa de equilibrar diversos gêneros. O cineasta comanda a produção com certeza do filme que pretende realizar, sempre reforçando o absurdo dos personagens e da trama, o que faz com que a violência, apesar de gráfica em certos momentos, não choque. Além disso, exibe ótimo olhar e senso estético ao filmar Bruges de maneira belíssima, transformando a cidade em praticamente um personagem da história.

Equilibrando com competência altas doses de humor negro, drama existencial e o enredo do crime, Na Mira do Chefe é um dos melhores e menos vistos filmes do último ano. Por vezes estranha, ainda que não menos brilhante, a produção certamente não irá agradar a todos, especialmente graças ao final. Mas é, sem dúvida, um filme repleto de qualidades e valores, nada previsível e com elementos de pura inteligência.

Nota: 8.5

Silvio Pilau é cronista do Blônicas.

Escrito por Blônicas . às 11h56
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Carta para você.

De Xico Sá.

Nada sofreu um baque tão grande com a internet como a carta de amor. Falo da missiva de punho próprio, selada na língua, carimbada, que segue no bico do pombo-correio ou é entregue pelo bravo homem de amarelo, o velho mr.Postman da canção dos Beatles, esse grande homem, o carteiro, sempre enxotado pelos cães e recebido pelo sorriso das moças que sentem saudades dos mancebos que saíram para comprar cigarro.

Já fiz campanha aberta, aqui mesmo nesta bodega lírico-boêmia, pela volta de tal correspondência. Mesmo sabendo que só malucos ainda usam tal expediente.

Até longos namoros são dissolvidos por email, covardemente, como o pé-na-bunda mais famoso do mundo, o do escritor francês Grégoire Bouillier na artista Sophie Calle. Ela fez da história uma obra. Na semana passada fizeram uma D.R.-cabeçosa e civilizadíssima na Flip, uma Discussão de Relação com notas de rodapés e tudo. (Estou fuera, prefiro a barbárie sincera dos corações selvagens e doloridos, me cutuca aqui a gatinha manhosa no meu colo).

Volto ao tema, que merece panfletos permanentes, por causa da publicação de um livro que é mais uma bela peça de defesa da missiva à moda antiga. Chama-se “Carta para você –Declarações de amor em tempos modernos” (editora Alfaguara), uma antologia que junta os mais diversos escritores, inclusive este vagabundo cronista –por ai voce tem ideia da amplitude.

Mas a genialidade são os outros. Fico muito orgulhoso e confesso, não vou mentir, dona Maria do Socorro, madrecita querida, de estar em uma capa ao lado de varões como o Neil Gaiman e o Leonard Cohen. São os caras, mãe, cada um do seu modo de macho, e a causa é nobre demais da conta.

O Cohen, Maria, agora falando de outra linda homônima da mãe do cabeludo da cruz, a que amo hoje além muito além daquela serra azulada e edipiana do Araripe donde eu vim ao mundo, escreveu uma carta linda. Sim, o Cohen das baladas de todos os cafés e uísques caubóis tristes.

A Maria ouve o belo compositor e cantor canadense enquanto eu rego as flores dos jardins suspensos e a lua fura o barracão de zinco. Os versos do Cohen fazem qualquer planta crescer sem adubo. E talvez sem chuva.

Sim, dona Sophie Calle, o Cohen sabe muito mais sobre pé-na-bunda.

Tem carta com desculpas, carta para a mamãe, carta chocante, carta para a melhor amiga e Margaret Atwood fez uma carta misteriosíssima. Miguel Sanches Neto, do time brasileiro da coletânea, escreveu o melhor começo de todas as cartas do livro: “Querida J., tudo vem com a distância”.

Não é nada não é nada, o fardo das missivas, nos mais diversos jeitos –estilo é coisa de Hemingway e Faulkner para cima!- é, para dizer o mínimo, um empurrãozinho para estimular esses moços, pobres moços, a assentar no papel aqueles garranchos que bolem por dentro e viram caligrafia mais torta ainda.

Amigo, no tempo em que os homens lambiam selos, sabiam adular também as moças de um jeito mais bonito e delicado, se é que você me entende. Eu volto com mais devoção no próximo post, eis a minha missão reencarnada nessa terrinha azul que se move não se sabe para donde.

Xico Sá é cronista do Blônicas.

Escrito por Blônicas . às 10h32
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Eu preciso dizer que te amo.

De Leo Jaime.

Quantas coisas já não foram ditas, escritas, cantadas sobre o amor? O amor já foi dançado, pintado, chorado e vivido milhões de vezes, e continua uma incógnita. Um assunto interminável, um mistério nunca desvendado. Talvez nem haja como desvendá-lo de fato. Talvez seja só o estar desvendando. Como a vida. Desde a primeira célula se reproduzindo ao universo se expandindo, é preciso que o amor esteja presente.

A gente ama muito na vida. A gente ama o peito da mãe quando é um bebê, e declara nosso amor incondicional à nossa mãe e cobra isso dela muito antes de aprender a dizer gugu - dadá. A gente vai crescendo e formando nossa personalidade através dos nossos amores. As coisas que a gente gosta e as que a gente não gosta. Assim encontramos os nossos limites, e em nossos limites encontramos o nosso contorno, o nosso jeito. Quando a gente descobre o amor, descobre também a tristeza. Uma tristeza profunda e permanente que vem do fato de que tudo é transitório, tudo nasce e morre, e o amor também, arrancando pedaços. “A única coisa que a gente quer na vida é ser amado. Nós olhamos no espelho e pensamos: “Será que alguém vai gostar de mim de verdade? ” Gostar aquele amor intenso, profundo e infinito, capaz de nos matar a fome de amor para sempre? E é assim que nos deparamos com a paixão. Quando estamos apaixonados por alguém que não quer nada com a gente, é a morte. Quando alguém se apaixona pela gente e não temos o mesmo sentimento para retribuir também é a morte. E quando nos apaixonamos por alguém perdidamente, achando que o outro nunca vai nos notar e, de repente, percebemos ou descobrimos que o outro está perdidamente apaixonado por NÒS também. Aquela pessoa que para você é o máximo dos máximos, que quando te dá um oi te faz sentir orgulho em ser cumprimentada, aparentemente tão distante, se revela alguém que só pensa em você, e que tem vergonha de dar bandeira, pois igualmente não imaginava ser objeto de sua paixão. Isso é o céu.

O primeiro sinal da paixão é a estranheza. A gente vê e fica sem graça. “Até que um dia os olhares se cruzam e é como se uma explosão colorida tomasse conta de tudo.”  É impossível fazer um momento durar para sempre. Os sonhos podem durar muito, mas chega uma hora em que a gente quer acordar e ver a nossa vida inteira de novo; por mais que tenha sido gostoso passar um tempinho vendo uma coisa só na nossa frente  - a nossa paixão. Normalmente essa separação é fatal. Quando nos apaixonamos só enxergamos o que queremos, o que sonhamos, o que precisamos. E quando volta a vontade de enxergar a vida sem as lentes cor-de-rosa da paixão, nem sempre encontramos ali, ao nosso lado, quem esperávamos encontrar.

O amor é, em essência, movimento. E vale a pena tentar. Quando estamos há anos com alguém, aprendemos o seu jeito. Sentimos saudade da sua risada. Sabemos a hora certa de desviar para não causar atrito. Conhecemos os seus defeitos e qualidades e gostamos desse certo alguém sem tirar nem pôr, do jeito que ele é. Até que um dia um dos dois por algum motivo vai embora. O que fazer? Quando a vida parece não fazer sentido sem ela, mas sabemos que temos de nos separar. Ainda que a alma chore, seu corpo inteiro sinta essa dor e o futuro seja uma escuridão sem a luz do amor a te conduzir.

Perder alguém é estar perdido. A gente nunca sabe se o amor vai voltar a sorrir em nossos lábios. A gente vê alguém sofrendo, alguém cuja felicidade costumava ser a coisa mais preciosa de nossa vida, e somos a única pessoa que não pode fazer nada. Quando um amor, um namoro, uma história termina, pode-se discutir o quanto for que não se encontrará  o culpado. Por mais que um seja totalmente errado, os dois dançaram juntos  uma música que só pode ser dançada a dois. E quando perceberem que a alegria foi feita por esse encontro, descobrirão que a dor também foi. “Eu quero muito ser amado. Quero amar muito também.” Quero muito fazer as duas coisas ao mesmo tempo. Quando vejo duas pessoas se amando de verdade, sorrio, meu time está ganhando. Quando dois amigos se separam dói pra caramba. Porém,  eu sempre digo que, embora tenha, acabado nunca foi um fracasso. Tocar a felicidade junto a alguém é sempre uma vitória.

Por um momento ou por uma vida. Amar é o que importa. Ou estar amando.

Leo Jaime é cronista do Blônicas.

Escrito por Blônicas . às 14h38
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O peixorro.

De Carlos Castelo.

Uma das coisas que mais me fascina em David Lynch não são propriamente seus filmes delirantemente surreais. Também não fala muito comigo aquela sua mania de evangelizar a humanidade via meditação transcendental.

O que, de fato, me intriga nesse singular cineasta é a sua capacidade de vender ideias.

Fico imaginando Mr. Lynch chegando numa sala onde estão meia dúzia dos mais poderosos produtores de Hollywood. Cumprimentando-os delicadamente e, em seguida, retira algumas folhas de uma pasta. Com voz calma e pausada lê a sinopse de sua próxima realização:

“Bem, o filme começa na sala de um apartamento de classe média iluminada por um abajur. A TV está ligada, sem ninguém ali. De repente, entra um homem com uma cabeça de coelho enorme. Pega o controle remoto e muda de canal para um jogo de beisebol. A câmera abre e vemos a mulher dele. Ela também usa uma gigantesca cabeça de coelho e passa a calça do marido. Corta para o centro de lançamentos de foguetes da Nasa. Uma mulher corre atrás de um astronauta e…”

No final, depois de dizer “The End”, David Lynch assevera aos executivos que o ouviam atentantamente:

“O custo do filme é de 30 milhões de dólares, senhores”.

Alguns meses após a reunião, chega às salas de cinema do mundo inteiro o derradeiro delírio de Mr. Lynch.

É invejável esse dom.

Guardando as devidas proporções, tive sensação semelhante ao assistir ao comercial do peixe-cachorro – ou seria cachorro-peixe da Volkswagen?

Apesar da estética portenha – que, vamos e venhamos, já está virando carne de vaca entre nosotros - trata-se de uma ideia quase lynchiana para os atuais padrões de aprovação da propaganda nacional.

Enquanto criativo, não me vejo atualmente dizendo numa reunião:

- O filme começa numa praia com um cachorro que também é peixe correndo. Então o dono dele…

Para quem viveu o período criativo da propaganda antes do “o sonho acabou” dos 2000, sabe que filmes como o do peixorro não seriam assim tão espetaculosos para aquele período de glórias da comunicação comercial.

Mas, para 2009, ele é um marco.

Deveria, inclusive, vir com link para quem quisesse acessar a reunião de aprovação do script com o cliente.

Aliás, fica aqui uma sugestão para Cannes 2010: o prêmio “David Lynch” de cliente menos careta na aprovação.

Quem sabe o nível de inventividade voltasse a reinar no “off-line” a exemplo de “Twin Peaks” e “Blue Velvet”.

Carlos Castelo é cronista do Blônicas.

Escrito por Blônicas às 12h05
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Escrito por Blônicas às 15h16
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Alce Cinzento e filmes brinquedos.

De Edson Aran.

Grande Crítico ver filme Megan Fox.

Alce Cinzento das Rochosas, o crítico de cinema mais importante da Nação Sioux, foi colaborador dos Cahiers du Cinema e introduziu a nouvelle vague entre os nativos do Oeste americano. A pedido do Site do Aran, ele assistiu "Transformers 2: A Vingança dos Derrotados". 

Alce Cinzento viver muitas luas. Alce Cinzento ter saudade cinema anos 60 e 70. Alce Cinzento apreciar desconstrução narrativa em Jean-Luc Godard. Alce Cinzento gostar supressão temporal em Alain Resnais. Alce Cinzento adorar assinatura autoral em Fraçois Truffaut.

Alce Cinzento não suportar cinema caça níquel feito Hollywood hoje em dia. Homem branco de língua bifurcada transformar brinquedo em filme e fazer "Transformers". Nada valer a pena na porcaria, a não ser gostosa Megan Fox.

Megan Fox coisinha tesuda como bela Flor de Obsessão. Flor de Obsessão ser água de fogo de Alce Cinzento. Mas Flor de Obsessão ordinária vadia cachorra. Flor de Obsessão falar ter dor de cabeça e não poder caçar bisão Alce Cinzento. Alce Cinzento caçar bisão sozinho e ver Flor de Obsessão rolar pradaria com Asa de Águia. Asa de Águia grande guerreiro sioux, mas preferir axé music a Miles Davis. Asa de Águia nem saber quem ser Godard, Resnais e Truffaut. Flor de Obsessão puta piranha vagabunda.

Alce Cinzento esquecer Flor de Obsessão com Chuva Dourada. Chuva Dourada macia como raposa de pelo sedoso, mas meio nojenta. Chuva Dourada querer fazer xixi Alce Cinzento. Alce Cinzento mandar Chuva Dourada se enfiar noutra caceta.

Alce Cinzento só querer saber cinema agora. Mas Alce Cinzento só ver filme feito muitas luas atrás. Alce Cinzento não entender filme inspirado brinquedo. Alce Cinzento preferir viajar Eternos Campos de Caça do Grande Espírito a ver robozão virar cavalo de aço. Alce Cinzento só gostar Megan Fox. Alce Cinzento dar um escalpo robozão e casa, comida, roupa lavada pra Megan Fox.   

Edson Aran é cronista do Blônicas.

Escrito por Blônicas às 15h15
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In-sustentável.

De Ana Reber.

Caçando assunto, hoje descobri que o Dia do Contador e o Dia Mundial sem Carro são festejados na mesma data, 22 de setembro. Perdão aos amigos contadores, mas vamos falar da opção B que é 2,7%  menos monótona, ok? Bacaninha a iniciativa do Dia Mundial Sem Carro. No dia 22 de setembro já sabe, carro na garagem, tá? Tá, mas e daí, o que isso resolve na minha vida? Por um dia as pessoas vão descobrir que a cidade pode ser mais tranquila e que o transporte público não é tão ruim assim. Beleza. Agora pior do que aguentar o trânsito, é aguentar o debate sobre ele. Todo mundo já está careca e com a bunda achatada de saber que o trânsito é um problema sério. Que todos os políticos com nossos preciosos votinhos, vão construir em tempo recorde linhas e mais linhas de metrô. Todo mundo sabe que é preciso ser mais consciente. E por falar em consciência, sempre me pergunto por que algumas pessoas têm carros tão grandes? Jipes, pick ups. Seria por precaução? Afinal, numa cidade como a nossa, nunca se sabe quando será preciso transportar um tronco de jacarandá, não é mesmo? Outro dia estava na sala de espera do médico, naqueles dias que você não tem vontade de conversar com ninguém. Enquanto eu folheava a Caras e descobria que o Gugu foi para Disney pela terceira vez (este ano), a televisão mostrava o trânsito caótico de São Paulo. Imagens de helicóptero, aquelas coisas. Indignada, a mulher sentada ao meu lado tentou puxar assunto. Afinal trânsito e previsão do tempo são os assuntos recordistas dos elevadores, halls e salas de espera. Lá foi ela: isso é um absurdo, São Paulo vai parar, blábláblá. Irritada, olhei para a fulanita e perguntei: você chegou aqui de carro? Sim, ela respondeu. Ah tá…respondi fazendo meu biquinho da indignação. Ela entendeu que dali em diante, não haveria mais diálogo. Pois é. Eu que tenho carro, não me dou ao direito de reclamar do trânsito e acho um saco esse papinho. A culpa é do governo? Talvez. Das montadoras? Hum, hum. Mas quem afinal está lá segurando o volante às oito e meia da noite? Não sou eu e você? Outro dia enquanto estava parada, prometi a mim mesma: a cada hora que eu passar engarrafada, vou pensar em alguma solução para o trânsito ao invés de reclamar. Montar um blog onde as pessoas possam postar soluções, roteiros para pegar carona, evitar os horários de pico (das seis da manhã à meia-noite), sei lá, alguma coisa. Li outro dia uma matéria dizendo que os áudio livros triplicaram as vendas, porque as pessoas ouvem a narração enquanto estão no trânsito. Pois para mim isso é o cúmulo da preguiça em dois assuntos: primeiro, preguiça de ler. Depois, preguiça de solucionar alguma coisa a não ser o seu próprio tédio.
Um reclama, o outro reclama e aí alguém solta uma daquelas respostas sem sentido: pois é…não é mole…é ou não é?  E esse papo verde então? Que saco. Tudo é verde: a sacola do supermercado é verde, o detergente é verde, o amendoim é verde, meu porteiro é verde (não sei o que ele tem comido). Veja bem, até o posto de gasolina está dizendo que é verde. Oi? Ah tá, você enche o tanque e em troca da emissão de muito carbono, eles plantam uma árvore. Só tem um detalhe: até a mudinha crescer, você já morreu de velhice ou asfixia. A verdade é que muita gente está pegando carona no tsunami verde para lucrar. E pouca, mas pouquíssima coisa tem sido feita de verdade. A essa altura você pode se perguntar: mas e você, indignadinha da estrela, o que tem feito? Não muito, eu confesso. Se eu compro roupa de brechó é porque eu acho legal, não porque é eco friendly. Aliás, ô palavrinha besta essa. Sim, eu queria fazer muito mais. Reciclo em casa, mas me recuso a fazer arte com potinho de iogurte (porque para mim  arte com material reciclado é a coisa mais horrenda da terra). Minha última eco ação foi ressucitar a minha bicicleta. Passava os finais-de-semana grudada nela, até roubarem um pneu na garagem do prédio (tenho certeza que foi vingança da jabiraca da vizinha por causa do barulho da última festa). Mas mesmo a bike não é o suficiente. Porque em uma cidade como São Paulo mesmo quando se descobre uma boa solução, ela logo vira um risco. Outro dia um amigo meu foi atropelado na Nove de Julho. O motorista desceu do carro assustado e disse ao ciclista: “ tá maluco, cara? Acabei de pagar a última prestação desse carro!” Checou se estava tudo bem com o pára-choque do Toyota 3.0, airbag duplo, freios ABS e entrou no carro de novo. Detalhe: além de canalha, o cara era médico. Pois é amigos, estamos longe, mas muito longe do ideal. Porque o problema da cidade não são só os carros e o problema do mundo não é só a poluição. Somos nós também. Lembram daquele desenho do pateta, que quando entra no carro para dirigir se transforma e fica bem doidão? Tenho a impressão de ver milhares de patetas transitando pela cidade. Talvez eu mesma seja um deles. E não é só isso, tem mais. Muito mais. Tem também o problema do…Ei, ei, peraí, quem foi que desligou o computador? Eu ainda não terminei de escrever a minha crônica! O quê? Economizar energia? Cacete…

Ana Reber é cronista do Blônicas.

Escrito por Blônicas às 19h30
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Pílula de lavar roupas.

De Cléo Araújo.

Foi o Papa quem disse...
A máquina de lavar roupas teria feito mais pela liberação da mulher no Século XX do que a pílula anticoncepcional. A afirmativa, provavelmente patrocinada pelo OMO e feita num link “fofo” com o Dia Internacional da Mulher, me causou uma dúvida dia desses: a que máquina estaria Bento XVI se referindo exatamente? Sim, porque uma narrativa envolvendo o tal eletrodoméstico pode se revelar tão complexa quanto a dos quarenta anos de peregrinação do povo hebreu pelo Egito.
Eu me considero uma mulher moderna. Não altamente tecnológica, mas razoavelmente contemporânea. E apesar de achar afirmações que liguem a independência feminina ao uso de ferramentas do lar um tanto sexistas, estou com Betty Friedan e não abro no que se refere à alegria de, graças a essa geringonça, poder trocar a roupa de cama duas vezes por semana. Adoro um lençol cheiroso.
Sei que um dia, como tudo na vida, minha maquininha velha de lavar roupas modelo standard se foi. Não valia a pena consertar. Eu precisava de uma máquina nova. Deu-se início à saga.
O problema começou quando eu me dei conta de que simplesmente não sabia mais qual a voltagem da tomada na qual a máquina antiga estava ligada. O longo tempo de convivência faz a gente esquecer esse tipo de miudeza. Bom, era 220V ou 110V? As opiniões eram muitas. O zelador dizia que no prédio não havia tomada 220V. O colega de trabalho explicou que geralmente os pinos assim ou assado, de três pontos, chatos e com inclinação de 25º oeste costumam ser 220V. Ou não. Bom, o negócio foi chamar uma espécie de ghostbuster com um aparelhinho muito simpático que, enfiado na tomada, revelou, em dois nano-segundos: “é 220V, senhora”. Valor da informação: vinte reais.
Muito bem, agora basta eu comprar uma máquina de 220V que tenha uma tomada com pinos assim ou assado, de três pontos, chatos e com inclinação de 25º oeste, certo?
Entro no site da loja para iniciar a pesquisa. A primeira prova era: “de quantos quilos é a máquina que a senhorita deseja? Até 8,5? De 9 a 12? Mais de 12?” Olha, eu sei que a minha era mais ou menos desse tamanho aqui, ó, mas não sei quantos quilos ela lavava, não... Chuto “até 8,5”.
Bom, eu preciso de uma máquina que tenha abertura frontal, porque em cima dela fica a secadora. Mas as máquinas de até 8,5 com abertura frontal são infinitamente mais caras do que todas as outras opções do site. Em alguns cliques descubro o porquê: não se tratam essas de meras lavadoras. Elas são lavadoras e secadoras. A única lavadora só lavadora, que lava até 8,5 quilos com abertura frontal que existe é... 110V, claro. E isso a gente já sabe que lá em casa não serviria. Ou seja, me vejo obrigada a arrematar a máquina mais cara de toda Web - modelo Prime WD1403RD. E isso significa - e eu fiz essa escolha conscientemente - que agora eu tenho duas secadoras.
Muito bem... Previsão de entrega – nove dias. Lá vou eu para 5àSec. Cerca de sete dias depois da compra, me chega a maravilha. Com muito sacrifício ela entra em casa e agora o problema é outro: o que fazer com o cadáver da máquina velha? Ligo para um, ligo para outro e descubro um interessado, mas que só pode buscá-la dali quatro dias. Arrasto a máquina velha para o corredor, escorrego a nova para o local onde ela viverá e abro a sua caixa na busca de um manual que me indique uma assistência técnica autorizada a fazer a instalação desse esplendor da modernidade. Como essa informação não se encontra no manual, ligo para o SAC. “Tecle 1 para celulares, 2 para antenas parabólicas e compressores de ar, 3 para máquina de lavar roupas e satélites geoestacionários...” Enfim, chego a um ser humano. “Para senhora estar solicitando a instalação, a senhora precisa estar tendo uma tomada de três pinos (“ufa, isso eu tenho”) e duas saídas de água, isso foi informado para a senhora?”.
É claro que isso não me foi informado. E é claro que eu não tenho duas saídas de água. O zelador, com dó de mim, explica que existem conexões que transformam torneiras simples em seres mitológicos de duas cabeças. Bom, vou atrás de um “T”, esse é o nome da coisa. Mas um amigo me vê prestes a cometer esse despautério e diz: “não!!!! O “T” dá vazamento. Compre uma torneira com duas saídas.”
Fui então para o site da Casa e Construção tentando comprar uma torneira. Aquela coisa de onde sai água, sabe? Pois bem... Descobri que elas podem ser de jardim, de lavatório, de mesa, de bica, de bica alta, de bica alta maruja, com arejador, sem arejador... Estou quase me desesperando quando vejo a foto do ser mitológico que imaginara nos meus mais doces sonhos. Agradeço ao Papa quando leio “Torneira de Tanque para Máquina de Lavar 1131 C23 Cromada”. Só pode ser essa. Arremato uma. Ato contínuo, ligo para agendar a instalação. Mas descubro que, embora eles tenham a expertise de fazer a instalação de uma máquina chiquérrima, não têm, não sabem, não querem fazer a troca de uma torneira. Ou seja, antes de agendar essa instalação dos diabos, eu vou ter de convocar um encanador. E essa instalação vai me custar vinte reais.
Adoraria dizer que me imagino sorrindo, de cabelos arrumados com bobs, maquiada, de unhas feitas e com um avental cheio de florzinhas, posando toda faceira e radiante ao lado de minha nova máquina de lavar. E secar. E que cuida de algodão, algodão leve, sintéticos, delicados, lã, seda, edredom e ainda me oferece 11 botões com as mais variadas funções, como sensor automático de carga, direct drive front load, mult temp e baby care.
Mas, depois de descobrir que os meus três pinos não eram exatamente os três pinos que eu precisava e que a voltagem da tomada – pasmem! - era, no final das contas, 110V, eu sou obrigada a discordar do Papa.
Meu voto, Vossa Santidade, vai para a pílula anticoncepcional.

Cléo Araújo é cronista do Blônicas.

Escrito por Blônicas . às 17h24
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Um dia aí.

De Bianca Rosolem.

Eu errei toda errada e não pedi desculpas. Saí por aí de salto alto tropeçando em cada buraco da calçada. A cada novo solavanco eu perdia fragmentos de paciência e restos da boa vontade. Quando sentei no bar do final da rua eu já não tinha mais nada de bom.

Eu bebi de boca cheia e sorri para o inox embaçado e oleoso do balcão. Agora, eu só poderia viver. Não precisaria escolher alguma virtude e fazer dela meu estandarte esfarrapado.

Nos últimos dias ouvi muitas opiniões não requisitadas ao meu respeito. Eu agradeço a todos por isso. Eu decidi nada querer e ninguém acompanhar. Joguei a agenda de telefones pela janela do ônibus esta tarde. Ainda me debrucei no vidro com o intuito de visualizar aquela descendo, lenta, até se juntar a toda merda flutuante do rio Tietê. “Apropriado” pensei. A liberdade me assustou e fiquei algumas horas dentro do ônibus. O cobrador gostava de ficar olhando minhas pernas e não me pediu para descer. Seus olhares indiscretos nem sequer me constrangeram como deveria.

Eu vi a cidade anoitecendo e não desejei nenhum retorno junto dos demais. Eu não olhava para trás. Aprendi isso com a vaga lembrança de meu pai. Um dia ele foi do mesmo jeito. Ele não viu minha mãe muito chorar sentada na cama. Ele não viu nada. Ele foi.

Eu olhava da janela a assimetria da cidade em movimento. Eu não pensei sobre muito. Eu apenas senti tudo e este sentido maior, quase uma perversão divina, me deixou imóvel naquele lugar. “Moça, vamos recolher o carro agora”, disse o cobrador e, ainda, falou algo beirando o obsceno, mas eu já descia as escadas. Estava escuro e poucas pessoas transitavam àquela hora no largo de Pinheiros. Tudo recendia a urina, cerveja e sujeiras variadas urbanas. Entrei no bar mais solitário e vazio.

Eu bebia e ninguém se deteve por mais de dez segundos sobre a minha existência. Alguns olhavam a TV e os outros seus próprios copos. Os olhares eram densos e futuros. Fechei meus olhos e busquei alguma imagem, algo que me fizesse querer parar. Eu tomei o último gole pedindo para que o senhor do outro lado do balcão - com aquele pano tão imundo nos ombros - enchesse novamente o copo.

Eu não queria o dia novamente outro, eu queria uma eternidade sem saber. Eu poderia ali sentar e beber pensando sobre nada e prolongar isso pelas idades. Queria desgrudar aquele desejo passado e alguns sentimentos já tão sem valia e utilidade. Eu fiz o ritual de minha morte e toda de cinzas me debrucei sobre o balcão de algum lugar, feio e ermo, tarde da noite. Escorreguei meus cotovelos e olhei bem fundo para meus olhos vulgarmente refletidos naquele aço: Nada demais.

Bianca Rosolem é cronista do Blônicas.

Escrito por Blônicas . às 09h48
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Doce vida.

De Nelson Botter Jr.

O encontro estava marcado para as 15 horas, horário do recreio.
Ela de fitinha rosa nas madeixas loiras, camisa branca de botão e saia azul do uniforme escolar, lancheira do New Kids On The Block e Melissinha.
Ele com seu cabelo ruivo escorrido e penteado para o lado, óculos de aro redondo, uniforme limpinho, sardas e uma sacolinha na mão.
Quando o viu se aproximando, ficou ansiosa. Ele, por sua vez, tinha as pernas trêmulas.
Um pequeno sorriso apareceu no rosto da garota, enquanto ele mal a olhava nos olhos.
Aproximou-se, cumprimentando-a timidamente com uma das mãos levantadas.
Ela estava linda. Uma bonequinha, um verdadeiro sonho com aquelas bochechas rosadas e um sorriso encantador.
- Achei que você não ia vir.
- Por quê? Que bobo...
- Ah, sei lá.
Ela ficou tímida e ele mais ainda.
- Trouxe isso pra você – ele falou, tirando de dentro da sacolinha um lanche Mirabel.
- É de chocolate? – seus olhos brilharam.
- Não... – ele titubeou – é de morango... tem problema?
Ela pensou um pouco.
- Claro que não, eu gosto de chocolate e também gosto de morango.
Ele sentiu-se aliviado e parecia caminhar nas nuvens quando a viu pegando o pacote de biscoito para guardar na lancheira.
- Obrigada.
- Se você quiser, posso te trazer um Mirabel de chocolate amanhã...
- Jura?
- Sim, juro.
- Eu quero!
- Tá bom, eu trago.
Silêncio. Constrangimento no ar pela falta de assunto.
Ele pensou, pensou e, então, encheu-se de coragem.
- Posso te dar um beijo?
Ela corou. Ficou em silêncio. Então sorriu de leve, charmosinha.
- Por que você quer me beijar?
 Ele não sabia o que dizer. Não sabia como falar que aquele beijo era um gesto de carinho, que a achava uma menina muito legal, doce, meiga... Simplesmente não sabia como dizer isso. E não disse.
- O Alexandre falou que beijou seu rosto na semana passada, então eu também queria um beijo seu...
O semblante dela se transformou. De anjinha a diaba em segundos. Com o olhar, fuzilou o garoto, que não sabia o que fazer pra reparar a bobagem.
Ainda tentou falar algo, mas as palavras não lhe vieram.
O que veio foi um tapa. No rosto. Fraco, mas forte o suficiente para disparar seu coração de garoto inocente.
Ele a viu sair em passos largos e furiosos.
Lá se foi sua menina, seu beijo e seu Mirabel.
Ao ajeitar seus óculos, começou a descobrir o quanto as mulheres são misteriosas e absurdamente tentadoras.
E tinha certeza, sabe-se lá como, mas tinha, que amanhã ela estaria ali, novamente, esperando pelo Mirabel de chocolate.

Nelson Botter Jr. é cronista do Blônicas.

Escrito por Blônicas . às 14h37
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O lutador (The wrestler).

De Silvio Pilau.

O LUTADOR (THE WRESTLER).
De Darren Aronofsky. Com Mickey Rourke, Marisa Tomei e Evan Rachel Wood.

Pela carreira que construiu para si nos anos noventa, Mickey Rourke acabou sendo considerado, por muitos, nada mais do que um galã que teve um breve período de sorte sucesso na década anterior. Mero engano, como fica comprovado em O Lutador, retorno do ator ao primeiro time da indústria cinematográfica.

O filme é dirigido de maneira impecável por Darren Aronosfky, que adota uma abordagem praticamente documental com a câmera na mão, imergindo o espectador no desolador cotidiano do protagonista, um homem preso a uma vida dura e sem perspectivas de retomar o destaque que um dia teve. Assim, a opção do diretor em constantemente posicionar sua câmera às costas do personagem enquanto este caminha funciona de maneira a reforçar o tom naturalista e tornar o público uma testemunha dessa jornada.

Além disso, Aronofsky e o roteirista Robert Siegel demonstram maturidade narrativa ao entregarem exatamente o necessário para o espectador. Tanto em relação ao passado quanto no que tange os sentimentos dos personagens, O Lutador jamais torna-se excessivamente expositivo para o público, que acaba tendo que preencher as lacunas por si só. Mais do que sobre como o personagem foi parar ali, o filme foca na maneira com a qual Randy começa a compreender seus limites e o seu lugar no mundo.

O aspecto mais tocante de O Lutador talvez seja o fato de que o próprio protagonista reconheça ser o responsável pela sua vida se encontrar de tal forma. Randy sabe que errou e, provavelmente pela primeira vez em sua existência, tenta reparar esses erros. Pela primeira vez, torna-se um lutador também fora dos ringues, disposto a revidar os golpes da vida – e, nesse raciocínio, o título do filme revela insuspeitada beleza e poesia. O Lutador é, em essência, a jornada de auto-conhecimento de um homem descobrindo realmente quem ele é.

Essa irrepreensível construção de personagem jamais funcionaria caso não fosse representada com talento e sensibilidade. Por isso, o tão propagado retorno de Mickey Rourke é mais do que justo. Com uma trajetória de vida semelhante a do protagonista, Rourke traz incrível sinceridade ao personagem em uma composição é rica em pequenos detalhes, como o modo de mexer o cabelo. Aronofsky ainda explora a face machucada e as cicatrizes do ator, mantendo a câmera sempre próxima do rosto, como forma de realçar os sofrimentos de Randy – e criando um forte paralelo com a vida real do astro.

No entanto, seria injusto afirmar que Mickey Rourke carrega o filme nas costas. Marisa Tomei está igualmente brilhante, construindo uma personagem com muitas semelhanças com Randy e, em incrível forma para sua idade, ilumina a tela, entregando uma interpretação repleta de carisma e sutileza. Enquanto isso, a talentosa Evan Rachel Wood consegue, em seu pouco tempo em tela, uma atuação densa e, acima de tudo, importante por ser parte fundamental da jornada de descobrimento de Randy.

Como se não bastassem todas essas qualidades, O Lutador ainda funciona como uma interessante visão sobre os bastidores da indústria de luta-livre. Darren Aronofsky não apresenta o esporte como uma armação capaz de machucar e que exige muito dos atletas. Alguns dos melhores momentos de O Lutador saem dos momentos passados no ringue (a luta contra o barbudo é o ponto alto) e no universo que o cerca, até por ajudarem a compreender melhor o personagem (reparem como Randy está sempre cumprimentando alguém, como para reforçar o respeito que os outros têm pelo protagonista).

O Lutador é um retrato honesto e triste de uma pessoa comum que busca ser mais do que pode ser. Aronosfky e Siegel entregam, provavelmente, a mais complexa construção de um personagem desde que o Daniel Plainview de Sangue Negro. O cineasta jamais julga seu protagonista, e o olhar repleto de ternura que surge em relação a ele vem unicamente da sintonia entre Mickey Rourke e a platéia. Um sinal de que seu retorno, muito mais que sorte, tem uma razão primordial: talento.

Nota: 9.0

Silvio Pilau é cronista do Blônicas.

Escrito por Blônicas . às 12h52
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Escrito por Blônicas às 17h58
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