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“O Grande Golpe” – Os primeiros passos de um gênio.

De Silvio Pilau.

Sempre é interessante analisar os primeiros trabalhos de um artista que viria a se tornar referência em seu campo de atuação. Normalmente, é possível perceber já nestes esforços iniciais uma visão diferenciada, um talento incipiente, ainda que a inexperiência impeça a construção de obras bem-acabadas. Os primeiros passos de Stanley Kubrick no mundo do cinema, como este O Grande Golpe, são um bom exemplo disso. Dentro de pouco tempo, o cineasta construiria algumas das obras mais relevantes da sétima arte e, ainda que O Grande Golpe não esteja no nível delas, é uma importante referência na afirmação de seu estilo.

Em O Grande Golpe, que segue o fraquíssimo A Morte Passou por Perto e antecede o excelente Glória Feita de Sangue, o cineasta claramente demonstra evolução em relação ao seu esforço anterior, que apresentava uma narrativa desleixada e uma história totalmente sem graça. Agora, pela primeira vez Kubrick demonstra domínio na condução de uma trama interessante, em um filme coeso e tenso que, assim que captura a atenção da plateia, jamais a deixa escapar.

Em seus primeiros minutos, O Grande Golpe parece meio estranho ao espectador. A narração em off surge intrusiva e expositiva demais, apostando em uma formalidade que parece retirada diretamente de uma obra literária. Inevitável apontar que se trata de algo desnecessário, que mais prejudica o filme do que auxilia em sua compreensão. Da mesma forma, Kubrick opta por iniciar o filme já em meio aos acontecimentos, sem apresentar os eventos ou os personagens. Como consequência, o espectador leva algum tempo para se situar dentro da trama e, principalmente, a se acostumar às opções feitas pelo cineasta.

A mais importante delas talvez seja a que diz respeito à estrutura não-linear. Em uma escolha ousada para um cineasta quase iniciante, Kubrick constrói o seu filme brincando com a cronologia, utilizando um artifício que influenciou diversos cineastas ao longo dos anos, como Quentin Tarantino e Guy Ritchie. O Grande Golpe não foi o primeiro filme a quebrar o tempo da narrativa (Cidadão Kane, apenas para citar um exemplo, já fez isso), mas talvez tenha sido o pioneiro no formato de contar o mesmo acontecimento através de diversos pontos de vista: somente após as diversas linhas narrativas terem sido apresentadas é possível compreender o todo da história – diferente do que Kurosawa fez em Rashomon, por exemplo, uma vez que lá se tratavam de versões da história.

Com isso, Kubrick cria uma atmosfera angustiante, tensa, de que algo errado está sempre prestes a acontecer. Também colabora para isso a combinação entre a ótima trilha sonora e um trabalho de direção irrepreensível. O seu rigor estético preciso, a simetria na colocação dos elementos no plano e os elegantes movimentos de câmera, características que viriam a marcar o seu cinema, já podem ser percebidos em O Grande Golpe.

Outro conceito recorrente no cinema de Kubrick e presente aqui em forma embrionária é a sua visão nada colorida da humanidade. O cineasta sempre se interessou pelo lado negro do Homem, por seus impulsos e desejos obscuros, e O Grande Golpe versa sobre estes assuntos, mesmo que de forma superficial. O desenvolvimento psicológico dos personagens não é a maior força do filme, mas, ainda assim, Kubrick encontra espaço para apresentar este lado vil do ser humano, seja na frieza da personagem de Sherry, capaz de deixar o seu marido por dinheiro, ou no próprio fato de o enredo versar sobre um grupo com moralidade duvidosa.

Assim, ainda que não consiga transpor para o celulóide toda sua visão, pela própria falta de experiência ou por não haver encontrado o seu estilo próprio, Stanley Kubrick já dá claros sinais do grande cineasta que viria a se tornar. Hoje, graças à diferenciada estrutura, ótimos diálogos e à direção habilidosa, O Grande Golpe segue como um filme acima da média e eficiente dentro de seu propósito, tornando-se referência. Porém, apesar das qualidades, a obra é lembrada até hoje principalmente por representar os primeiros passos de um gênio.

E Kubrick, mesmo engatinhando, é melhor do que a maioria já de pé.

Nota: 7.5

Silvio Pilau é cronista do Blônicas.

Escrito por Blônicas . às 11h56
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Monique.

De Giovana Madalosso.

As pernas dela balançavam, como se estivesse na beira de um lago num domingo de sol, mas era segunda-feira e chovia fino lá fora, e ela estava numa pizzaria de quinta categoria, sentada num banco furado com a espuma saindo para fora, mesmo assim as pernas dela iam e viam, um sapato vermelho, depois o outro, e talvez por isso eu gostasse tanto dela. Íamos nessa pizzaria depois da aula. Era um corredor comprido, só um balcão junto à parede, guardanapos usados no chão, a correntinha da descarga sempre quebrada. Quem pagava era eu, ela não tinha dinheiro nem para isso. Às vezes eu pensava que aquela fatia era tudo que ela comia na semana, nos outros dias se alimentava de sonhos e recortes de revista.

Os recortes ela colava na contra-capa do caderno. Nas páginas pautadas, anotava tudo que a professora dizia: a ordem para usar os talheres é de fora para dentro, a alface deve ser dobrada como uma trouxa, a faca não deve jamais empurrar a comida, o jamais destacado, exatamente como ouvira. Quando dava tempo, também fazia desenhos, a taça alta enfeitada por estrelas e borbulhas. Demorei a entender por que uma garota que não tinha nem onde cair morta fazia aquele curso. Tudo bem, era de graça, oferecido pela prefeitura, mas a questão não era essa, era: onde é que ela ia aplicar tudo aquilo? Nem eu, que um dia herdaria um faqueiro, queria saber daquelas bobagens, só tinha me inscrito por insistência dos meus pais.

Eu passava a aula inteira esperando a hora em que sairíamos juntas. Os neons da rua já acesos, ela me contando histórias de quando era pequena. A mãe que morreu quando ela nasceu. A mãe que deixou a filha para cuidar de uma comunidade indígena. A mãe que era cantora e lhe mandava postais do mundo inteiro. Eu não me importava com a verdade, a minha vida estava cheia delas e nem por isso eu era mais feliz. O que eu gostava era de ouvir as histórias que cresciam no ritmo dos seus passos, ver as placas que surgiam na rua virando elementos dos seus mundos imaginários; a cidade que se chamava Consolação, a cantora que usava o nome artístico de Valisière, as canoas que cruzavam o rio Itaú.

Às vezes ela virava para o lado e sorria para mim, um sorriso cúmplice de eu-sei-que-você-sabe, e logo voltava-se para a frente, com medo de derrubar o livro invisível que carregava sobre a cabeça. Ia aprender inglês, fazer uma faculdade e então seria uma dessas mulheres que têm crachá com fotografia e uma mesa de trabalho só para elas e empurram carrinhos de bebê no fim de semana. Era tudo o que eu seria e não queria ser, e para ela ia ser tão difícil, mas eu nunca tive dúvida de que conseguiria, porque quando falava seus braços mexiam a ponto de esbarrarem em mim, e quando isso acontecia eu sentia uma coisa elétrica percorrendo todo o meu corpo.

E era segunda-feira e chovia fino lá fora. E ela tentava aplicar alguma regra que tinha aprendido na aula, mas os copos eram de plástico e as fatias não vinham nem com talheres, então ela limpou a boca, um canto, depois o outro, alisou o guardanapo e me contou que tinha arrumado um emprego. Não era exatamente o que ela queria, mas pagava bem, e com a grana ela podia entrar na faculdade e conseguir alguma coisa melhor. Eu não sabia o que dizer, sorri de um jeito estranho, a extensão da minha boca abarcando todo um espectro de sentimentos além da felicidade. Ela passou a mão na minha cabeça, me deu um beijo e saiu acenando pela porta.

Na segunda-feira seguinte, cheguei mais cedo à aula. Queria contar que ia levá-la num restaurante para comemorar o emprego. Ensaiei a frase: hoje você vai usar uma faca de peixe. Mas ela não apareceu, nem nessa segunda-feira, nem em nenhuma outra. Eu voltei algumas vezes na pizzaria, no horário de sempre, achei que de repente ela apareceria para dar notícias ou que talvez alguém me entregaria um bilhete com um número de telefone, mas tudo que eu consegui indo até lá foi desenvolver algumas espinhas de fundo nervoso e aumentar em três centímetros o meu quadril.

O curso acabou. Eu virei uma dessas mulheres com fotografia no crachá que empurram carrinhos de bebê no fim de semana e só sentem coisas elétricas quando encostam o dedo na tomada. Só voltei à Rua Augusta muitos anos depois. Eu estava saindo de uma reunião ali perto, não estava a fim de voltar para o trabalho nem para casa, resolvi andar um pouco e passar na frente da pizzaria. Por um segundo, tive medo de que a pizzaria não estivesse mais ali, e então não teria nada que provasse o que vivi, mas logo vi o letreiro e a placa de aberto. Fiquei na calçada, olhando para dentro através da fachada de vidro. O corredor parecia mais claro, mas talvez estivesse igual, distinto apenas da memória que criei para mim. Uma mulher limpava o chão com um esfregão. Um nordestino, de barba rala, esticava a massa. Não sei quanto tempo fiquei ali parada, acho que muito, até que o nordestino se deu conta da minha presença, e então me pus a andar rua abaixo, sem destino.

A noite estava caindo e as luzes da Augusta se acendiam aos poucos. Os strip clubs tinham dado lugar a lojas e restaurantes. As calçadas, por onde circulavam as putas, estavam cheias de garotas descoladas e homens com óculos de aro grosso em busca de uma boa conversa. Abri caminho por eles com minha pasta de couro e continuei andando, e só muitas quadras depois avistei um fragmento de passado: meia dúzia de putas, alguns travestis e uma portinha de onde saía uma música alta, deformada pela má qualidade dos alto-falantes. Uma mulher estava sentada na frente da porta, convidando os homens a entrar. De longe, não pude ver o seu rosto, mas alguma coisa nela chamou a minha atenção. Apesar da função que desempenhava, dos seios caídos, da barriga flácida escapando pela minissaia, tinha os ombros muito erguidos. Uma altivez que destoava do todo.

Passei por ela de cabeça baixa. Por um segundo, a luz vermelha que se projetava pela porta nos envolveu num mesmo quadro, nossos corpos alinhados a poucos centímetros um do outro. Até que dei o próximo passo. E continuei andando, cada vez mais rápido, sem coragem de virar para trás. Consolei-me. As pernas dela ainda balançavam.

Giovana Madalosso é cronista do Blônicas.

Escrito por Blônicas . às 09h22
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Louca.

De Tati Bernardi.

Uma vez, no recreio, comendo um Bis derretido, pensei isso, pela primeira vez: e se eu ficasse louca?
Vi minhas amigas trocando papéis de cartas, vi uns meninos correndo de testa suada, vi uma professora caminhar como alguém que pensava em alguém que ela encontraria no final do dia, vi tudo isso como se não pudesse ter, ver, ser. E seu eu ficasse louca. Que triste para meus pais, que triste para a carteira vazia da escola, que triste para os livros plastificados com a etiqueta que dizia que era eu. Uma estudante, uma garotinha, com família, amigos, presilhas de cabelo, camisas branca PP com um brasão que trazia um livro e um fogo. Se eu ficasse louca tudo isso seria o quê? Pra onde iriam os materiais e as pessoas e o amor? E se eu ficasse louca? Quem iria me ver babar num canto de um hospital? Existe louco em casa? Mãe ama os loucos? Louco tem amigo? Louco tem livro plastificado? Louco começa e nÍ o para mais até acabar? Louco uma vez, louca pra sempre? Converse. Respire. Pense em garotos. Pense em xampus. Vamos. Não fique louca. Mude de assunto. Pense na menina mais bonita do mundo e odeie. Dê nome pra loucura que ela deixa de ser. Sinta dor com nome que assusta menos. Caia na aula de educação física, rale o joelho, sangre, dói menos. Desembarace os cabelos e sinta que problemas se alisam. Faça o papel do Bis virar um barquinho. Isso. Conte uma piada. Se os outros rirem bastante. Se a sua estranheza puder ser amada. Qualquer coisa menos loucura. Pense naquela música da rádio. Não, você não está triste. Uma fofoca e pessoas em volta. Vá até o banheiro retocar o batom da moranguinho. O professor mais ou menos bonito, por ele. Os outros. Olhe. Os outros. Vamos. Que data mesmo? Da guerra. Que data? Qualquer coisa. Menos louca. O hino. Sujou um pouquinho da meia. Limpinha. Dê nome aos problemas. Problemas com nomes são problemas e não loucuras. Sempre evitando que ela saia. Sempre segurando. Não caia dura no meio do mundo. Não se chacoalhe no meio do pátio. Não vomite só porque sei lá o que é isso impossível de digerir e nem quero saber. Não abrace sem fim porque é preciso sentir o vento com o peito sozinho. Terrível mas tem banho quente pra distrair. Não espanque, não soque, não chore sangue, não arranque a língua, não grite, não acabe. Siga. Sorria. Mais uma prova. Mais uma festa. Mais um garoto. Sempre um pavor escondido mas nem era nada disso. Sempre uma tristeza abafada mas nem era nada disso. Sempre uma alegria exagerada que ninguém acolhe e o silêncio depois, fazendo curativos na pureza criando cascas. Um dia você será. O quê? Normal. Um dia você será. Normal. Um dia. Enquanto isso, se distraia como a professora que ama, as crianças que trocam papéis de cartas, os garotos que correm. Eles estão se distraindo também e pensando “olha, uma menina comendo Bis”.

Tati Bernardi é cronista do Blônicas.

Escrito por Blônicas . às 10h36
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O bastardo do cinema.

De Silvio Pilau.

Bastardos Inglórios não é um filme de guerra. É um filme de Quentin Tarantino situado durante a guerra. Faz toda a diferença. As características que tornam o seu cinema tão peculiar estão presentes nas duas horas e meia de projeção: a cuidadosa construção de cada cena, as brincadeiras com o tempo, os longos e deliciosos diálogos, o humor negro e, claro a violência exagerada e absurda.

Como de praxe, Tarantino divide seu filme em capítulos, cada um quase um curta-metragem, que se unem e se confundem para formar um todo fantástico. Os capítulos são formados por cenas desenvolvidas sem pressa, nas quais os personagens conversam e conversam estabelecendo a situação, criando a tensão e preparando o clímax sempre explosivo.

E a inteligência das falas chama a atenção: a pressão psicológica de Landa no fazendeiro, por exemplo, logo no capítulo inicial, é fantástica. Os personagens de Tarantino jamais dizem logo o que querem dizer; é necessário que usem de metáforas e digressões. Mesmo que isso torne o filme mais longo, a habilidade de Tarantino com as palavras e na construção da mise en scène faz com que a obra jamais fique cansativa. As palavras, auxiliadas pelos olhares e pelos silêncios, servem para gerar tensão.

O cineasta ainda brinca com o tempo, mas alongando a expectativa. A pressa não tem lugar em Bastardos Inglórios. O filme não entra no ritmo que o público espera, mas faz o inverso: é a plateia quem deve se adequar a ele. Somente após a verborragia é que ocorre a ação, e esta, quando vem, vem exatamente com o que se espera de Tarantino: com sangue, mas sem repulsa.  A violência de Tarantino não choca, pois ela parece pertencer em um mundo à parte: o mundo do cinema. É gráfica, é sangrenta, mas não é real. Não chega a ser cartunesca como em Kill Bill, mas acompanhar os bastardos escalpelando nazistas gera apenas risadas, não repúdio.

Bastardos Inglórios ainda exibe todo o seu virtuosismo técnico de Tarantino, com movimentos de câmera que vão desde o elegante (a festa no salão do cinema de Shosanna) até as claras homenagens de gênero (como na apresentação dos Bastardos). Aliás, este talvez seja o filme de Tarantino que mais homenageie o próprio cinema. São dezenas de referências. De quebra, Tarantino utiliza o próprio filme, a película, como arma no final. O cinema como ferramenta de libertação do mundo – quer declaração maior de amor à Sétima Arte do que essa?

Impossível não comentar também a incrível atuação de Christoph Waltz no papel do coronel Hans Landa: charmoso, sedutor, divertido, ameaçador e perigoso ao mesmo tempo, Waltz faz talvez o melhor vilão do ano e o antagonista perfeito para os bastardos liderados por Brad Pitt. Este, aliás, comprova mais uma vez que, quando deixa de lado a pose de galã, é um ótimo ator. Puxando seu personagem para o lado cômico, com sotaque exagerado e caretas caricatas, Pitt é responsável pelos momentos mais engraçados do filme, com destaque para a cena na qual se passa por um italiano (seu arrivederci é nada menos que fabuloso).

Bastardos Inglórios tem os seus problemas aqui e ali, a maioria deles decorrente do ego gigante de Tarantino, que tem a mais absoluta convicção de que tudo o que faz é genial. Assim, algumas de suas digressões narrativas são desnecessárias e ele se repete em certas cenas. Além disso, o roteiro parece não se preocupar em apresentar o destino de todos os bastardos, deixando dúvidas na cabeça da plateia.

Tudo isso, porém é muito pouco perto da grande obra cinematográfica que é Bastardos Inglórios. Tudo bem que o estilo de Tarantino não vai mais mudar o cinema como fez com Cães de Aluguel e Pulp Fiction, mas ele continua um puta roteirista e diretor, capaz de subverter expectativas e construir momentos de puro cinema. Bastardos Inglórios é divertido, original e inteligente. Um filme claramente feito por um cinéfilo para outros cinéfilos. Se alguém de fora desse grupo gostar, é apenas lucro.

Silvio Pilau é cronista do Blônicas.

Escrito por Blônicas . às 09h51
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Esconderijos de viver.

De Bianca Rosolem.

Foi um modo de aprender a viver. Alice gostava de se esconder. Pregava peças nos pais quando se ocultava nos lugares mais inesperados da casa. Com os amiguinhos brincava de esconde-esconde e era a campeã entre todos. Um dia, a brincadeira tanto se estendeu que a mãe de Alice chamou o guarda da rua para achá-la. Após 4 horas, com a mãe quase arrancando os cabelos, Alice fora encontrada escondida dentro de um diminuto espaço entre o chão e a pia da churrasqueira do vizinho. E tão acostumada a se esconder, Alice chegou a dormir em posição de contorcionista e, quando acordada pelo desespero de todos, sorriu e achou tudo muito engraçado. Ela não sentiu medo de se perder.

Foi então que ela descobriu que ao se esconder ela também poderia se perder. E que isso poderia ser tão bom porque depois ela poderia ser encontrada. É assim que se aprendem as coisas verdadeiras: Sem pensar, sem livros, cadernos, professoras, sermões de igreja e de pai.

Alice era toda pequena, de forma que se esconder e se perder era muito fácil. A mãe por muitas vezes perdeu Alice no supermercado e, quando a encontrava, ralhava com a pequena. Isto porque a mãe acreditava que Alice havia se escondido, quando, na realidade, a mãe apenas a tinha perdido de vista entre tantas gôndolas e pessoas.

Foi aí que Alice já não soube mais distinguir o que era “se esconder” e “se perder”. E quando adolescente ainda tão pequena e frágil - a menor de todas as garotas da escola - Alice sabia fugir das maldades e do tédio escondida e perdida em seus pensamentos.

E também Alice descobriu a mágica de ficar sozinha entre tantas pessoas, porque ela aprendeu a se esconder dentro. Ela percebeu lugares secretos de sua alma que quando tocados deixavam-na tão bem escondida que chegava a ficar invisível. Ela até testou nesses momentos sua invisibilidade encarando desconhecidos na rua que jamais lhe devolveram o olhar. Ela estava escondida e perdida dos demais, ninguém poderia vê-la, e ela estava em sua própria paz.

Quando os pais de Alice se separaram ela tinha 17 anos e ficou invisível por quase 1 ano. A mãe e o pai separados olhavam através de Alice, sempre, e ela poderia até fazer careta ou chorar de tristeza que eles jamais perceberiam. Foi durante o colegial, e Alice conseguia ser invisível durante as aulas e as provas. Nessa época, Alice freqüentava as salas de cinemas de filmes estranhos, bibliotecas e sebos. Nesses lugares ela era tão invisível que a sua invisibilidade se comunicava com outras.

Com o passar do tempo, Alice então notou que outras tantas pessoas também eram invisíveis. Isso a assustou no começo, afinal, nunca ninguém notara seu dom, e deixar de ser isso tão secreto parecia trazer à tona alguma fragilidade de viver.

Mas agora Alice já é adulta, e terá de encarar o fato de que é tão invisível quanto os que a cercam. Alice está maior e já não pode se esconder entre o chão e a pia.  Alguma lição está por vir, e Alice me confidenciou que está confiante.

Bianca Rosolem é cronista do Blônicas.

Escrito por Blônicas . às 09h44
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Por que hoje eu não vou comemorar.

De Ana Reber.

Porque como o índio, ainda é preciso de uma data para que a mulher seja lembrada. Parabéns por quê, posso saber? Por trabalhar igual e ganhar menos do que os homens, ou será pelo meu bom humor diário, apesar dos vídeos de baixaria que os meus colegas insistem em achar hilários? Hoje descobri que até santo google é machista. Pergunte o que ele acha de nós mulheres e você vai dar de cara com a palavra pelada. Juro, terceiro link. Não é fantástico? No embalo da pesquisa me aventurei também pelos sites de citações.
Descobri que aquele escritor que eu amava de paixão na adolescência, não deitou a caneta uma só vez para fazer elogios às mulheres, muito pelo contrário. Filósofos, escritores, políticos, se dois fizeram um comentário positivo, eu juro que foi muito. Separei até uma das pérolas que eu encontrei para vocês: “A mulher não é um génio, é um elemento decorativo. Não tem nada para dizer, mas di-lo tão lindamente”. Não é simplesmente um amor? Esse mundo que nos elogia e presenteia com rosas espinhudas todo dia 8 de março, insiste em pleno 2010 nos mesmos adjetivos: frágil, delicada, volúvel. Sim, afinal em mulher não dá para confiar, é ou não é Adão? Isso sem falar nos anúncios em nossa homenagem.  Tenho um leve palpite de que nessa data baixa o espírito Wando nos publicitários:  jornais e revistas se enchem de anúncios com marcas de batom, rosas vermelhas e colarzinhos de pérola. Faltou só a calcinha. É amiga,  o Dia da Mulher se tornou simplesmente a coisa a mais cafona que existe.
Por isso se você curte, eu respeito. Mas eu me prometi que só vou comemorar no dia em que a gente não precisar mais dessa data para nada, além de uma boa desculpa para jantar fora. Quando o mundo olhar para nós como a letra do Erasmo: fortes, inteligentes, companheiras e não como um penduricalho fútil que gasta sem parar no cheque especial. Porque nós mulheres aguentamos sei lá quantas vezes mais a dor do que o homem, agora bobagem tem limite.

Ana Reber é cronista do Blônicas.

Escrito por Blônicas . às 22h47
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Outra de Fernandez, o esquerdista burguês.

De Carlos Castelo.


Toda noite aqueles sonhos.

A invasão do “aparelho” na Lapa. Meganhas desencapando fios amarelos e vermelhos. “Telefone” nos ouvidos. A cara inchada do delegado do DOPS crescendo, querendo engoli-lo.

Depois Fernandez acordava lívido, em cima de lençóis de linho branco, geralmente sacudido pelos braços malhados de Cheyenne, sua jovem segunda esposa.

- Vou falar com a Pitty na Confraria do Champanhe. O marido dela é médico no Einstein. Arruma um especialista em nervos pra você, Fernã.

Impossível esquecer  os “Anos de Chumbo”.
Mesmo com a boa vida de agora.

O ex-guerrilheiro  - codinome Silveirão - tinha se dado bem desde o abandono da militância em 1975.
Aos 60 anos, chegara quase ao topo da carreira no funcionário público. Comandava a poderosa R.I.R: Repartição dos Inadimplente s Reincidentes - com 80 servidores concursados e 937 nomeados.

Naquele sábado, depois de mais um pesadelo, Cheyenne, fez uma proposta ao marido.

- Que tal se a gente desse uma volta, pra arejar. Ah, já sei! Vamos naquela concessionária ver o carro que você falou…

Meia hora depois estavam numa loja de carros analisando o interior de uma perua Porsche Cayenne.

- Que linda – comentou a esposa – rima com o meu nome!

Fernandez  não perdera a antiga mania de pensar em termos materialistas dialéticos. Olhava o carro e argumentava:

- Não seria uma contradição levar esse veículo, meu amor?
- Contradição?
- Exatamente. Ainda não superamos a fase BMW.
- Ai, Fernã, de novo esse linguajar marxista! Você é um alto funcionário do Estado. Merece o melhor.
- Calma! Vamos fazer uma análise mais científica e ver se há consenso lá em casa sobre a compra.

Cheyenne pegou seu Android adquirido no shopping Bal Harbour de Miami – escala da viagem que fez com seu Fernã para Havana – e ligou para o filho dele, Stalinir.

- Talinho?  Seu pai quer conversar com vocês antes de fechar um negócio. Almoço? Avisa a tua irmã…

Foram ao francês “Alice”.

Fernandez tomou a palavra.

- A madrasta de vocês está propondo a aquisição pelo nosso núcleo de uma Porsche Cayenne. A justificativa para a operação é a de que o utilitário é potente, confortável e de grande valia para nossos deslocamentos em grupo.

- E tem uma caramelo di-vi-na! – reverberou a madrasta.

- Quanto é o carro? – quis saber a filha, Rosa de Luxemburgo.

- 158 mil pesos cubanos – confirmou Fernandez.

Os filhos concordaram.

Stalinir fez apenas uma pergunta.

- Continuo vendo aquele lance do meu curso de chef na Toscana, pai?

- Claro! – berro u  Fernandez – isso é verba alocada para educação familiar.

A Rosa também continua estudando Moda em Paris. Educação e Saúde é revolucionário!

Brindaram com uma brut escolhida por Cheyenne.

- Nasdrovie! – gritou o ex-agitador, taça flûte para o alto.

Mais tarde, na concessionária, Fernandez sentou-se na mesa do gerente e sentenciou:

- Aquela perua caramelo ali. Vamos encampá-la!



Carlos Castelo é cronista do Blônicas.

Escrito por Blônicas . às 09h28
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