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Ô moralismo babaca!

De Bianca Rosolem.

É essa nossa juventude. Enquanto o País vive alto déficit de emprego, principalmente na faixa etária que abrange aqueles que são teens (porque hoje se é teen até os 30!), a molecada pensante do nosso país só é capaz de se unir para um ato de quase linchamento e estupro coletivo de uma garota de minissaia.

Pobre Mary Quant... Está agora se revirando no túmulo! Ela que ousou e liberou as pernocas femininas ao passeio público! A garota brasileira, do corpão, deve se cobrir toda então! Compre lá sua burca, pois hoje após tantos anos após sua invenção, a minissaia choca mais que corrupção e impunidade.

Ou isso tudo será um sintoma muito mais grave que a intolerância e falta de respeito ao próximo? Talvez essa horda estudantil universitária esteja tão anestesiada pela ausência de perspectiva que apenas é capaz de se revoltar em prol de moralismo barato, daquele que as telenovelas globais ensinam tão bem!

E vocês, hein, mulheres, xingando outra igual de PUTA, rindo de sua vergonha e exposição.  Onde foi parar a empatia das pessoas, essa capacidade tão humana que é capaz de nos colocar no lugar do outro?

Digo isso porque quando uso minis, sejam vestidos ou saias, eu me sinto linda, feliz, rebelde!  Porém, bem sei eu que um comprimento um pouco mais acima do joelho já é motivo para ouvir grosseria pelas ruas. Aí, para evitar a gastrite logo cedo, eu faço a elegante, e me visto como uma jovem senhora.

Será isso a vida em sociedade, viver de forma castradora? Afinal, onde está a malícia? Na saia, no olhar do outro, ou naquele que acredita ver rebolado quando na realidade você apenas não se equilibra tão bem no salto e na calçada esburacada?

Hoje eu tenho mais questionamentos que grandes opiniões. Nesse dia, eu só fico com essa grande nódoa na garganta, essa vontade de chorar por essa moça ridicularizada, por nossos jovens (eu também sou jovem) sem conteúdo, por esse País de hipocrisias.

Eu, menina enxaqueca -apocalíptica, só vejo essas doenças sociais, nossa desorientação e o culminar descendente de uma sociedade que nunca aconteceu. E se os ventos nos trazem o fim dos tempos, eles já bateram lá nos portões da UNIBAN.

Hoje eu saio de minissaia no umbigo e spray de pimenta.

Fala poeta, QUE PAÍS É ESSE?!

Bianca Rosolem é cronista do Blônicas.

Escrito por Blônicas às 17h11
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Concurso Cultural de Crônicas

Pessoal,

Foi muito difícil chegar a apenas 5 textos, pois tinha muita gente que merecia figurar entre as melhores crônicas.

Mas... regras são regras!

Portanto, além de analisarmos diversos aspectos relativos à qualidade do texto, também foi levado em conta o fator "a cara do blog".

Agradecemos a todos que participaram e prestigiaram nosso concurso, e também aos muitos participantes que enviaram mensagens de carinho e apreço ao Blônicas.

É pra vocês que fazemos este blog há 4 anos!

Também um muito obrigado aos escritores do blog que participaram do júri.

E aí vão os felizardos de hoje, mas fiquem ligados que em breve teremos mais concursos!!!

1- André Gravatá - "50 Reais Apertos"

2- Clara Vanali - "Maria Célia"

3- Cecília D´Ávila - "Tamanho Família"

4- Luis Fernando Mifô - "Corações"

5- Laura Luísa Medeiros - "Ao Despertador, Sem Carinho"

Durante a semana postaremos as crônicas vencedoras para que todos possam apreciá-las.

É isso aí, valeu pessoal e até a próxima!!!

Escrito por Blônicas às 23h11
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Anticristo e a arte.

De Silvio Pilau.

Fui ver o Anticristo, do Von Trier. Essa  não é uma crítica sobre o filme, não se preocupem. Na verdade, nem sei se gostei ou não do que vi. A obra do auto-proclamado “melhor diretor de cinema do mundo” pode ser uma verdadeira bomba ou uma obra-prima. Ela atende as duas definições. Difícil – se não impossível – defini-la. Certamente a grande maioria vai odiar. Muitos, porém, irão adorar. E centenas de outros vão pensar como eu: que estivemos diante de uma manifestação da arte em sua mais pura forma.
Já faz praticamente 24 horas que assisti e o trabalho de Von Trier continua me assombrando. Não consigo esquecê-lo. Saí da sala do cinema abismado, mas, principalmente, intrigado. Pensativo. Voltei para casa pensando no que havia assistido. Fui dormir tentando compreender na totalidade o que o diretor quis dizer. Aproveitei os intervalos do trabalho para buscar informações e opiniões que me ajudassem a montar a minha própria interpretação. Finalmente, cheguei à conclusão de que a conclusão não necessariamente existe. Explicações, no plural, sim. Uma, a definitiva, não.
E foi em meio a essas reflexões sobre o significado de Anticristo que me dei conta de que estive diante de uma verdadeira obra de arte. Posso até não ter gostado do filme, posso ter achado a escatologia de Von Trier um excesso, mas admirei o cineasta por fazer o que fez. “Anticristo” não é para ser assistido, mas para ser pensado. É preciso refletir sobre seus simbolismos e suas belas imagens. “Anticristo” é um filme corajoso que ousa cutucar o espectador e fazê-lo sair de seu marasmo intelectual.
Isso é arte. Arte não é Michael Bay ou Dan Brown. Não é entretenimento ou passatempo. A verdadeira arte é aquela capaz de instigar, de questionar. É a que faz a gente enxergar o mundo de outra forma. A que gera novas opiniões, que propõe pontos de vista diferenciados. Arte é o que nos leva a pensar, refletir, e que nos torna mais críticos. Arte de verdade é aquela criação que nos faz evoluir como seres humanos, que oferece ao menos um milésimo de uma compreensão maior sobre aquilo que nos cerca. E, de preferência, o faz através de perguntas, não de respostas.
É raro encontrar uma obra assim, em qualquer manifestação artística. A arte que causa mudanças é a arte subversiva, que teima em não se adequar a padrões. O objetivo da arte não é ser aceita, mas provocar reações. É ser, de preferência, contestada. De início, gerar repulsa, ódio, medo. Não apenas através do choque pelo choque. Isso qualquer um faz. Eli Roth acha que é gênio por mostrar sangue e tortura em seus albergues. Ele não é gênio. É apenas um sádico sedento por sangue. Seus filmes são vazios em reflexão. O Anticristo de Von Trier não. Roth mostra, Von Trier desafia. Roth apresenta, Von Trier provoca. Roth é um cineasta, Von Trier é um artista.
A imensa maioria vai odiar Anticristo não porque é um filme ruim, mas simplesmente porque não irá ao menos tentar compreendê-lo. Terá preguiça de pensar sobre ele. Não refletirá sobre o que assistiu ou sobre o que o artista buscou transmitir. Por preguiça, claro, mas também por medo. Um é consequência do outro. Como não querem pensar, não aceitam o que é diferente. O original dá medo. A inovação assusta. O novo traz receio. Tudo o que foge das fórmulas preestabelecidas é pretensioso. A pasteurização domina. O fast-food intelectual reina.
Lars Von Trier é o melhor diretor de cinema do mundo, como falou em Cannes? Não sei dizer. Provavelmente não. Talvez seja impossível apontar um. Mas ele está, certamente, entre os poucos cineastas capazes de criar verdadeira arte. De apresentar uma visão original e levar a plateia a refletir sobre aquilo que assiste. Von Trier faz cinema para inquietar, para provocar e para questionar. Por isso, mesmo que eu não consiga dizer se gosto ou não de seu último filme, posso dizer com segurança que o admiro por ter a coragem de ser um artista verdadeiro e único em uma época onde eles são tão raros.

Silvio Pilau é cronista do Blônicas.

Escrito por Blônicas às 13h14
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Então, é natal?

De Ana Reber.

Eu não tenho tido tempo para escrever. Mas como também não tenho tempo de ir ao banheiro, prometo que assim que der uma brecha, levo meu laptop para lá e já resolvo as duas coisas ao mesmo tempo. Alguns amigos reclamam de não me encontrar. Pois saiba que nem eu me vejo mais. Quando acordo e olho para o espelho do banheiro, meu reflexo já está na cozinha mandando café fervendo pela goela abaixo. O que me alivia é saber que eu não sou a única. A falta de tempo é mesmo o mal da nossa época. Eu falo com a minha mãe entre um farol e outro, leio enquanto almoço, trabalho enquanto estou dormindo, namoro no tempo de um café (expresso). Por isso resolvi escrever essa carta de desabafo a você, Papai Noel. Desculpe a sinceridade, mas dá para largar a coxa de frango, subir no trenó e acelerar esse processo natalino? Tô com pressa de fim de ano. Tô com vontade de um pouco de calma daqueles dois dias em que o mundo inteiro para pra cortar o peru, se embebedar com a família, esquecer do trabalho, procurar os presentes debaixo da árvore, ou no meu caso procurar a própria árvore. Já que a minha família nunca foi muito ligada nesse lance de tradição. Quero que cheguem logo aqueles dois dias em que todo mundo já parou de se esmagar no shopping pra comprar presente, o panetone já está na dispensa, o trânsito está mais tranquilo e a minha avó já está fazendo bobe no cabelo. Eu juro Papai Noel, se você adiantar o natal, eu aguento qualquer coisa: revejo pela quadragésima vez todos os filmes do Didi, a Xuxa vestida de princesa, a missa do Galo. Não precisa nem trazer presente, só um pouco de sossego já tá bom demais. E por falar em presentes, vou aproveitar para tirar uma dúvida que eu tenho desde os cinco anos: como você faz para chegar a tempo na minha casa, com tanto pacote para entregar pelo mundo? Se por acaso minha teoria de que você controla o tempo se confirmar, me empresta o seu relógio dois minutinhos? 

Ana Reber é cronista do Blônicas.

Escrito por Blônicas às 16h57
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Concurso de Crônicas

Pessoal,

Devido ao grande número de crônicas, a divulgação do resultado fica pro dia 26/10.

Agradecemos novamente a todos os participantes e pedimos que segurem a ansiedade por mais uma semaninha!

Valeu. 

Escrito por Blônicas às 14h30
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O mundo sem você

De Henrique Szklo

O mundo sem você não é mundo, é a ausência de tudo.
Não há alegria, não há beleza, não há nada.
Apenas um sentimento devastador de desespero que toma conta de mim e me faz querer gritar sem abrir a boca, gritar por dentro, gritar com a alma até que ela se exploda e espalhe suas pequenas partículas pelo universo que conspira a meu favor, mas não o suficiente para brecar a minha própria conspiração a favor não sei de quê.
O mundo sem você é um imenso espaço vazio e amorfo.
Um lugar onde a vida não floresce, onde os pássaros não cantam e onde o sol se recusa a nascer, por medo, vergonha, sei lá. Um lugar frio, feio, inabitável. Terreno fértil apenas para a germinação da angústia e da ideia insuportavel de viver sem você. Um pensamento que me arrebenta, me estilhaça, provocando um efeito cascata que parece invadir todo o meu corpo, inundando cada pedaço meu com a ausência de você, provocando uma dor ancestral, um sentimento dilacerante e inimaginável de perda de qualquer possibilidade de ser feliz novamente.
O mundo sem você é ridículo. Um circo de pulgas rodeado de idiotas por todos o lados, idiotas como eu. Um lugar desguarnecido de mistérios, de energias inexplicáveis, de belezas arrebatadoras, de inteligências primitivas, de tesões inqualificáveis. Um mundo com ausência de amor e excesso de nada que preste.
O mundo sem você é uma piada de mal gosto. É a vitória da mediocridade sobre a liberdade, dos padrões sobre a invenção, da estrutura sobre o vento livre e delirantemente selvagem.
O mundo sem você é apenas um depósito de lixo girando em torno do sol. Nada brilha, nada encanta. O ouro perde seu valor, a água sua pureza, o ar o seu sentido de vida. Não há razão para trabalhar, as viagens são desnecessárias, as celebrações inúteis. A palavra felicidade é banida dos dicionários.
O mundo sem você é um lugar em que não vale a pena se viver. Nem por um minuto. Mas se eu tiver que viver em um mundo sem você, sei que vou morrer por dentro e seguir assim, internamente moribundo, até que o universo me recolha ou me engula de volta, com pena da minha miserabilidade, da minha incapacidade de amar, da inutilidade da minha existência sem você.

Henrique escreve no Blônicas e não é ninguém sem a mulher que ama.
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Escrito por Blônicas.. às 12h10
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O Bloqueio.

De Edson Aran.

Escritor é um bicho muito besta.

Escritores não são pessoas normais feito eu e você. Escritores têm “bloqueio” – um jeito pretensioso de dizer que eles não têm porra nenhuma na cabeça. Você não vê carteiros parados no meio da rua, a mão cheia de envelopes, falando sozinhos: “Não adianta! Por mais que eu entregue cartas, eu jamais farei uma obra-prima! Ou cirurgiões: “Não adianta! Implantar esta ponte de safena não fará de mim um novo James Joyce!”

As pessoas simplesmente fazem. Plantam tomates. Colhem abóboras. Pilotam tratores. Praticam abominações com animais de pequeno porte. Escritor não. Escritor trava. Escritor estanca. Escritor estrila. E aí, meu amigo, não há o que fazer, a não ser, talvez, usar o bloqueio a seu favor e escrever um conto.

O NADA (Um conto de Oraldo Grunhevaldo)

Era outubro, chovia. E o escritor estava com bloqueio. “Não consigo pensar em nada”, ele pensava, se contradizendo. Pensar que não havia no que pensar era, em si, um pensamento, ele pensava. Ou pensava que pensava. O mundo, afinal, podia ser apenas um breve pensamento na mente de um deus infinitamente criativo ou genuinamente retardado. Isso lembrou Borges. Juvenal Borges, cafetão e agiota. O escritor devia 200 paus pra ele. Eu devia ter virado dentista, ele pensou. Dentista ganha dinheiro. Dentista não tem bloqueio, dentista só tem broca e boticão. Ele releu tudo. Ele pensou em suicídio. Mas tinha empenhado o revólver para comprar munição.

Mas veja: usar o bloqueio como tema não faz o bloqueio desaparecer. Você simplesmente muda de calçada e evita contato visual. Ele continua lá, paradão. Bloqueio adora ficar paradão. Então você finalmente percebe. Não é só você. Todos os escritores, em todo o mundo, estão diante do mesmo bloqueio. Ninguém escreve. Não há mais romances, contos, poemas ou livros de auto-ajuda. Não há mais bulas papais ou bulas de remédio. Não há mais roteiros, nem diálogos, nem peças, nem minisséries, nem novelas.

Você desliga o computador e vai assistir a um reality show.

Edson Aran é cronista do Blônicas.

Escrito por Blônicas às 11h07
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"I"

De Tati Bernardi.

Do outro lado da rua, mais moreno do que eu lembrava, vinha ele, o garoto mais bonito de alguma festa de meses atrás. Eu estava feia de doer, com uma sapatilha da vovó e o cabelo parecendo um calzone de vento. Quis me enfiar dentro da bolsa mas depois achei que não era nada demais, era o de sempre.

Eu já tinha resolvido comigo, nos poucos e breves dias em que levemente me preocupei com isso, que ele não havia me ligado pelo mesmo motivo que levaram todos os homens que não me ligaram a não me ligar: com tanta mulher no mundo, pra que repetir a mesma? Melhor: com tanta mulher maravilhosa no mundo, pra que repetir a mesma bonitinha?

Ivan, Itan, Ilan, Ivo, Ismar, Igor? Eu não lembrava o nome do rapaz, mas lembrava que começava com “I” porque quando fui até o armário do meu banheiro e vi que não tinha mais camisinha, falei “iiiiiiiiii” e ele apareceu prontamente, achando que se tratava de um chamado íntimo.

“I” me viu e travou. Sua morenice além do que eu lembrava se fez mais branca do que eu jamais poderia imaginar. Nervoso. Começou a estraçalhar com as unhas o saquinho branco que levava na mão esquerda. Eu ia dar coisa de dois beijinhos e um tapinha no omoplata, despretensiosa e de saída, quando percebi que o rapaz, ainda que livre e lindo de doer, tinha acabado de se retesar e atrapalhar todo pelo encontro inesperado com a minha pessoinha mal vestida e pior penteada.

Porque era sábado final da tarde, ia chover, eu estava sozinha de dar medo mas não estava com nenhum, acabei falando. Saiu sem querer ou melhor: querendo mais e além de mim. Porque eu tinha almoçado gostoso com uma amiga engraçadíssima e tinha livros novos me esperando em casa. Porque eu ia dormir tarde, depois de esgotar minha nova luminária de tanto saber coisas boas. Porque, enfim, eu usava meias e grampos e estava completa demais e forte demais pra ter medo de coisa comum a todos, eu acabei perguntando.

Por que você não ligou ,“I”?

Me preparei pro velho e bom ando ocupado, ando estranho, ando esquisito, ando deprê, não ando porque me atropelaram. Mas “I” só olhou para um resto de chiclete estorricado na calçada e suspirou gorda e peludamente.

Porque você disse que eu andava como alguém que esconde que já foi gordo, ria como alguém que precisa ser aceito apesar de ter nascido muito pobre, dava linguadas no ar como um sapo querendo pescar pequenos insights para impressionar mocinhas, espremia os olhos como um míope que não aceita as próprias limitações, estalava os dedos como quem tinha perdido a hora do soco, pegava como um homem que perdia perdão por ser homem, dirigia como um ejaculador precoce, mudava as estações do rádio como um infeliz que tenta até o fim, penteava o cabelo para trás como um estilista histérico, falava devagar como um estudante fritado de tanta maconha, enfiava a mão em você como um inexperiente que odeia a ex namorada, beijava como alguém que queria dormir de tédio assim que conseguisse qualquer coisa, lambia como um peão mal educado e morrendo de calor, gemia como alguém que tenta expulsar algo dos pelos do nariz, dormia como um bebê com tromba de elefante e fazia xixi como um elefante com tromba de bebê.

“I” se foi e me deixou por alguns segundos encarando o mesmo estorricado chiclete velho da calçada. Naquele momento eu aprendi três coisas para o resto da minha vida: eu era bonita, eu era insuportável e eu era uma escritora.

O mais maluco é que fiquei feliz e vitoriosa como se tivesse acabado de ganhar uma aliança de amor eterno, seja lá o que isso quer dizer.

Tati Bernardi é cronista do Blônicas.

Escrito por Blônicas às 17h14
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Interlúdio.

De Giovana Madalosso.

Estão em reunião. O diretor financeiro na ponta da mesa, seguido, em ordem hierárquica, pelos gerentes, assistentes e estagiários. Precisam fazer uma projeção de lucros para o próximo ano. Ainda estão em maio, mas como o presidente tem um encontro com os investidores, pediu para ver esse número o quanto antes.

A reunião avança pelo horário de almoço. Os sanduíches permanecem intocados sobre a mesa. Ante a urgência do pedido, o presunto que pende dos pães lhes parece obsceno. Só os lápis são mordidos. O sub-gerente desmarca o cardiologista. A assistente desiste de ir ao banheiro com medo de perder alguma informação importante. Seguem debruçados sobre as planilhas, rabiscando taxas, quotas, alíquotas, porcentagens, remunerações, reduções de custos, cortes de salário, em busca de algum dígito que satisfaça a ânsia dos investidores.

Estão tão absortos que nem percebem quando Antônio, chefe do almoxarifado, oitenta e quatro anos, entra pela porta, trazendo consigo um dvd. Antônio avança pela sala com passadas pausadas e curtas. É de um tempo em que era preferível perder o trem do que caminhar com deselegância. Ele para na frente do aparelho. Aperta os botões com cautela.

It’s lovely to look at you, uma voz sussurra. Os executivos levantam o rosto. Vêem Fred Astaire declarando-se para Ginger Rogers. Os dois balançam o corpo para o mesmo lado, presos apenas pelo olhar um do outro. Fred Astaire engancha Ginger Rogers pela cintura. Os dois saem flutuando juntos, a despeito da gravidade, enlevados pela música.

O almoxarife está inclinado em direção à tela, um sorriso vincando as rugas, o pé batendo no ritmo da música, como se estivesse sozinho no ambiente. Quando Fred Astaire e Ginger Rogers saem do salão, sob os aplausos da orquestra, Antônio retira o dvd. Desculpa-se pela interrupção e fecha a porta atrás de si. 

Ninguém consegue dizer uma palavra. Olham para os números, os gráficos, o relógio de parede, a persiana de metal, a foto do presidente, em busca de algum ensejo, alguma resposta, mas tudo parece estalar mudo no silêncio. Permanecem assim durante um longo minuto. Até que alguém formula uma pergunta: devemos levar em conta os custos fixos?, e tudo volta a ser como era antes.

Giovana Madalosso é cronista do Blônicas.

Escrito por Blônicas às 15h33
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O suicídio do bicho-grilo.

De Carlos Castelo.

 

São Tiago Antão, no ano II antes de Cristo, peregrinou em jejum pelo deserto, durante seis meses, porque havia matado uma pulga. 

Essa atitude lembra muito a de um espécime tipicamente brasileira: o Bicho-grilo porraloquensis . Ele é resultado do cruzamento entre o estudante de filosofia da USP, o hippie da Bolívia e o capoeirista do Pelourinho. Não necessariamente nesta ordem. 

Reproduz-se em cativeiro e habita principalmente os quarteirões entre as Ruas Fidalga e Harmonia, na Vila Madalena, em São Paulo. 

No Rio adotaram o Baixo Leblon; em Salvador, o entorno do Pelourinho. 

É reconhecido por suas batas coloridas, lenços na cabeça e um vocabulário de apenas de quatro expressões: "só", "meu", "muito louco e "tô louco pra caralho." 

A alimentação básica do bicho-grilo porraloquensis é arroz integral, batata barôa, empanada argentina, tofu e mais um pouco de arroz integral. Alguns tomam cerveja e fumam um cigarrinho fino e mal-cheiroso. 

Os Bicho-grilo têm muitos filhotes. Ninam os rebentos à noite com músicas do Beto Guedes e do Led Zeppelin. Também gostam de colocar nomes diferentes nos filhotes, como Cauê, Aritana, Lenine, Stalimir, Krishna ou Lua. Aparentemente estes nomes são para chocar a sociedade. Como, por exemplo, o de um morador da Rua Girassol encontrado recentemente por pesquisadores e que se chamava Genival Lacerda da Silva Che Guevara. 

Nos anos 90, com a proliferação dos bares de pagode e da novela "Vila Madalena", os Bicho-grilo começaram a entrar em extinção. Não podiam mais dormir em redes na varanda e foram ficando cada vez mais tristes. Foi aí que aconteceu a grande diáspora em direção à Visconde de Mauá, São Tomé das Letras, Trindade e calçadas do Espaço Unibanco. 

Hoje há poucos espécimes na Vila. Foram sendo expulsos pelas boates, bares, restaurantes e casas de lenocínio. Mesmo assim há agências especializadas em safáris nos bairros onde eles ainda sobrevivem e se reproduzem. 

O passeio é instrutivo e muito bem organizado. Percorre-se o local em jipes dirigidos por "rangers" treinados em Bostwana e Quênia. Armados com dardos de tranqüilizantes de maconha, eles mantêm uma distância segura entre turistas e porralocas. 

Pode-se também conhecer a área de balão. 

O Ministério da Saúde exige apenas vacinação contra larica.

 

*** 

Era uma vez um bicho-grilo. Por um motivo porraloca qualquer, ele foi ficando triste, triste. A deprê aumentou tanto que o bicho-grilo resolveu tomar uma atitude drástica: pôr fim à existência. 

À noite, na cama (ou melhor, na rede, que bicho-grilo não dorme em cama), ele abriu a gaveta do criado-mudo (ou melhor, o bolso da mochila, que bicho-grilo não usa criado-mudo) e pegou o primeiro vidro de remédio que a mão alcançou. 

Fechou os olhos, abriu a boca e tomou todo o conteúdo. 

Encolheu-se. Logo chegaria a hora de encontrar Shiva. Ou seria o Paulo Coelho? 

Não importa a divindade que o iria receber, o importante era escapar de um mundo que não entendia o reiki, a massagem holística, os florais mineiros e principalmente o tofu. Sim, a indiferença do mundo ao queijo de soja era imperdoável. Nada poderia valer à pena se o gênero humano não tivesse sensibilidade suficiente para substituir qualquer alimento por esse maná. 

Meia hora, uma hora, duas horas e nada do bicho-grilo morrer. Ele então resolveu abrir os olhos e ver o que tinha tomado. 

Era homeopatia.

 

Carlos Castelo é cronista do Blônicas.

Escrito por Blônicas às 17h06
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Muito obrigado a todos os participantes!

O concurso cultural de crônicas do Blônicas teve 106 crônicas participantes.

Agradecemos a todos por prestigiarem o blog e o concurso.

O resultado dos 5 vencedores será publicado até o dia 20 de outubro.

E aproveitamos para agradecer também os apoiadores do concurso: Ediouro, Jaboticaba e Agir.

Até o próximo!

Escrito por Blônicas às 11h16
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ÚLTIMO DIA do Concurso de Crônicas!

Participe do Concurso de Crônicas do Blônicas enviando sua crônica em tema livre para nós!!!

As 5 melhores crônicas serão premiadas com livros, além de serem publicadas aqui no Blônicas.

Envie sua crônica para blonicas@bol.com.br até HOJE - 5 de outubro.

As crônicas devem ser escritas em fonte arial, tamanho 12, máximo de 3 mil toques.

Envie apenas uma crônica.

Prêmiação:

1o colocado - 1 livro "Blônicas" (Editora Jaboticaba) + 1 livro "O Senhor March" de Geraldine Brooks (Ediouro) + 1 livro "Garoto Linha Dura" de Stanislaw Ponte Preta (Editora Agir) + publicação aqui no blog.

2o a 5o colocados - 1 livro "Blônicas" (Editora Jaboticaba) + 1 livro "O Senhor March" de Geraldine Brooks (Ediouro) + publicação aqui no blog.

Dúvidas podem ser enviadas para o mesmo email.

A comissão julgadora será formada por cronistas do Blônicas.

Apoio: UOL  -  EDIOURO  -  EDITORA JABOTICABA  - EDITORA AGIR

Escrito por Blônicas às 14h42
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