Vermelho.
De Ana Reber.
Estava parada no farol, debaixo de um viaduto. Gotas de chuva escorriam pela beira da construção e pingavam no vidro do carro. O entorno era cinza escuro de cimento velho. Era uma noite de quinta-feira e a cidade tinha as suas infelicidades camufladas. Tão escondidas, que a sombra de um capuz preto passou por trás do carro sem ela nem perceber. Estava sozinha, ouvia música na rádio distraídamente. Sorrateira a sombra deslizou pela janela e se transformou em um homem parado do lado do passageiro. A barriga gelou e a garganta ficou seca. Um fantasma magro de olhos profundos, parecia a morte. Veio o golpe brutal que quebrou o vidro da janela. Um barulho forte e seco como a própria pancada. O vidro estilhaçado caía aos poucos, enquanto ele sem pensar no próprio braço tentava agarrar a bolsa em cima do banco. Havia sangue. Ela gritou assutadada, mas os gritos foram abafados. Ninguém ouviu. Só ele. Por um momento se olharam nos olhos. Deviam ter a mesma idade. Assustado ele fugiu correndo, deixou a bolsa e partiu segurando o braço machucado. Desapareceu no escuro de onde veio. Ela ficou sozinha, imóvel. Sentia o peito estilhaçado com o vidro. Não tinha raiva, nem revolta, só tristeza. Se perguntou como estaria o braço do rapaz. Se sentiu imbecil por pensar nisso. Se sentiu culpada por ter deixado a bolsa em cima do banco. Se sentiu idota por se sentir culpada. Tudo isso no tempo de um farol. Verde, não deu mais tempo de pensar. A cidade pedia a atenção para outras coisas. Engatou a marcha enquanto secava as lágrimas. Queria que essa história fosse ficção, mas não era. Ela não tinha papel nenhum, nem ele era o vilão. Os dois eram só mais um.
Ana Reber é cronista do Blônicas.
Escrito por Blônicas . às 10h39
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Causa justa.
De Cléo Araújo.
Anos e anos de coisas.
Tudo ao meu redor enquanto eu ajeito uma caixa de papelão.
Coisas novas, coisas velhas, coisas das quais nem me lembrava mais, de tanto tempo que estive ali, no mesmo lugar, guardando coisas.
Aquele lápis do Pato Donald, por exemplo. Quanto não aconteceu aqui, bem debaixo dos seus olhos? Hoje, coitado, já um pouco acinzentado de tanto respirar o pó dos lápis seus vizinhos. Morava há alguns anos dentro de uma caixa no fundo de uma gaveta. Uma caixa onde fui acumulando brindes, canetas de congresso e hotéis e blocos de salas de reunião. Canetas de tinta seca, quase todas. E um durex que perdeu a ponta.
Ainda ali, um caderninho com números de telefone. Tão antigo, mas tão antigo, que ainda tinha, nas primeiras páginas das letras D, M e P números com 7 dígitos. Uma infinidade de post its amarelos com nomes de pessoas que não sei, deliveries de lanches que não lembro, nomes de amigas e amigos registrados sob o título das empresas para as quais trabalharam há tanto tempo que quase em outra vida. Quem é Wagner? O que era o Banespa? Quando foi que eu precisei ligar para um Padre Elíseo? Quem foi esse, que quis doar panelas de alumínio? Muitos, muitos anos. E nem assim eu aprendi a não precisar das agendas de papel. Tanto que a de 2009 vai para caixa. Preciso dela para viver.
Então, o encontro de passado e presente na gaveta das pastas suspensas, onde um pen drive de 14 gigas com o logotipo de uma universidade gringa divide espaço com um disquete cinza, batizado por uma etiqueta amarelada onde se lê “transparências seminário”. Estava escondido no vão entre o corpo do móvel e a lâmina fina de madeira, o coitadinho. O disquete me faz lembrar do “seminário”, obviamente, ocorrido naquela era pré Power Point. Tempos em que, para se salvar, havia primeiro de se formatar. Lembrar disso me causa certa nostalgia. Aconteceu faz tanto tempo que ainda não existia o Euro.
Um convite para um evento em 2002 cai então no meu pé, tentando se salvar do saco de lixo preto que já se encontra recheado de picotes de papel, crachás velhos, clipes enferrujados e uma caixinha de Kleenex desbeiçada. Eu me lembro desse evento. Fiquei com alergia do espumante, empipoquei a boca toda e minhas orelhas incharam. Mesmo assim, ou talvez por causa disso, dei mole para um coleguinha. Confesso: paquerei na festa da firma. Mas foi só essa vez. Primeira e única vez.
Encontro, então, uma cópia autenticada do meu título de eleitor. Um seguro de viagem. O canhoto de uma passagem para Cuiabá. E a caixa de papelão vai ficando vazia, enquanto o saco de lixo preto vai crescendo a olhos vistos.
Finalmente as gavetas mais antigas do meu cantinho estão limpas. Fica de herança para seu próximo usuário uma lata de tachinhas coloridas, uma régua verde limão, um fio de telefone, uma caneta laser e uma cola Prit seca.
A mensagem de despedida está pronta. Consegui não falar nada sobre ‘novos desafios’. Vou porque era hora. E sinto falta de tudo desde já. Sinto falta até do que não gostava. Dos urubus em seus rasantes. Do cheiro de gordura subindo quinze andares desde a padoca. Das balas de mamão da pessoa com quem mais impliquei durante todos esses anos - a primeira a me deixar um mimo, um vasinho com flores secas para levar comigo e enfeitar minha nova mesa, no novo lugar para onde eu vou. Não mais o senhorzinho dos bilhetes de loteria. Não mais o promotor engajado da loja de fantasias da esquina. Não mais a loja de macumba. Não mais o Quim do Lava Rápido. Nem a Zilda, a manicure. Nem o bigode preto azulado do sapateiro.
Bato os olhos na caixa que vai comigo para casa. Uma joaninha que ganhei da amiga, um peso de papel lindíssimo, presente da chefe, o lápis do pato Donald, é claro, e minha moringa de margaridas.
Eu nunca tinha ido embora, antes. E agora somos eu e a caixa no elevador. Somos eu e a caixa, agora.
As duas.
De volta ao mundo real.
Cléo Araújo é cronista do Blônicas.
Escrito por Blônicas . às 14h51
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Neuroses capítulo um.
De Ana Reber.
- Eu digo uma minha, você diz uma sua. Ok?
- Fechado, quem começa?
- Começa você, eu sempre tive medo de ser uma cópia barata dos outros.
- Tá bom. Eu odeio que falem comigo depois do cinema.
Quando acende a luz, eu tenho vontade de sair correndo.
- Eu só consigo escovar os dentes de olhos fechados.
- Eu bebo de propósito só para ter um drama na minha vida.
- Eu tenho medo de bexiga. Quando estoura em festinha de criança eu até choro.
- Para fazer cocô eu tenho que ficar pelado.
- Eu não escuto os outros e fico só esperando a minha vez de falar.
Peraí, você o quê? Que história é essa de ficar pelado?
- É, para fazer cocô eu fico pelado, tiro tudo, até a aliança… vem cá, você acabou de me ouvir.
- O quê?
- O que eu acabei de dizer.
- Também, um absurdo desses…ficar pelado, vê se pode…
- Acho que essa sua neurose de não ouvir os outros está curada.
- Você acha?
- Não sei, sempre tive mania de médico.
Ana Reber é cronista do Blônicas.
Escrito por Blônicas . às 09h47
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