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Um dia, nas labaredas.
De Carlos Castelo. Eu não via o Cavalcanti fazia uns 12 anos. Havíamos sido colegas numa agência em São Paulo. Ele já gozava de notoriedade no meio por essa época. Tinha escrito uns filmes bastante comentados quando eu ainda era um estagiariozinho pretensioso. Ganhara prêmio como melhor profissional do ano e outras dessas medalhinhas pelas quais os criativos enforcam a mãe pra ter pregada na lapela. Um dia entrei em sua sala e, munido daquela coragem dos inocentes, lhe mostrei uns textos. Ouvi dele: - Vou pegar sua conta, moleque. Você merece mesmo umas ripadas. Amizade à primeira vista. Para completar, havia em comum o nosso amor pela noite e a música. Virava e mexia estávamos no velho Baiúca tomando uísque, comendo pipocas e falando mal de todo aquele "mercado babaca". O Cavalcanti batia comigo até na opinião sobre os outros criativos. Sempre odiou os nossos iguais. Não existia para ele nada mais patético do que um cara de Criação. Uns babões, metidos a saberem alguma merda importante sobre qualquer assunto. Pareciam esquecer que ninguém, afora suas famílias, estava pouco se cagando se eles eram os Einstein ou se não passavam de um bando de ostras cabeçudas. Marcamos um almoço num pequeno restaurante da Pedroso Alvarenga. Ficava mais prático para o Cavalcanti . Ele morava a dois quarteirões dali e, na mesma Pedroso, montara um escritório , atendendo a um número seleto de clientes. Foi pontual. Chegou a uma na companhia de Cavalcanti Filho que, como nós, era redator. - Deixa eu te apresentar esse outro babaca da Criação - foi ele dizendo sobre o rapaz. Abrimos um Rioja para brindar o raro reencontro. Cavalcanti fez questão de frisar que pagaria o vinho. Além de ter ganho uma fábula em sua carreira, ele conhecia a minha recente - e infelizmente crônica - condição de free-lancer da Propaganda. Quando os pratos chegaram à mesa o celular do Cavalcanti tocou. Era a esposa. Ele ficou alguns segundos ouvindo o tartamudear dela. Depois, virou-se para o filho e disse, calmamente: - Vai até lá em casa. A mamãe disse que - parece - que tá havendo um incêndio no apartamento. Cavalcanti Filho engatou uma primeira e saiu quase pulando da mesa. Eu, que conhecia muito bem a fidalguia do pai, emendei: - Você não quer dar uma olhada no que aconteceu? Depois a gente volta, almoça… - De maneira alguma - disse ele -, me fala o que você anda aprontando… Voltamos a tergiversar sobre as estupidezes da Publicidade; o Alzheimer do Cerqueira (um talentoso ilustrador que trabalhara conosco); a falência da produtora do Lourenço ("o filho da puta bebeu a empresa…"). Depois de alguns minutos, o Cavalcanti começou a se impacientar. Ligou para o celular da mulher, deu caixa postal. Foi minha vez de tranquilizá-lo. - Fica frio. Uma vez eu tive esse problema no meu apartamento. Era um curto circuito de nada. Só fumaça. E acrescentei, naquela convicção dada pelas três taças do vinho espanhol: - Além do mais, se fosse um puta incêndio - um Joelma, um Andraus - daqui a pouco estariam subindo esta rua vários caminhões de bombeiros. Foi acabar de dizer a última frase e logo sobrevieram as sirenes: - Uóóóómmm, Uóóóómmm, Tiiiiiimm!!!! Subiam pela Pedroso três Scania vermelhos da Brigada Antifogo. Eu ia fazer uma observação engraçada, para quebrar o gelo. Mas, de novo: - Uóóóómmm, Uóóóómmm, Tiiiiiimmm!!!! Outros dois carrões, com suas enormes escadas Magirus. Olhei para o velho Cava. Lívido, ele ponderou: - Melhor irmos lá. Subi a rua num grande constrangimento. Cavalcanti mostrava todo seu fairplay ainda tentando puxar conversa comigo. A comunicação era difícil, pois tínhamos que desviar das poças d'água, mangueiras e fotógrafos. Quando paramos no semáforo da esquina de seu apartamento, senti o cheiro de plástico queimado. Um senhor idoso nos abordou: - Parece que foi dos grandes. Diz que estão saindo umas línguas de fogo de 5 metros… A nonchalance de Cavalcanti acabou ali. Entrou fumaça adentro, saindo do meu raio de visão. Só fui encontrá-lo mais tarde, as chamas já aplacadas. Estava abraçado à mulher, à netinha e a seu gato - não me recordo se exatamente nessa ordem. Quando o vi, comentei: - Que almoço… Ele já voltara ao normal, pois respondeu com um de seus trocadilhos: - Fogo, hem? Começamos a rir de nervoso. Só não gargalhamos mais porque a empregada da dona Wanda, do 42, sufocada pelo fumacê, desmaiou em cima dos meus pés. Carlos Castelo é cronista do Blônicas.
Uma vida muito janeiro.
De Bianca Rosolem. Eu sei que é Janeiro. 2010. Quando ando por São Paulo percebo ainda um certo ar de descompromisso típico de final de ano. Muita gente bronzeada e de roupa branca. Todos ainda sorridentes, e talvez um pouco mais educados e pacientes. Afinal, é janeiro e as promessas estão vivas, ainda não sobreveio nenhum evento que por mais uma vez derrotasse toda a força de vontade em cumprir com listas de objetivos para melhoria pessoal. Bianca Rosolem é cronista do Blônicas. Um domingo, duas gastinhas - Fábula do amor e seu duplo.
De Xico Sá. minhas duas gatinhas voltaram no mesmo dia; a que não era gente ficou, juízo não tinha. As duas, porém, me fizeram felizes do mesmo jeito; cada uma me fez bater de um lado do peito. Uma me deixou nervoso; a outra me fez mais calmo. Quando a primeira saiu, não enxerguei a outra a um palmo. Precavido, porém, tranquei uma delas em casa; perder tem limite, corto-lhe as asas. Mas a história foi bem bonita: quando descobri uma das meninas, amor à primeira vista, ela me trouxe a felina, que no futuro ajudaria a diminuir a sua própria falta. Xico Sá é cronista do Blônicas. O homem mais bonito do mundo.
De Tati Bernardi. Uma vez eu conheci o homem mais bonito do mundo. Eu estava sentada no chão de uma festa com pocinhas. Toda festa de jornalista forma pocinhas, pode reparar. E ele veio falar comigo “vai molhar a calça”. Ah, mas vou mesmo. Se tratava do homem mais bonito do mundo, eu não tinha nenhuma dúvida. Quem poderia ser mais bonito do que ele? Javier Bardem? Não. Basta vê-lo no filme da cólera pra saber o potencial que ele tem pra feiúra. O Brad Pitt? Eu prefiro os morenos. O Jesus Luz? Acho fraco, ele tem aquele lapso de vergonha suburbana no branco dos olhos. Não gosto de homem que se sente devendo algo ao cosmos. Homem que faz pose de topo de cadeia alimentar mas sofre as dores de uma coluna ainda arredondada pelo começo da evolução. Enfim, tratava-se do homem mais bonito do mundo. E ele veio falar comigo. E eu estava sentada no chão. E ali mesmo trocamos uns beijos e telefones e confissões e eu lembro que, apesar de estar com muito sono e cansaço e desesperança com a vida, fiquei tentando descobrir o que um homem daquele nível supremo de beleza (um metro e noventa, olhos azuis, cabelos castanhos cacheados, ombros que iam até o Chile) tinha visto numa garota bem mediana que estava sentada no chão em um dos dias de menor brilho de sua carreira social. Apliquei o teste do cotovelo durante o beijo (a leve roçadinha sem querer pra saber se o membro promete ou não promete). Apliquei o teste da sapiência média (você comenta que quando você olha pro abismo, o abismo olha pra você, e espera pra ver se ele tem alguma cultura de filosofia de almanaque). Apliquei o teste da bobeira erudita, uma merda qualquer que você lança no ar tipo “ai que vontade de chafurdar por essas lamas universais” e se o cara for minimamente interessante ele compra a besteira e devolve uma outra melhor ainda. Se ele for um tapado ele ri e fala algo idiota tipo “quero o mesmo que você está tomando” e daí você sabe que está, novamente, sozinho no mundo. Como sempre. E ele, do alto de sua absurda e dolorosa beleza, foi tirando nota sete e meio em todos os quesitos. Devolveu uma besteira à altura, conhecia frases pessimistas perfeitas para uma noite estrelada e passou com certo louvor no teste do cotovelo. No dia seguinte, já pela manhã, chegou uma mensagem de texto do homem mais bonito do mundo “quero te ver”. E foi então que resolvi pedir ajuda. Juntei a mulherada em casa. E todas nós, em silêncio, começamos a “googla-lo”. Até que uma foto bem grande, dele só de bermuda, sorrindo, ocupou a tela inteira e o coração de todas nós. Algumas suspiraram. Algumas tiveram ataque de riso nervoso. Uma ficou bem irritada e foi embora. Outras me olharam com a miopia bem apertada tentando descobrir que é que eu tinha pra merecer aquilo tudo. Ele era realmente o homem mais bonito do mundo. Todas concordaram. Não existe homem mais bonito do que esse e talvez nunca existirá. E, ao que tudo indica, trabalhador, com amigos do bem, amante da natureza e das crianças. A ficha.com estava limpíssima. Mas v ocê viu se ele…Vi, vi, sim, ele passou no teste do cotovelo. Burro? Não. Então o quê hein? Pois é, amigas tão honestas, eu também não sei o que ele viu em mim. Tentaram uma última explicação, olhando para os meus pés “ah, vai ver ele gosta de sexo bizarro”. É, vai ver. Outra explicou assim “ah, tem tanto casal que a gente vê e não se conforma”. Pois é. Fiquei quarenta e sete dias com o homem mais bonito do mundo. Todo mundo olhava pra ele. Homens, mulheres, velhinhos, crianças, cachorros, pombas, formigas. Ele poderia ter qualquer uma das anjinhas da Victoria’s Secret (caso além de perfeito fosse trilhardário também...não era o caso, mas era bem de vida) mas preferia estar comigo. Ele definitivamente não tinha nenhum problema sexual, aliás, muito pelo contrário: fazia parte do seletíssimo grupo de homens que, apesar de não fazer feio em medidas, são adeptos do sexo minimalista (aquele que sabe o valor da delicadeza pontual, ritmada, paciente e amorosa), entendia os filmes do Reserva Cultural e me explicava as palavras mais difíceis das músicas do Radiohead. Tudo ia muito bem até que um dia, na fila pra comprar uma bomba de chocolate numa rua de Higienópolis, eu resolvi explodir aquela relação. Ele era tão bonito que me...que me...que...sei lá. Lembro que na hora pensei algo assim “ah, má vá ser bonito assim lá na puta queo pariu”. E ele foi. Tati Bernardi é cronista do Blônicas. Chega de férias!
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