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A vida como ela é.

De Ana Reber.

Ia mudar de casa. Enquanto andava pelo imóvel vazio, planejava a mudança. Olhando para as paredes achou que a pintura seria mesmo necessária. Se imaginou ao lado do amado reformando o apartamento. Os dois de macacao jeans, ao som de um bom jazz. Como num romance água com açúcar, eles brincariam de pega-pega correndo pelo apartamento, falariam bobagens ao pé do ouvido, dançariam agarradinhos e depois de pincelar o nariz um do outro com tinta branca, iriam para o quarto dar umas pinceladas em cima do colchão ainda com o plástico em volta. Planejou este momento e aquele começo de uma nova vida. O que veio porém não foi aquilo que havia imaginado. O amado acabou tendo que viajar a trabalho e quem se incumbiu de pintar o apartamento foi um pintor indicado pela zeladora. Ouviu a campainha tocar e foi até a porta atender. Ao invés do príncipe encantado com macacão jeans um pouco apertado salientando a bundinha perfeita, se deparou com um homem gordo, de chinelo, com o elástico da bermuda esticadíssimo. 110 quilos de massa corrida, era o que ele era. Enquanto falava sobre o material que precisaria para fazer a pintura, saíam perdigotos de sua boca grande e mole. Arrastando o chinelo, o homem tirou um radinho da mochila e ligou um axé. Ela rapidamente pegou a bolsa e tratou de sair do apartamento. Qualquer coisa, até mesmo encarar a loja de materiais de construção era melhor do que aquilo. Nelson Rodrigues tem toda razão, a vida como ela é.

Ana Reber é cronista do Blônicas.

Escrito por Blônicas . às 14h55
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Fetiches.

De Lusa Silvestre.

Numa noite dessas borocoxôs, noites sem esperança, M., de bermuda e chinelo de dedo, toscão, entrou na locadora. Escolheu que DVD ia levar, foi na bancada, tudo normal. Daí Ela veio e perguntou o número da ficha, pegou o filme pra registrar, papo vem, papo vai. Tudo normal.  Até que M. soltou um gracejo, piadinha simplória. Ela riu, e quando Ela riu apareceu que usava aparelho nos dentes. Aí M. sentiu um troço subindo, e para recuperar o fôlego, disse:

- Tá gostando de usar aparelho ?
- Como assim, tou gostando ?

Pergunta idiota, “tá gostando de usar aparelho?”.  É o mesmo que perguntar “e aí, tá curtindo o furúnculo?” . Bola fora. Barulhinho de apito na sonoplastia reforçando a gafe. Seguiu o papo. Conversaram mais um pouco. Até que M. comentou de um filme, Ela sorriu de novo – não por achar graça no filme, e sim por cumplicidade, por gostarem da mesma coisa.

Ela levantou de trás da bancada, e veio meio mancando para pegar o filme citado, na prateleira. Quando Ela saiu de trás do balcão, outro impacto: gesso. Uma linda e já meio encardida botinha de gesso, perfeitinha, indo do menisco até os dedinhos pintadinhos de vermelho descascado. E pensar que a noite não dava esperança.

Aí Ela pegou o filme na mão e foi ler a capinha, ver quem estava no elenco, essas coisas de quem gosta de cinema. Afastou a caixa do filme um pouco dos olhos, e M. daí teve um estalo, imaginando o que estava por vir. Exatamente: Ela abriu uma gaveta na bancada e pegou os óculos. Óculos ! Um lindo e sóbrio par para ler de perto.

M. não perdeu tempo. Pá, na hora: convidou pra sair. E começou a namorar com Ela naquela noite mesmo. Fez bem.

Um mês depois Ela tirou o gesso.  Deu um ano, tirou o aparelho. E já ia vendo cirurgia pra corrigir o olho quando M. resolveu agir, antes de perder absolutamente tudo:

- Não, os óculos não. Pelo menos os óculos !

Lusa Silvestre é cronista do Blônicas.

Escrito por Blônicas . às 17h52
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CONCURSO CULTURAL DE CRÔNICAS.

Participe do Concurso de Crônicas do Blônicas enviando sua crônica em tema livre para nós!!!

As 5 melhores crônicas serão premiadas com livros, além de serem publicadas aqui no Blônicas.

Envie sua crônica para blonicas@bol.com.br até 5 de outubro.

As crônicas devem ser escritas em fonte arial, tamanho 12, máximo de 3 mil toques.

Envie apenas uma crônica.

Prêmiação:

1o colocado - 1 livro "Blônicas" (Editora Jaboticaba) + 1 livro "O Senhor March" de Geraldine Brooks (Ediouro) + 1 livro "Garoto Linha Dura" de Stanislaw Ponte Preta (Editora Agir) + publicação aqui no blog.

2o a 5o colocados - 1 livro "Blônicas" (Editora Jaboticaba) + 1 livro "O Senhor March" de Geraldine Brooks (Ediouro) + publicação aqui no blog.

Dúvidas podem ser enviadas para o mesmo email.

A comissão julgadora será formada por cronistas do Blônicas.

Apoio: UOL  -  EDIOURO  -  EDITORA JABOTICABA  - EDITORA AGIR

Escrito por Blônicas às 13h08
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Peter Pan barbudo.

De Bianca Rosolem.

Lá vai o menino, já é um pouco grande demais. Entenda, 29 aninhos, algumas faculdades incompletas e apenas uma concluída. Mas, só um minuto, tenho que esclarecer que esse rapaz grande que caminha de cuecas pela sala em direção da cozinha não trabalha. Não todos os dias. Não que ele seja preguiçoso, ele só é contra os valores burgueses da sociedade. E, também, ele é adepto da teoria da mais-valia marxista. Assim, ele não vende sua mão-de-obra de maneira barata para adquirir bens e status social. Ele sente quase que desprezo por aqueles pobres que, diariamente, cumprem horário para o trabalho em troca de salário.

Na cozinha simples, casa de bairro com quintal e um filhote de cachorro – seu mais novo amigo – sua mãe faz o almoço, já é quase meio-dia. Ainda sonolento, o menino grande olha para a mãe “daquele jeito”. Sim, ele aprendeu com o cachorro. O grande e gorduroso coração da mãe se enche de ternura; e ela aquece a frigideira para fazer um pãozinho com manteiga quentinho. E toda ela, margarina e mãe, derretem na visão do seu filho “tão moço”. A cena é bonita, ele sentado na mesa olhando a mãe cozinhar e cuidar de toda a casa e da família. Ele certamente a ama muito. E para prestar uma homenagem a essa gloriosa figura, ele tatuou o nome da mamãe em um lindo coração flamejante, no antebraço.

Alimentado, ele toma banho e deixa a barba por fazer. Deixa outras muitas coisas para fazer depois. Muito depois é o tempo suficiente para esquecer. Agora ele acende um baseado, veja bem, dinheiro sempre muito bem aplicado. Agora, é exigir demais do narrador pesquisar os pensamento do nosso menino neste momento. São muitos, também curtos e inacabados. Talvez um tanto quanto confuso, mas ele os acha estimulantes. Mirabola alguns projetos e tira algumas notas da guitarra. Mais tarde ele irá mostrar para seus “trutas” e quem sabe ensaiar um som com aquele riff.

Após, ele pondera sobre passear com seu cachorro ou fazer alguma atividade física. Mais tarde, certamente, alguma festinha na casa de alguém. Comer alguma gatinha e, com sorte, ele conhece umas dessas mulheres com espírito de “mãe-salvadora-de-sem-rumo”. É divertido no começo. Só início, meio e fim já é demais.

A tarde ainda é bonita e ele sai para um passeio com seu filhote canino. Enquanto caminha, pensa em algumas premissas que norteiam – se é que podemos algo classificar – seu exíguo life style. O principal, digamos que este seja o conceito basilar da sua “filosofia” de vida é, claro, jamais se relacionar. Criar vínculos nunca. Isso implica compromisso, que é rotina, que é cotidiano, e é... trabalho. Arrepio galopante, ele rejeita até pensar.

O garotão não faz planos, ele quer ser livre. O mundo é enorme, como em comerciais de televisão. Aqueles que são longos, com jovens de frases curtas e feitas: Seja Livre. Coisas assim. É muito para conhecer e tempo não se pode perder com algo trivial demais como trabalho, planos, contas e tudo o mais. A hora é agora; aproveitar; curtir; ser feliz: “Uhuuuu”.

Logo será hora do jantar, da festa, mais alguma noite igual com bebedeira e nada realmente novo para dizer. Ele caminha e respira aliviado, afinal, ao entrar pela porta sentirá o cheiro do mundo imperturbável. Ali naquele pedaço do universo a vida permanecerá constante e agradável. Sempre existirá a casa da mãe para voltar. E assim vive o menino-nunca-homem. Sem contas para pagar, sem relacionamentos para consertar, sem planos para sonhar, sem muito se aborrecer.

Neverland, a vida é boa.

Bianca Rosolem é cronista do Blônicas.

Escrito por Blônicas . às 10h41
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O cheiro do pólen.

De Cléo Araújo.

Eu ouço Moby para me distrair do congestionamento quando presa embaixo do Vale do Anhangabaú.
Adoro saborear a caipirosca de tangerina do Spot enquanto aguardo uma mesa para um ensolarado almoço de sábado.
Divirto-me a valer entre as geladeiras de vieiras e ostras do Santa Luzia.
Mas confesso que os acordes melódicos do violino de uma música country, a pizzaria com luzinhas amarradas às árvores na praça e o mercadinho colado na padaria mexem com qualquer gene aqui dentro de mim. Talvez seja a lírica, talvez sejam as histórias contadas entre uma fatia e outra, talvez seja o verde mais verde das alfaces. Não sei bem. Sei que é esse tipo de coisa que leva quem é do oeste de volta ao oeste. Talvez porque, numa visão romântica, ele guarde o pôr do sol - o de lá, penso eu, é uma das coisas mais lindas que há. Talvez porque seja assim em qualquer oeste do mundo; de uma igrejinha de madeira em Albany, Oregon ao banco da praça de Mirante do Paranapanema.
Nada de específico faz de mim uma garota do campo, mas, ao mesmo tempo, tudo de genérico me faz assim. Eu gosto da despretensão do sábado à tarde. Eu gosto do barulho da cigarra. Eu curto a janela do carro aberta no passeio da sexta à noite pelas ruas da cidade. Aí, toda vez que me permito, me descubro assim: descalça, num churrasco e tomando uma cerveja. A coisa menos metropolitana que se pode conceber.
Eu sinto falta do som do grilo lá fora, da chuva de meteoro, do latido surdo do cachorro no meio do silêncio da madrugada, da musiquinha do caminhão de gás, da manicure da esquina, das festas em chácaras.
Olho aqui em volta. Quase tudo de objetivo e adulto sobre mim está aqui. Da conta do gás (encanado) ao cabeleireiro preferido. Não há como negar. A metrópole soube me vencer com classe.
Mas se um dia tudo desaparecer numa nuvem de fumaça, aposto que o que sobrará de mim será essa parte. A minha amálgama. Na caixa preta de mim se encontrará algo como o cheiro do pólen, a raiz da cidade que cresceu sem espaço aqui dentro. Nesse lugar – que com tantos anos já passados talvez só exista dentro da minha cabeça - eu me permito ser um pouco mais eu mesma.
Com tudo de caipira e bucólico que isso possa significar.

Cléo Araújo é cronista do Blônicas.

Escrito por Blônicas . às 11h13
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Ele é casado.

De Xico Sá.

As mulheres solteiras preferem mesmo, à vera e cientificamente, seduzir os homens casados. É o que consta em mais uma dessas pesquisas malucas da gringa. Agora é coisa de doutores em psicologia da Universidade de Oklahoma (EUA). Como dizia meu avô João Patriolino, lá do município do Exu: “Vôte, capirôto!” (algo como vade-retro satanás!).

Repare bem, graciosa cria da nossa costela: 90% das mulheres passam a achar um homem mais tchan, mais cobiçável, mais tampa de Crush, quando descobrem que ele é casado. Os homens que portam aliança, assobiam os números da enquete, tornam-se até quatro vezes mais atraentes aos olhares das fêmeas.

Besta é tu que escondes o anelão dourado no bolso ao flanar pela noite, bares e festas. A considerar o levantamento gringo e a intuição de umas raparigas nacionalíssimas consultadas aqui pelo meu Databoteco, a sagrada aliança é mesmo a roda da fortuna, do sexo, do amor e da sorte. Não tem nada de bambolê de otário, como rezava a lenda popularesca das antigas.

Xico Sá é cronista do Blônicas.

Escrito por Blônicas às 11h26
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Devaneios para um feriado.

De Bianca Rosolem.

Eu só decidi manter um grande segredo. Então eu acordava de madrugada como se fosse dia claro, saía e respirava o ar que descia gelado e novo das montanhas. Acompanhava o sol e de certa forma participava da criação do mundo. Era o que então eu pensava, sorrindo discretamente, enquanto olhava o verde, o azul, e uma penumbra dourada que transbordava pela janela da cozinha e fazia o bolo de mandioca ficar bronzeado.
O cheiro do café tomava a manhã e desaparecia lentamente. As abelhas, as flores, tudo pareceria só meu, criado por mim e por alguma outra coisa também mágica do universo. Caso eu ainda estivesse sonhando, parecia muito real. E quem poderia me dizer o contrário, se eu estava sentindo e vendo toda aquela vida muito honesta e calma por todos os meus poros e vivia a paz?
E ouvia alguns bichos que pareciam ensaiados, mas também tinha algo de improvisação, quando o besouro pousou no livro, e me assustei, e todos riram. Eu também.
Era alegre, morno, com cheiro de mel e café, cerveja gelada, um pulo na piscina, leve arrepio, cheiro de grama cortada, sorrisos de interior, música e nostalgia, talvez alguma confissão sobre o invisível.
Daí eu sei que gosto de ficar só e quando perto dos amigos mais queridos percebo algum privilégio em manter-me fiel à verdade da vida, que mesmo dura, nos brinda com momentos tão completos que vale então tudo.
O resto é só a vida mesmo, vai compreender... .

Bianca Rosolem é cronista do Blônicas.

Escrito por Blônicas . às 14h10
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De Istambul a Istambul.

De Giovana Madalosso.

 Ao passear por Istambul, tenho a impressão de estar caminhando através do tempo. A cidade, que já foi Bizâncio e Constantinopla, é feita de camadas justapostas de seus inúmeros passados. Numa única rua, vejo casas bizantinas profanadas por arcos romanos, abrindo-se para calçadas de pedra que devem datar de um período ainda mais distante.

Os narizes estão em todo lugar. Grandes, aduncos, saindo do meio das sobrancelhas como cotovelos. Não importa o sexo ou a idade do cidadão. O nariz impera. Assim como o bigode prevalece nos homens e o lenço na cabeça das mulheres.

Viro a esquina e dou de cara com a Basílica de Santa Sofia. Seus minaretes cortam o céu azul como flechas. A abóbada brilha sob o sol. Sou a única pessoa lá dentro. O silêncio sepulcral e os mosaicos, delicados demais para terem sido feitos por mãos humanas, fazem tremer a estrutura sólida do meu ceticismo. Saio da basílica levando algo que não tinha quando entrei.

Lá fora, a brisa. A temperatura perfeita de um verão. Quando vejo, estou no meio de um mercado, onde figuras centenárias vendem tapetes a preço de tâmaras. Um dos vendedores me oferece um café. Ele lê a minha sorte na borra. Vida longa e sucesso, ele me diz, olhando para os grãos estranhamente agrupados no fundo da xícara.

Ao sair do mercado, sou convidada para assistir a uma cerimônia dervixe. Alguns homens, usando vestidos rodados e chapéus cilíndricos, se dispõem em círculo sobre um tablado. Quando a música começa, eles rodam em torno do próprio eixo, como bailarinas numa caixa de música. As mãos vão subindo lentamente junto ao tronco, uma palma voltada para a terra, outra para o céu, girando, girando, até transformar o corpo num fio condutor entre o mundano e o divino.

Fim do dia, chego ao hotel. A janela do quarto se assemelha a uma pintura. Através dela, vejo o Bósforo, com barcos e regatas navegando tão calmamente que parecem estar parados. Lá no alto, uma estrela pinça a lua crescente. Me jogo na poltrona e descanso, embalada pelo barulho das águas.

Finalmente aterrisso em Istambul, no dia 26 de julho de 2009, às 16h40 no horário local.

Me instalo num quarto de hotel no centro da cidade. A janela não dá para o Bósforo, mas para um prédio de apartamentos. Através dela, vejo um homem sentado na varanda, sob uma corda puída de varal.

As camadas de passado vêm recobertas por outra, de tinta descascada, ferrugem e mato crescendo entre os vãos de cimento. Por cima dessa, há mais uma, feita de neons e placas coloridas, que tentam maquiar, em vão, a indisfarçável decadência.

Os narizes estão em todo lugar. Fora isso, não há muito em comum entre os passantes. As mulheres usam desde burca até saia curta, para deleite dos homens, que ficam visivelmente transtornados com um parzinho de joelhos.

Quando chego à Basílica de Santa Sofia, a fila para entrar dobra a esquina. Espero quase uma hora e, quando enfim piso lá dentro, descubro que o espaço está sendo restaurado. Um tapume cobre quase todo o interior da basílica. O pouco que sobra está tomado por grupos de excursão. Saio procurando pelos mosaicos, mas logo sou informada de que não existem mais. Foram destroçados durante a ocupação otomana e substituídos por arabescos iconoclastas, ao gosto de Alá. Saio da basílica levando algo que não tinha quando entrei: uma foto salpicada de cabeças de turistas.

Lá fora, 40 graus. A temperatura sufocante de um verão. Quando vejo, estou no meio de um mercado, onde só tâmaras são vendidas a preço de tâmaras. O resto custa caro, mas os vendedores estão dispostos a fazer qualquer negócio. Me perseguem pelos corredores, ofertando em todas as línguas. A arte de negociar é encantadora, mas também exaustiva. Vou embora de mãos abanando. Como ninguém me oferece um café, resolvo tomar um nas redondezas. Pergunto se alguém pode ler a minha sorte na borra. O garçom diz que não. Todos os funcionários ali são homens e só as mulheres podem fazer isso.

Pelo preço de 50 liras, consigo assistir a uma cerimônia dervixe. A experiência supera as minhas expectativas. Os seguidores de Mevlana dançam à luz de velas, dentro de um monastério do século 18. Ao final da cerimônia, abordo um funcionário do local e pergunto se os dervixes moram ali. Ele se esquiva da pergunta. Eu insisto. Ele acaba me segredando que o que vi não são dervixes. São bailarinos que encenam a cerimônia como ganha-pão. Os autênticos dervixes dançam em lugares restritos ao público.

Volto para o hotel caminhando ao longo do Bósforo. O barulho das águas se mistura ao de buzinas, toques de celular e música eletrônica. De repente, um chamado rompe essa atmosfera. Pelo alto-falante da mesquita, uma voz chorosa conclama: venham rezar, venham rezar, Deus é único.

Istambul não era como eu imaginei. Ainda bem. A graça da viagem está justamente no imprevisível.

Giovana Madalosso é cronista do Blônicas.

Escrito por Blônicas . às 09h08
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